Uma cidade é sempre resultado de escolhas e equilíbrios. Entre desenvolvimento e preservação, entre o desejo de crescer e a necessidade de proteger, entre o que se constrói no presente e o que se deseja deixar para as gerações futuras. Em Torres, esses dilemas acompanham a história desde cedo, e a Associação dos Amigos da Praia de Torres – SAPT desempenhou um papel decisivo nesse processo assumindo um papel ativo no planejamento urbano.
Ao longo das décadas, a SAPT foi capaz de pensar a cidade, propor soluções e articular obras que moldaram a paisagem e o cotidiano. Mas essa influência, tão marcante, também abre espaço para reflexões críticas sobre identidade, cultura e sustentabilidade. Desde sua fundação em 1936, a SAPT ajudou a preencher lacunas que o poder público não alcançava. Foi responsável por obras de infraestrutura, melhorias em estradas, geração de energia e até por iniciativas de saúde e segurança. Essa atuação foi fundamental para que a cidade desses seus primeiros passos rumo a um balneário moderno. Mas, ao mesmo tempo em que proporcionava avanços, a SAPT também ajudava a definir um modelo de crescimento que nem sempre dialogava com a complexidade cultural, social e ambiental de Torres.
Ao financiar obras, defender a fixação da barra do Mampituba ou propor a criação da Taxa Balnear, a entidade não apenas oferecia serviços: ela planejava a cidade. Porém, esse planejamento refletia sobretudo os interesses da elite veranista, que moldava Torres muito mais para o turista do que para o morador. Essa herança ainda reverbera hoje, quando se discute qual deve ser a vocação urbana da cidade.
O tema do planejamento urbano, inclusive, chegou a ser assunto em boletins informativos, revistas do clube, relatórios do Conselho e das reuniões de diretoria. Ou seja, pensar a organização da cidade não era apenas uma preocupação técnica: estava presente no cotidiano da entidade e fazia parte das conversas que moldavam os rumos de Torres.
Revisões – entre dilemas do passado e do futuro
É justamente para equilibrar interesses que existe o Plano Diretor, instrumento legal que organiza o uso e a ocupação do solo urbano. Ele define zonas residenciais, comerciais, turísticas e de preservação, estabelece parâmetros para construções, orienta a mobilidade, o saneamento e sobretudo protege áreas sensíveis. Em outras palavras, é a bússola que deve orientar o crescimento da cidade.
Em Torres, esse instrumento estava desatualizado: o primeiro Plano Diretor foi redigido há décadas, e a última versão em vigor era de 1995. Recentemente, no dia 30 de janeiro de 2024, foi assinada a Lei nº 128/2024, instituindo o novo Plano Diretor Municipal.
Foram quase 29 anos sem revisão normativa, durante os quais surgiram grandes transformações na realidade urbana, ambiental, social e turística de Torres, transformações para as quais o velho Plano não dava conta. A proposta do novo Plano foi protocolada em agosto de 2023, após intenso processo de debates, reuniões e audiências públicas envolvendo representantes da comunidade, secretarias municipais, conselhos e vereadores. Ele foi então aprovado. Mas a questão central permanece: até que ponto o Plano Diretor de Torres será capaz de garantir a preservação das Áreas de Proteção Ambiental (APAs), das dunas, das falésias e das lagoas, que são justamente o que torna Torres singular? Como vai lidar com a especulação imobiliária no litoral? Com o turismo de massa em temporada? Com o risco de descaracterização da paisagem natural e cultural?
Hoje, Torres enfrenta dilemas que são frutos diretos dessa história: como conciliar a vocação turística com a preservação da paisagem natural que é seu maior patrimônio? Como promover o desenvolvimento urbano sem comprometer os ecossistemas frágeis que sustentam a identidade local? Como garantir que o turismo seja não apenas lucrativo, mas também consciente, respeitoso e inclusivo..

SAPT como guardiã da memória urbana local
A SAPT, guardiã de parte importante da memória urbana, também nos lembra que planejar não é apenas construir obras, mas pensar valores. A identidade de Torres não se resume a edifícios ou avenidas: ela está no encontro do rio com o mar, nas falésias que emolduram a cidade, nas histórias que circulam entre moradores antigos e veranistas, no equilíbrio delicado entre natureza e cultura.
O paralelo com a SAPT é inevitável. Se no passado a entidade ajudou a erguer a cidade física, hoje é necessário erguer uma cidade consciente. Não basta repetir um modelo de desenvolvimento que privilegia apenas o turismo e pressiona o meio ambiente. O Plano Diretor precisa ser mais do que um mapa técnico: deve ser um pacto social, inclusivo e democrático, que aprenda com a história, tanto com os acertos quanto com os erros. Porque planejar não é apenas construir. É pensar valores, preservar a memória e proteger o que é singular. O futuro de Torres não pode repetir os erros de uma urbanização apressada que desconsidera o meio ambiente e as identidades que habitam a cidade. É preciso aprender com a memória, mas olhar para frente com responsabilidade.
A SAPT, com sua história de quase noventa anos, pode continuar a ser referência, não apenas pelo que construiu, mas pelo que ainda pode inspirar: um planejamento urbano que una desenvolvimento, consciência e respeito à singularidade da mais bela praia gaúcha.
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