O mundo cultural brasileiro festeja mais uma conquista do seu cinema. O “Agente Secreto”, foi selecionado em quatro categorias para o OSCAR 2026. VIVA O BRASIL! De repente, todo mundo começa a se entusiasmar com o cinema que parecia ir perdendo lugar, seja para a TV, seja, para as Redes. Wagner Moura e Fernanda Montenegro são ícones tão conhecidos do público como Neymar. Quem diria…? Mas, além de ver e vibrar com os filmes premiados, é bom aproveitar a onda para se falar um pouco sobre o cinema como indústria.
“O cinema é a sétima arte porque, segundo o crítico Ricciotto Canudo em seu “Manifesto das Sete Artes”, ele unifica as seis artes anteriores (Arquitetura, Escultura, Pintura, Música, Literatura, Dança) através do movimento e do som, criando uma experiência audiovisual completa, que combina elementos visuais e narrativos para expressar a realidade e a condição humana, sendo uma arte dinâmica e imersiva que se tornou um meio poderoso de expressão.” Mas é também uma indústria que envolve milhares de pessoas, exige muito mais do que “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”, como dizia Glauber Rocha. Requisita, além de belas e belos atores, uma infinidade de trabalhadores nas mais diversas etapas da produção cinematográfica – cinegrafistas, fotógrafos, iluminadores, designers, etc – , além de especialistas na direção e, sobretudo, produtores, que financiam esta verdadeira “fábrica de sonhos”. Re quer, também, “locações”, lugares onde o filme será rodado, além das externas, que nos beneficiam pela beleza natural.
Mas o cinema é também um importante vetor do soft cultural de um país, que não só eterniza, como divulga e motiva para estilos de vida e formas de organização da sociedade. Os americanos fizeram de Hollywood um dos principais instrumentos de venda do “american way of life”.
Pensando nisso tudo, associado ao fato de que Torres já havia se oferecido como cidade cinematográfica para diversas produções, que se iniciaram com “Vento Norte”, em 2011, divulguei e colhi muitos apoios para transformá-la num Polo de Cinema do Rio Grande do Sul. O Manifesto foi publicado, creio que no Jornal Vale das Águas, mas não teve grande apoio da comunidade.
Curiosamente, anos depois, encontrei na Confeitaria do Lago, um consagrado jornalista, que aqui veraneou durante muitos anos: Luiz Carlos Machado Lisboa , jornalista e escritor, natural de São Gabriel e falecido aos 94 anos em Porto Alegre, em 2022. Ele foi um dos grandes incentivadores da cultura no Rio Grande, tendo sido um dos inspiradores do Bric da Redenção e do Festival de Cinema de Gramado. Aliás, contou-me ele, neste encontro que tivemos, que levou esse Festival para Gramado porque a ideia foi sumariamente rejeitada aqui pela comunidade, que temia fôssemos invadidos por gentes estranhas aos costumes da nossa Boa Sociedade. Falei-lhe, a propósito, da ideia do Polo de Cinema aqui e ele a achou simplesmente espetacular, embora pessimista quanto à sua aceitação pela comunidade. Foi-se esse grande jornalista, levando consigo muitas realizações, mas deixou-nos este estímulo para que Torres não desistisse do polo de Cinema. Honro, hoje, sua memória e suas expectativas quanto a Torres.
Foi-se o tempo… e aproveito este clima de euforia com o Oscar para voltar ao assunto. Primeiro, há que motivar, enfim, as autoridades para a oportunidade e conveniência de uma ideia como essa. Depois, sensibilizar a comunidade para que abrace a ideia levando-a às autoridades estaduais no sentido de obter o indispensável apoio à ideia. Enfim, arregaçar as mangas e fazer o que já ocorre em São Paulo e Pernambuco: mãos à obra. Talentos não nos faltam. Nem capacidade executiva. Talvez, sim, um pouco de compreensão, mais além dos políticos que ainda sonham em fazer de Torres a Camboriú do Rio Grande, quanto ao papel contemporâneo da Economia da Cultural, como fator de geração de emprego, renda, alegria e muito orgulho.
*** A opinião dos colunistas de A FOLHA Torres é independente e não necessariamente representa o posicionamento do veículo de comunicação***

