CASAS VELHAS: Crônica imaginária de uma conversa entre o passado e o futuro em Torres

"Imaginei um bate-papo improvável entre uma das VELHAS CASAS de Torres e o suposto PROGRESSO". Confira a seguir

7 de outubro de 2025

Com a desenfreada busca por mais espaço para construção na cidade, uma área conhecida como centro histórico está na mira dos especuladores imobiliários. Essa, que foi a primeira região de colonização da cidade e que ainda abriga um pequeno número de antigas construções, parece ter sido redescoberta — ou cobiçada — pela construção civil.

A diminuição das áreas disponíveis para novas edificações está encurralando as antigas casas. Muitas já ruíram diante da primeira investida, substituídas por estruturas que pouco ou nada dialogam com o lugar. Mais tarde, uma segunda investida deixou esquisitices urbanas: uma parede isolada, com porta e janelas soltas como lembrança daquilo que um dia foi uma casa. Agora, as que restam estão novamente em perigo e pedem, silenciosas, a nossa ajuda.

Para ajudá-las, imaginei um bate-papo improvável entre uma dessas VELHAS CASAS e o suposto PROGRESSO. Ele foi — ou deveria ter sido — mais ou menos assim…

 

PROGRESSO – Por que a senhora quer se eternizar nesta área e impedir o crescimento da cidade? Não vê que o tempo passou?

VELHA CASA – Ora, vejo, sim. Vi o tempo passar pela minha varanda, com a mesma nitidez com que sinto o vento espiar pelas frestas das minhas janelas. E justamente por ter visto tanto, é que continuo aqui. Eu sou a testemunha dos primeiros passos desta cidade. Represento o passado interagindo com o presente, transmitindo conhecimento e contribuindo para a formação da identidade do nosso povo.

 

PROGRESSO – E por que a senhora se esconde atrás de um tombamento?

VELHA CASA – Eu não me escondo. Quero, ao contrário, ser vista. O tombamento é o que me protege. Ele impede a demolição e restringe reformas ou ampliações que possam me descaracterizar. Mas não retira a propriedade do atual dono, tampouco me desvaloriza. Pelo contrário: acrescenta um valor significativo ao meu ser. Ele protege minha essência, mas não me impede de respirar novos usos. Sou casa, mas posso ser museu, galeria, biblioteca, café. Basta querer me entender, não me eliminar.

 

PROGRESSO – A senhora acredita na convivência entre o novo e o antigo?

VELHA CASA – Não só acredito como considero desejável. A arquitetura antiga e a contemporânea podem e devem conviver harmoniosamente. Em muitos países europeus, isso já acontece — e com benefícios até mesmo econômicos. Quem te disse que crescimento precisa destruir o que veio antes? Crescimento de verdade é saber somar, não subtrair. Eu não sou um empecilho: sou um ponto de apoio.

 

PROGRESSO – E o que uma casa velha tombada como você pode oferecer de bom para a cidade?

VELHA CASA – São raríssimas as cidades que possuem amplos conjuntos arquitetônicos passíveis de tombamento. Em geral, o que se tem são bens isolados para preservação. Isso não “congela” o desenvolvimento urbano — ao contrário, valoriza a cidade e dá diversidade à paisagem. Uma casa antiga tombada, como eu, tem sua história preservada e, por meio desse reconhecimento, pode inclusive impulsionar o turismo local. Em termos de sustentabilidade, é uma conquista relevante.

 

PROGRESSO – Então, quer dizer que a sua manutenção e recuperação pode atrair turistas?

VELHA CASA – Sim. É fundamental tanto para o turismo quanto para a comunidade. Além disso, preserva meu valor e me permite ganhar novas funções — seja como espaço cultural, seja para atividades turísticas ou comerciais.

 

PROGRESSO – Que mensagem uma casa velha como a senhora deixaria para os moradores da cidade de Torres?

VELHA CASA – Diria que todos os povos têm o direito — e o dever — de preservar sua memória. Não há futuro forte sem raízes profundas. PROGRESSO não é só o que se ergue rápido e alto: às vezes, é o que resiste. PROGRESSO, muitas vezes, é também a capacidade de preservar. Nem todo novo é melhor. Às vezes, o novo é apressado, genérico, sem alma. E eu não falo só de mim: falo de cada canto da cidade que carrega história, mesmo que não pareça importante. A tarefa de preservar é, também, uma missão de amor. Amor pela cidade, pelos que vieram antes e pelos que ainda virão.

O envelhecimento das cidades exige, cada vez mais, um olhar preservacionista — tanto daqueles que cuidam dos testemunhos do passado quanto dos que constroem o presente e planejam o futuro. Cada imóvel, cada canto da cidade, seja ele recente ou antigo, deve ser observado com atenção: se é para manter, modificar, eliminar ou integrar algo novo, que se faça com responsabilidade.

Preservar o passado, construir o presente e planejar o futuro — esse é o fio da história. Quem assume esse compromisso — planejadores, arquitetos, cidadãos — torna-se um missionário da cidade. Trabalhar com o patrimônio arquitetônico é lidar com a tensão entre criar e conservar, entre o antigo e o novo. E, num tempo em que tudo parece ter data de validade programada, a busca cega pelo novo pode nos desviar daquilo que realmente importa.

Quando a cidade aprende a ouvir suas casas antigas, descobre que há ali mais que madeira e cal. Há narrativas. Há poesia na sombra do beiral, há ensinamentos no rangido do assoalho, há beleza nos desgastes do tempo. E, quem sabe, nesse diálogo improvável entre o ontem e o amanhã, a cidade encontre o seu hoje mais pleno, mais sábio, mais verdadeiro.

 

Fontes: Adaptação de textos da Cartilha do Ministério do Turismo; Patrimônio & Especulação Imobiliária, de Clênio Sierra de Alcântara; Conservação e Restauro da Arquitetura, organização de Márcia Braga.

 




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