Não sei quem inventou isso, mas tem a cara do brasileiro. Temos a mania — ou costume — de tocar nas pessoas, nas coisas… e alguns até exageram, pegando ou puxando quem está ao lado. Por aqui, é suportado. Lá fora, nem sempre.
Em diversos lugares do mundo, essa “mania” de tocar objetos e pessoas não é tão comum. A exceção acontece quando se trata de monumentos com certa expressão ou que carregam algum misticismo ou crença. São lugares onde a interação física se mistura com a fé popular, e o ato de tocar uma parte específica da estátua muitas vezes promete atrair sorte, amor, fertilidade ou saúde. Essa é uma tradição fascinante, presente em várias culturas espalhadas pelo mundo.
Em muitos dos lugares que já visitei, invariavelmente existe um, dois ou mais monumentos que — diz a lenda — te darão algum benefício futuro se você esfregar a mão em determinada parte da estátua.
Os pontos de toque são os mais variados, assim como os tipos de monumentos. Vão de partes comuns como mãos, pés, nariz (ou focinho), orelhas… até os mais inusitados, como seios, nádegas e até regiões mais íntimas. Vou contar um pouco sobre alguns que conheci — e outros que, embora não tenha tocado pessoalmente, vi através de outros viajantes.
Na cidade de Praga, na República Tcheca, na famosa Ponte Carlos, a estátua de São João Nepomuceno é o exemplo perfeito dessa categoria. Acredita-se que tocar as placas de bronze na base da estátua (especialmente a que representa o cão e o martírio de Nepomuceno) traga sorte e garanta o retorno à cidade. O brilho dessas partes é prova visível de milhões de toques ao longo dos anos. Espero voltar lá — não necessariamente para tocar na estátua novamente, mas para tomar mais algumas pivo (cervejas), que são ótimas e baratas.
Em Verona, a tradição é que tocar o seio direito da estátua de Julieta (no pátio da Casa de Julieta) traz sorte no amor — ou ajuda quem busca encontrar sua alma gêmea. A estátua está visivelmente desgastada nessa área. A disputa para colocar a mão ali é tão grande quanto a pressa para tirar a foto. Minha vez foi disputada com a italiana mais brava e mal-educada que já conheci — mas o meu sangue italiano, misturado ao brasileiro, venceu a batalha.
Na feira de Florença (Firenze) foi mais tranquilo. O famoso Porcellino (javali de bronze) no Mercado Novo é um ponto turístico muito visitado, mas não tão concorrido quanto Julieta. A crença popular diz que, para ter sorte e garantir o retorno à cidade, é preciso colocar uma moeda na boca do javali e, se ela cair na grade abaixo, então esfregar seu focinho. O focinho, naturalmente, está brilhante. Eu só esfreguei o focinho… não coloquei a moeda. Era euro!
A estátua da cantora Dalida (uma das maiores estrelas da música francesa) fica na Place Dalida, uma pequena praça em Montmartre, Paris, próxima de onde ela morava. Muitos tocam a estátua em busca de sorte — mais especificamente, os dois seios. Diferentemente de Julieta, que se toca apenas um, Dalida é tocada nos dois. Igualdade, talvez.
Ainda em Paris, no Cemitério Père Lachaise, o túmulo de Victor Noir é o mais famoso nesse quesito. O jornalista do século XIX tornou-se símbolo de fertilidade e sorte na vida amorosa. A estátua, realista, possui uma saliência visível na região da virilha, que se tornou alvo de rituais supersticiosos. Mulheres costumam tocar ou até beijar os lábios da escultura, o que causou um desgaste evidente e até alteração na cor do bronze. O cemitério também abriga personalidades como Jim Morrison, Edith Piaf e Frédéric Chopin — mas poucos recebem tantas carícias quanto Noir.
Seja superstição, brincadeira ou tradição cultural, o fato é que o toque se transformou numa espécie de idioma universal. Entre fotos, risadas e mãos curiosas, o mundo vai se conectando por meio de gestos simples que carregam significados profundos. No fim das contas, talvez o que buscamos ao tocar essas estátuas não seja apenas sorte ou amor, mas uma forma de deixar nossa marca — ou levar conosco um pouco da alma dos lugares por onde passamos. Nós, brasileiros — conhecidos por nosso jeito supersticioso, caloroso e expansivo — nos identificamos facilmente com essas tradições mundo afora e, muitas vezes, até parecemos protagonistas delas. Mas a verdade é que o toque como gesto místico ou simbólico já existia em muitas culturas muito antes de nós. Talvez, no fundo, não tenhamos exportado essa mania, mas apenas reconhecido nela algo que já era nosso — uma conexão antiga, feita de fé, desejo e curiosidade.
