Meu país negro,
Tão cheio de cores,
Totalmente negro
Desde a estupidez flutuante
tenazes de ferro
Inspirando os salsos brancos
Das montanhas de açúcar,
Dos fardos de algodão,
Dos punhos engomados da sociedade ser-vil
Meu país negro
Tão cheio de dores
Totalmente negro
Na insensatez hiante
Sobre espirais de fumo
Delirando ternuras brandas
No auge de abolição
No mito da integração
Nos sulcos magoados da república sutil
Meu país negro,
Tão cheio de amores.
Totalmente negro
Na tez dominante
Sobre os corpos gemidos
Inspirando suaves mentiras
Sobre a cordialidade
Sobre a maldade
Nos falsos argumentos de uma democracia senil
Meu país negro,
Sorrisos negros, negras em flor
Tão cheio deles por todas partes
Tão cheio deles por todas as artes
Cheio de negros em fétidas prisões
Cheio de negras na branca perdição
Cheio de meninos negros à espera da maldição
E só um carnaval para redimi-los.
Cumpri-los
em sua impenetrável ambição
*dedicado ao líder negro, Abdias Nascimento (1914-2011)

