URBAN SKETCHERS: antigos (e novos) desenhos nas ruas em Torres

Antigamente — muito antigamente mesmo — era comum encontrar, pelas ruas das cidades espalhadas pelo mundo, um artista parado na calçada, tripé armado, tintas abertas, o olhar atento ao que passava.

20 de janeiro de 2026

Antigamente — muito antigamente mesmo — era comum encontrar, pelas ruas das cidades espalhadas pelo mundo, um artista parado na calçada, tripé armado, tintas abertas, o olhar atento ao que passava. Alguns pintavam a paisagem onde viviam; outros, a impressão que ela lhes causava; havia ainda os que traduziam, em pinceladas fortes, aquilo que acreditavam enxergar por dentro. Assim nasceram as telas de Monet, Renoir, Van Gogh — e tantas outras, menos famosas, mas igualmente carregadas de tempo e memória, que atravessaram os anos até chegarem aos nossos olhos.

Nessas telas, desenhos e rabiscos, os artistas tinham o dom de congelar o tempo naquele exato momento e eternizá-lo. Isso foi, de certo modo, o que fizeram os artistas ao longo dos anos. Não é exagero dizer que alguns lugares se tornaram turísticos porque um artista os pintou antes. Há muitos exemplos, mas talvez nenhum tão emblemático quanto Vincent Van Gogh. Ele eternizou em quadros diversos lugares, pessoas, paisagens e prédios e deixou famosa uma pitoresca vila francesa perto de Paris, Auvers-sur-Oise, lugar onde produziu intensamente e onde, em 1890, encerrou sua breve e turbulenta passagem pelo mundo.

Edward Hopper é outro dos meus favoritos nesse modo de retratar o cotidiano e o lugar onde se vive. Era conhecido por sua habilidade em capturar cenas do dia a dia, inspiradas pela vida urbana moderna das grandes cidades, especialmente Nova Iorque, frequentemente reconhecível em suas pinturas por sua arquitetura singular. Hopper não pintava apenas lugares; pintava atmosferas.

Se tivéssemos a oportunidade mágica de voltar no tempo e caminhar pelas ruas das cidades em que esses artistas moraram, quem sabe poderíamos encontrar Van Gogh ou Hopper com seus tripés e tintas, eternizando alguma paisagem.

Pintura de Francis Pelichek

Aqui mesmo em Torres, se pudéssemos voltar a um século atrás, também encontraríamos artistas assim. Alguns famosos estiveram por aqui, e há registros que provam isso. Uma fotografia guarda o instante em que Francis Pelichek, artista e professor da UFRGS, tcheco de nascimento, aparece em plena criação, diante da paisagem.

 

Urban Sketchers: Retomada torrense

Mais perto dos nossos tempos, na década de 90, floresceu um grande movimento artístico em Torres- e que tivemos a oportunidade de ver e participar – sobraram momentos em que o artista e a paisagem apareciam juntos, em sintonia a vista de quem passasse por perto.

Para minha alegria – e de muitos outros – há algum tempo, mais precisamente em 2022 algo semelhante voltou a acontecer. Surgiram novamente pelas ruas pessoas com pranchetas, tripés ou simples cadernos de desenho. e começaram a retratar a cidade. Passaram por atrativos turísticos, prédios históricos, praias e ruas da cidade, retratando tudo o que viam e sentiam, eternizando cada momento em um papel ou tela. De cada encontro ficaram registradas a visão dos artistas e seu sentimento sobre aquilo que viam, in loco.

Essas pessoas fazem parte da comunidade global conhecida como Urban Sketchers (USk). Ela é composta por artistas (profissionais e amadores) que praticam o desenho de observação – in loco – em cidades e vilas onde vivem ou viajam. O movimento foi fundado em 2007 pelo jornalista espanhol Gabriel Campanário quando no The Seattle Times (USA) registrava em desenhos suas atividades na cidade e nas viagens que realizava. Desde então, a comunidade vem se espalhando pelo mundo, formando em várias cidades grupos locais que tem por finalidade registrar na forma de desenhos ou pinturas a cidade, os monumentos, as edificações, as transformações do local que residem ou as viagens que realizam.

Em Torres, o Urban Sketchers Torres Beach começou em outubro de 2022. De lá para cá, o grupo foi reconhecido oficialmente pela coordenação mundial, recebeu o carimbo que identifica seus encontros e já realizou 29 deles. Nestes encontros foram registrados diversos pontos turísticos da cidade como o morro do Farol, as Torres que dão nome à cidade, a Prefeitura Velha, o Torreão (em completo abandono), o hospital, a ponte pênsil e alguns prédios tradicionais.

A escolha dos locais nunca é aleatória. Há sempre uma história a ser contada, algo que merece ser preservado, uma memória pedindo atenção. Depois de cada encontro, os desenhos são fotografados e compartilhados.

Segundo a coordenadora do grupo, Marta Schneider da Silva, a comunidade não tem fins lucrativos, não tem fins comerciais, não tem atividade vinculada a qualquer grupo político, é aberta e livre a todas as idades, às diversas técnicas ou nível de preparo artístico. Basta gostar de desenhar e de participar de um grupo.

“É só chegar com seu material preferido e participar, todos são bem-vindos”, enfatiza Marta.

E talvez seja exatamente isso: chegar, parar um pouco, olhar melhor.

Desenhar, no fundo, pode ser só uma desculpa bonita para não deixar o tempo passar despercebido.

 

Fonte: Urban Sketchers. Coordenadores locais: Marta Schneider da Silva, Gislaine Canosa e Jorge Herrmann.

Redes sociais: @usktorresbeach, no Instagram e Urban Sketchers Torres Beach, no Facebook.




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