O “advento” é o período de quatro semanas que antecede o Natal , iniciando-se, na tradição católica, no primeiro domingo deste interregno por missas anunciadoras deste tempo, em todos os cantos do mundo. Trata-se de um período de reflexão e espera, na expectativa da “Boa Nova” trazida pelo Natal. É um momento para que nos preparemos para a reunificação das famílias, dos homens de boa vontade e de todos os povos do mundo, sem rancores , sem preconceitos, sem outro sentimento que aquele ocupado pelo Amor.
Sim, porque a grande ceia da noite de Natal não é senão um artifício para a celebração da concórdia entre todos nós. É a confirmação do Amor, que estará naquela Ceia, no momento da reunião familiar, quando centenas e até milhares de quilômetros foram tragados por ansiosos passos em direção a este encontro. -“Para onde voltamos sempre? Para casa” , se perguntava e respondia o filósofo Novallis. Pois é em casa, no amplexo familiar, que renovamos as energias afetivas para enfrentar as adversidades de um ano novo que já se anuncia. Um ritual, mas que contribui para pontualizar a monotonia do tempo e das coisas . É em casa, enfim, que a dor dói menos e a alegria é mais alegre.
O “advento” foi celebrado na Idade Média com belos cantos gregorianos, os quais que induzem à meditação e ao mistério. Esses belos cânticos, aliás, podem ser ouvidos na Radio Mec – www.radiomec.com.br – durante os domingos, pela manhã no mês de dezembro. E aqui fica a conclamação para que todas as Rádios, comerciais, culturais e comunitárias, façam o mesmo.
Aproveitemos, pois, o Advento, para pensar um pouco no mundo – ocidental – em que vivemos, pluri-cultural, multi-étnico, democrático, embora essencialmente cristão -, como síntese da razão helênica cevada na antiga Grécia e a fé de um homem simples que peregrinou pela Galileia e deixou, indelével, sua mensagem.
Hoje vivemos um momento difícil de nossa História. A razão e a liberdade, que pareciam sustentar a construção de um homem capaz de construir seu próprio destino, transformaram-se no seu oposto. As esperanças de um mundo melhor parecem soterradas na multiplicação sem par da miséria, na destruição do Planeta, na disseminação do vício e da depressão.
Há cem anos era outro o estado de espírito da humanidade. Havia um grande otimismo entre cientistas, políticos e artistas que faziam da capital do mundo, Paris, com sua elegante Torre Eiffel, recém construída, com suas grandes feiras industriais, com suas avenidas coalhadas de poetas e pintores, uma verdadeira consagração do mundo novo. Acreditava-se, piamente, que o Reino da Necessidade, do obscurantismo, das perseguições, estaria superado em pouco tempo.
Hoje, esse otimismo cedeu lugar à duvida, em alguns casos ao pessimismo, nos mais agudos, ao desespero. E o pior, parece que todos rumamos para esse desespero. Fomos “descontruídos” pela filosofia, pela política, pela arte, pela realidade de um mundo marcado por duas grande guerras que liquidaram praticamente 100 milhões de pessoas no século passado. O sonho do progresso e de paz num planeta outrora verde transformou-se no pesadelo do holocausto nuclear. Esta decomposição pode ser vista, como já dizia o filósofo Cornelius Castoriadis, em 1993 (A Encruzilhada do Labirinto) “sobretudo, no desaparecimento das significações,no desaparecimento quase completo dos valores. E este desaparecimento é, a termo, ameaçador para a sobrevivência do próprio sistema”.
O que aconteceu…?
Não é fácil responder à esta indagação. Ela move e comove pessoas do todos os matizes religiosos e ideológicos.
Uma das principais contradições da civilização ocidental talvez seja sua obstinação em reduzir todas as suas conquistas ao Mercado, e do Mercado ao dinheiro. Numa sociedade na qual se vale pelo que se tem, onde o enriquecimento é a medida dos valores sociais e na qual o lucro se converte no objetivo último da atividade econômica, a razão se instrumentaliza a serviço dessa causa. Sobra, na margem, um pequeno espaço para a caridade cristã, para a a ação de obstinadas ONGs, quando não contaminadas por interesses espúrios de políticos inescrupulosos, para a proliferação de clubes de serviços sociais e outros afins. Mas o que é realmente levado a sério é lucratividade dos setores ditos produtivos, cujo vigor acabará determinando o nível de emprego e salário, o quantum de arrecadação de impostos e o volume do comércio em nível global. Essa razão instrumentalizada para o sacrossanto lucro empresarial é levada às últimas conseqüências e , na verdade, acaba se transformando no seu contrário: a des-razão. O que é a especulação financeira em giros meteóricos, sob o influxo da telemática e que devora países inteiros pela crise, senão uma verdadeira paranóia? Como sustentar valores morais, que estão no cerne da condição humana, como um ser capaz de pensar e erigir-se socialmente sob o império da Lei, quando um “valor mais levanta” e impõe sobre todos os demais a sua própria lei, que é a da supremacia do ter sobre o ser?
O que fizemos da liberdade conquistada, do progresso conquistado, da razão domada? Onde pusemos o ensinamento platônico de que primeiro deveríamos velar pelas virtudes, depois pela razão? Nada…
E assim, de sujeitos capazes , dotados de razão, liberdade e progresso, na rota do projeto iluminista ocidental da autonomia humana, fomos, nos degradando.
Aproveitemos, pois, o Advento, o Natal e esse momento de trégua para uma reflexão sobre nosso destino, hoje ameaçado pela iminência de um holocausto nuclear. Há tempo para tudo. Agora é hora de pensar. E pensar com coragem. Com o sentimento de que seremos imortais por esse pensar e agir. E não apenas só por orações.
* Coluna originalmente escrita por Paulo Timm em dezembro de 2009 e é adaptada, apenas, a cada ano subseqüente.
