A cidade de Torres vive, hoje, algo parecido com a história de um filme uruguaio lançado há quase 40 anos, ambientado na pequena cidade de Melo, na fronteira com o Brasil. Para explicar o paralelo, começo contando — com spoilers — o enredo do filme.
Em 1988, Melo se preparava para receber a visita do Papa João Paulo II. A expectativa mobilizou a cidade inteira, formada em grande parte por moradores pobres, muitos vivendo do contrabando de bicicleta. Cada um, à sua maneira, vislumbrou ali uma chance de enriquecimento rápido. Beto, o protagonista da história, decide investir todas as suas economias na construção de um banheiro público em frente à sua casa, certo de que a multidão de peregrinos o transformaria em um empreendimento lucrativo. Mas os visitantes esperados não chegam em número suficiente, e muitos, como Beto, terminam com prejuízos e frustrações. O filme, mais do que uma fábula sobre um banheiro, é um retrato humanista e irônico das esperanças de uma comunidade inteira projetando sonhos de prosperidade a partir de um evento extraordinário.
Em Torres, guardadas as proporções, temos vivido algo semelhante. Cada empresa local, muitas vezes de forma isolada, projeta uma necessidade para a temporada — baseada em constatações, suposições ou pura esperança — e se prepara para receber “seu turista”. Às vezes funciona. Na maioria das vezes, não. O que ainda sustenta minimamente a economia turística é o mesmo modelo que move todo o litoral norte gaúcho: o turismo de Sol e Mar.
Mas esse modelo é vulnerável. Fatores incontroláveis — econômicos e ambientais — influenciam diretamente a quantidade de visitantes e o tempo de permanência deles na cidade. Esses fatores, por sua vez, impactam o dinheiro que circula na economia local.
Depois da aprovação e implantação do infeliz Plano Diretor, pouco ou nada nos restou a fazer em defesa daquilo que verdadeiramente atrai turistas e veranistas para Torres: seu meio ambiente. Chegamos a uma encruzilhada. Precisamos decidir entre seguir adiante pelo caminho que nos afasta daquilo que um dia fez de Torres um destino desejado — ou buscar um novo rumo.
Desde os tempos do Picoral, a base econômica da cidade é o turismo. Inicialmente, um turismo de Praia, ou de Sol e Mar, como preferem alguns. Esse tipo de turismo, no entanto, mudou — e nós, junto aos nossos gestores, parecemos não ter percebido ou acompanhado essa transformação.
Em nível global, o turismo de praia passou por um reposicionamento. Se antes era associado ao consumo desenfreado de recursos — construções à beira-mar, lixo no oceano, poluição sonora —, hoje ele se volta a práticas sustentáveis. Exemplos disso incluem:
- Certificação Blue Flag, que garante praias com boa gestão ambiental, qualidade da água, segurança e educação ambiental;
- Eco-resorts, que investem em energia limpa, reaproveitamento da água e valorização de produtos locais;
- Experiências regenerativas, como reflorestamento de dunas, limpezas de praias com participação de turistas e turismo comunitário.
Infelizmente, em Torres, essas práticas ainda estão restritas a ações isoladas de ONGs. Os órgãos públicos têm feito quase nada nesse sentido. Se continuarmos nesse ritmo, em breve não teremos mais praias limpas o suficiente para atrair — ou reter — os turistas e veranistas que hoje nos sustentam.
A sustentabilidade, que um dia foi diferencial, tornou-se eixo central na valorização dos destinos de Sol e Mar — no Brasil, no mundo e, sim, no litoral do Rio Grande do Sul. Ela atrai visitantes conscientes, prolonga a vida útil do destino e aumenta o prestígio e o valor econômico dos lugares que apostam em um futuro equilibrado.
E essa é a chave: o que atrai turistas, veranistas e investidores hoje não é apenas o sol ou o mar. É a qualidade de vida — um lugar ainda seguro, sem poluição, com natureza preservada e beleza para além do óbvio. Para Torres, isso representa uma enorme oportunidade: deixar de ser apenas um destino sazonal de veraneio e se tornar uma referência em convivência harmônica entre natureza, cultura e desenvolvimento.
Claro que esse movimento deve partir do poder público — afinal, muitas dessas ações dependem de decisões e investimentos governamentais. Mas não é uma tarefa exclusiva da administração. É um esforço coletivo, que deve envolver empresários, moradores, entidades civis e todos os setores da cidade.
E há outro risco à espreita. Estamos próximos do esgotamento dos poucos espaços “aptos” para a construção de novos edifícios. E, quando isso acontecer, o que farão os construtores? Buscarão outras cidades para repetir o mesmo modelo, deixando para trás um aglomerado verticalizado e sufocante. Torres corre o risco de se tornar um lugar onde a promessa de uma “vista eterna para o mar” se dissolve a cada alteração na legislação urbanística.
É esse o destino que queremos?
A lição de Melo está diante de nós. Não podemos continuar construindo banheiros para um Papa que talvez nunca venha. Precisamos pensar a cidade de forma coletiva, planejada e sustentável. Caso contrário, também ficaremos apenas com o prejuízo — e com as ruínas de uma esperança mal orientada.
*A opinião dos colunistas de A FOLHA Torres é independente e não corresponde necessariamente ao pensamento do veículo de comunicação*

