Ao lado do cemitério, no Morro do Farol, podia-se ver a cidade, o mar e a serra.
É isso mesmo: um cemitério no Morro do Farol. Ele ficava atrás do antigo farol (o de 1952), exatamente onde hoje se estacionam os carros para observar o mar lá do alto.
“Os historiadores nos dão notícia da existência do cemitério de Torres localizado no Morro do Farol, também chamado de Torre do Norte. Realmente, o cemitério ali se conservou até a década de 1960, proporcionando um ambiente triste e melancólico para os que visitavam o farol.”
As autoridades da época consideravam incômodo manter um cemitério no ponto mais alto da cidade, de onde se podia vislumbrar Torres em toda a sua extensão. Era consenso que um cemitério ali comprometia o potencial turístico de um dos cartões-postais do município. Assim, decidiu-se pela remoção dos túmulos para o Campo Bonito.
“Por iniciativa da SAPT e com sua colaboração financeira, a Prefeitura Municipal de Torres, sob a gestão do prefeito Manoel João Machado, promoveu a remoção do cemitério. Os restos mortais de cerca de 30 tumbas, colocados em jazigos perfeitamente identificados, foram transferidos para o Cemitério Municipal, nas imediações da BR-101, na entrada da cidade.”
Esse não foi o único cemitério da cidade. Antes dele, já existiram outros dois, identificados por historiadores — sem contar os cemitérios indígenas, cuja localização é mais difícil de precisar, embora haja alguns indícios.
De acordo com o historiador João Barcelos, à época em que Torres era habitada pelo poderoso, político e polêmico padre Lomônaco, a cidade possuía dois cemitérios: “um oficial, no alto do Morro do Farol, em cuja porta aconteceram fuzilamentos; e outro, clandestino, no sopé sul-serra do mesmo morro, que Manoel Jausino e Ernani Hoffmeister chamam de ‘cemitério velho’, e que o Dr. João Aires da Silva, grande conhecedor dos assuntos históricos e, principalmente, geográficos da região, chama de ‘cemitério dos degolados’, local onde pessoas eram executadas.”
O cemitério do Morro do Farol existia bem antes da construção do primeiro farol. Segundo historiadores, ele já funcionava em 1894 — ano em que, segundo registros, ocorreram ao menos dois fuzilamentos em sua entrada. O primeiro farol só seria instalado ali em 1912.
O segundo cemitério localizava-se na atual rua Cruzeiro do Sul. À época, nem havia rua naquele trecho — era apenas o início das dunas, que dominavam a paisagem e teimavam em soterrar as casas próximas. A fúria das areias não poupou nem o velho cemitério. Segundo Ruy Ruben Ruschel, ele foi criado entre 1861 e 1862, sendo desativado após 1898 justamente pela invasão das areias. Também é conhecido como “cemitério dos degolados”.
Ainda há registros e indícios da existência de outros dois cemitérios: um em frente ao Farol Hotel e outro nas imediações da Igreja São Domingos. O primeiro foi descoberto durante uma escavação para a construção de um conjunto de lojas, em 1973, quando foram encontrados esqueletos. Após muita polêmica, essas ossadas foram “identificadas” como sendo do casal Cândida e Manoel Rodrigues da Silva — genro de Manoel Ferreira Porto e pai de José Rodrigues da Silva. Mas a verdade é que persistem muitas dúvidas: teria ali existido mesmo um cemitério? Ou seria apenas o local do sepultamento do casal? E mais: seriam eles, de fato, os sepultados?
O outro cemitério, próximo à igreja, continua envolto em mistério.
Turismo cemiterial
O fato é que, ao redor do mundo, cemitérios guardam os restos mortais de muitas personalidades — e, com isso, atraem curiosos e visitantes. Com o tempo, muitos desses locais passaram a ser vistos como atrativos turísticos, especialmente em cidades com poucos pontos turísticos tradicionais.
Paris já atrai milhões de turistas por sua arquitetura e cultura. Mas, entre seus diversos atrativos, está o chamado turismo cemiterial — modalidade que consiste na visitação a cemitérios. O mais famoso da França é o Père Lachaise, considerado o cemitério mais visitado do mundo, com cerca de 2 milhões de visitantes por ano. Lá estão sepultadas personalidades como Chopin, Oscar Wilde, Balzac, Marcel Proust, Modigliani e Edith Piaf.

Mais próximo de nós, o Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, atrai milhares de turistas interessados, sobretudo, no túmulo de Evita Perón.
Em Porto Alegre, os cemitérios também têm despertado interesse turístico, graças à riqueza artística de seus monumentos e aos túmulos de figuras históricas como Otávio Rocha, Júlio de Castilhos, Pinheiro Machado e o cantor Teixeirinha — todos no Cemitério da Santa Casa de Misericórdia.
Dentre os cemitérios da capital gaúcha, destacam-se o da Santa Casa, o São Miguel e Almas e os cemitérios São José I e II, que mais parecem museus a céu aberto, com cerca de 300 obras de arte produzidas por artistas europeus e locais entre 1820 e 1940.
O turismo cemiterial valoriza o patrimônio artístico e arquitetônico dos cemitérios, além de resgatar a memória das personalidades ali sepultadas. Trata-se de uma atividade que pode gerar frutos para todos os envolvidos no setor turístico, transformando um aparente “incômodo” em mais um produto cultural de uma cidade ou região.
Ironia dos tempos: removemos um cemitério histórico em nome do turismo — e é justamente o turismo que hoje justificaria a sua preservação.
Fontes: CHAIEB, José; DINIZ, Peri Pinto; MIRANDA, Jorge Babot. Memórias da SAPT. Porto Alegre: Nova Prova, 1996. SITE PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE. REVISTA TURISMO. Artigo de Mara Inez Ludwig Valio, Turismo Cemiterial. Historiador João Barcelos.

