VIVER DE TURISMO: Nossa história que se repete em Torres

Me peguei relendo algumas páginas da nossa própria história. E não é que, em Torres, muita coisa parece rodar em círculo?

23 de dezembro de 2025

Confirmando o velho chavão repetido pelo jornalista Eduardo Bueno — “Um povo que não conhece a própria história está fadado a repeti-la” — me peguei relendo algumas páginas da nossa própria história. E não é que, em Torres, muita coisa parece rodar em círculo?

“A política administrativa de uma cidade que vive da indústria do turismo contém nuanças bem diversas daquelas cujas economias tem por base a indústria diversificada ou a agropecuária. Nestas, a vida raramente é sacudida por acontecimentos sociais; têm um tranco certo, um ritmo, simplificando a esquematização administrativa. Nas outras, ao contrário, a vida é — e deve ser — essencialmente dinâmica, variada, renovada a cada ano, tendo em vista sua efêmera existência fora de seus eixos normais, comumente chamada de temporada, quer de praia, quer de serra.

Autoridades, comércio em geral, toda a sociedade dessas cidades, de uma noite para outra, são jogadas fora de seus trilhos comuns, exigindo, assim, de seus filhos, agilidade física e mental superior à dos outros. Apresentar algo novo, mostrar interesse em agradar e servir aos visitantes (que constituem suas bases econômicas) é um dever daqueles que dirigem e vivem em tais meios.”

E ele segue descrevendo como, nessas cidades movidas a verão, tudo gira em função de uma tal “temporada”. Autoridades, comerciantes, moradores — todo mundo é arrancado de sua rotina e jogado de cabeça nesse período efêmero, onde tudo precisa acontecer rápido, bonito e bem feito. E mais: é preciso agradar, servir bem, sorrir, inovar. Todos os anos. Sempre.

Esta crônica foi escrita em 1985 pelo escritor Francisco Raupp e, como se vê, continua atualíssima. Sempre tivemos uma noção clara da nossa condição de vivermos basicamente do turismo — e isso não mudou, nem parece que mudará nos próximos 30, 40 ou 50 anos. Toda a economia de Torres, assim como a do litoral norte do RS, depende do turismo. Isso está registrado na história desta região e não pode ser negado.

Lendo aquilo, me vi pensando: nossa realidade não mudou quase nada. Sempre soubemos que vivemos — e provavelmente continuaremos vivendo — do turismo. Isso está na alma de Torres e do litoral norte do Rio Grande do Sul. E, mesmo quando tentam dizer que temos a construção civil, a indústria moveleira… bem, pra quem estamos construindo? Para quem fazemos os móveis? Na maioria das vezes, para os de fora. Para os que vêm. Para os que voltam. Veranistas, turistas, ou quem sabe um pouco dos dois.

Raupp já enxergava tudo isso lá atrás. Inclusive, sugeriu — em uma crônica publicada no Correio do Povo — que as escolas ensinassem aos pequenos como tratar bem quem nos visita. Uma ideia simples: educar desde cedo para o bem-receber. Afinal, é mais fácil educar do que tentar consertar depois.

“Faz alguns anos, publiquei no Correio do Povo uma crônica em que sugeria à diretoria do Colégio Marcílio Dias, à época, a inclusão, no currículo escolar do ensino primário do município, de algumas noções sobre como tratar os visitantes de Torres, bem como a importância de respeitar suas propriedades, não as depredando — pois é bem mais fácil educar do que reeducar.”

Ano após ano, a cidade e seus moradores se preparam para receber turistas e veranistas — e, ainda assim, as dificuldades persistem. Uma delas é justamente o “bem receber”, citado por Raupp. Já naquela época, ele indicava um caminho que só muito mais tarde foi seguido, com a implantação da disciplina de Turismo nas escolas municipais. A proposta era informar os alunos do ensino fundamental sobre o que é o turismo e suas implicações na vida das pessoas que vivem em destinos turísticos. A finalidade era formar alunos capazes de replicar esse conhecimento — e o espírito de bem receber — a seus familiares e amigos, formando assim uma rede ampla e de longo alcance. Uma rede de hospitalidade.

Anos depois, a ideia saiu do papel. A disciplina de Turismo foi colocada no currículo das escolas municipais. A intenção era clara: mostrar aos alunos o que é o turismo, o que ele traz, o que ele exige. E, quem sabe, espalhar esse conhecimento pela cidade, via famílias, vizinhos, amigos.

Mas, como acontece com tantas boas intenções, a iniciativa foi sendo engolida por dificuldades — técnicas, políticas, talvez até por desinteresse. E a disciplina desapareceu do currículo. Sumiu, feito neblina em manhã de verão.

E aí eu volto ao começo. A história vai se repetir?




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