Assim como um ser vivo, um destino turístico tem início, meio e fim — ou, como preferem os estudiosos, nascimento, crescimento/desenvolvimento e declínio. Mas esse fim, em turismo, não é definitivo. Ao contrário: pode significar apenas uma nova oportunidade de recomeço. Em que estágio estaria Torres hoje? Para tentar responder, recorro tanto à teoria quanto à história.
O modelo de ciclo de vida de destinos turísticos proposto por Richard Butler (Lohmann, 2008) continua sendo uma das melhores ferramentas para compreender essa trajetória. Segundo ele, os destinos passam por seis estágios principais: Exploração, Envolvimento, Desenvolvimento, Consolidação, Estagnação. A partir daí, três caminhos são possíveis: declínio, estagnação prolongada ou rejuvenescimento, dependendo da capacidade de planejamento e gestão local.
O Início: Balneário Picoral e o Estágio da Exploração
Segundo Ruy Ruben Ruschel, foi depois de um frustrante veraneio em Tramandaí que Picoral decidiu transformar Torres em uma moderna estação balnear. Em 1915, com apoio de figuras locais como João Pacheco de Freitas e Carlos Voges, inaugurou o Balneário Picoral, oferecendo alimentação, pouso e lazer — algo muito semelhante ao que hoje chamamos de resort. Nascia ali o turismo planejado em Torres.
Esse momento representa com clareza o primeiro estágio do modelo de Butler: Exploração. Seguiu-se o Envolvimento, quando surgiram os primeiros serviços turísticos para atender à crescente demanda de visitantes. Durante quase duas décadas, Picoral e seu balneário foram os principais agentes dessa transformação.
Desenvolvimento e a Força da SAPT

Em 1936, com o ocaso do Balneário Picoral, outra chama se acendeu: a da SAPT — Sociedade dos Amigos da Praia de Torres. A reunião de fundação ocorreu no salão do próprio Hotel Picoral, numa noite de fevereiro. Ali, homens se uniram por amor à cidade e traçaram um novo rumo para o balneário. A SAPT elevou a praia à condição de destino sofisticado e elitizado — estávamos no estágio do Desenvolvimento.
Conforme os anos passavam, o nome de Torres começava a ecoar além das fronteiras do Rio Grande do Sul. A chegada maciça dos argentinos, nos anos 1980, impulsionou a cidade ao estágio da Consolidação. Com seus verões longos e hábitos distintos, os argentinos tornaram-se quase nativos, voltando ano após ano, até que a crise econômica de 2002 na Argentina freou esse ciclo, mas não o extinguiu.
Estagnação: A Repetição do Mesmo Modelo
Hoje, Torres exibe marcas claras da Estagnação. A cidade cresceu, mas sua infraestrutura não acompanhou tanto esse avanço. O glamour deu lugar à praticidade; casas de veraneio e terrenos vazios cederam espaço a edifícios altos. O perfil do visitante mudou. O veranista, que antes passava temporadas inteiras, hoje mal fica uma semana. O turismo e o veraneio se fundiram em uma nova atividade econômica — mas as estratégias, em grande maioria, continuam as mesmas de 50 anos atrás.
As gestões públicas se sucedem, mas o planejamento é curto, limitado ao calendário anual. Enquanto o mundo do turismo avança em inovação e experiência, Torres ainda insiste em operar sob uma lógica sazonal e imediatista.
Rejuvenescer: Um Novo Ciclo é Possível
Estamos vivendo o início de um novo ciclo? Talvez. Mas como sempre acontece com os ciclos, só o reconheceremos plenamente no futuro, quando olharmos para trás com a mesma saudade que hoje dedicamos ao tempo de Picoral, da SAPT e dos argentinos.
No entanto, esperar passivamente não é opção. Cabe aos gestores de hoje fazer o que Picoral e os fundadores da SAPT fizeram no passado: pensar Torres para os próximos 20 ou 30 anos. Rejuvenescer o turismo é possível — e necessário. Mas isso exige planejamento, ousadia e a capacidade de romper com velhos padrões.
Porque, no fim, é sempre a mesma história — e a história, como as marés, se repete.
** As opiniões dos colunistas de A FOLHA Torres são independentes e não representam necessariamente o posicionamento do veículo de comunicação**
