Um pouco mais sobre a formação do Parque da Guarita, em Torres

"O Parque Estadual da Guarita que existe hoje é uma fração do que se sonhou — e a área efetivamente aberta ao público não passa de alguns hectares de trilhas e mirantes. Ele encolheu para conseguir sobreviver" (por Roni Dalpiaz)

12 de maio de 2026

** Continuação do assunto iniciado nas semanas anteriores. Clique aqui para ler a coluna “Quem eram os donos da terra?” **

 

Como é curioso olhar para lugares de beleza ímpar e imaginar como seriam se certos fatos — e certas pessoas — não tivessem atravessado a sua história. Ao observar hoje o Morro do Farol e todo o seu entorno, é inevitável perguntar: como seria se o farol não tivesse sido instalado ali?

Talvez a conhecida Torre Norte continuasse com seu nome antigo. Talvez estivesse tomada por casas de veraneio ou ocupada por moradores locais. E se o cemitério tivesse permanecido ao lado do morro — será que o lugar ainda exerceria o mesmo fascínio sobre quem o visita?

Não é simples adivinhar o que teria sido. Mas essa tarefa se torna menos incerta quando conseguimos acessar as intenções do passado — aquelas que, de fato, deixaram marcas no presente.

Uma dessas mudanças começou antes do que se costuma imaginar. Em 1957, o governo do Estado já havia desapropriado uma pequena área na região das Torres — cerca de 8 hectares — pertencente a uma fundação e a uma família tradicional da cidade. Era um gesto ainda tímido, mas que apontava para algo maior.

Em 1968, uma nova leva de terrenos foi incorporada, desta vez incluindo a encosta que desce até a Guarita. O cenário, no entanto, estava longe de ser simples: a região era formada por inúmeras propriedades, muitas delas adquiridas como investimento ou reserva, com registros antigos e, por vezes, imprecisos. Em muitos casos, não se sabia com exatidão onde terminava uma propriedade e começava outra.

Foi nesse cenário que, em agosto de 1971, o engenheiro Plínio Totta escreveu uma carta que mudaria o destino do lugar. Preocupado com o que via acontecer ao redor das Torres, ele alertou o Secretário de Turismo do estado: se nada fosse feito, o Parque da Guarita seria “completamente sufocado e imprensado contra o mar por uma cinta de concreto armado”. Já havia construções clandestinas de madeira sendo erguidas dentro da área. Era urgente agir.

O governo ouviu. No fim de 1971, foi assinado um decreto prevendo a proteção de 1.232 hectares — quase 1.200 campos de futebol. Uma equipe percorreu a região durante meses, batendo de porta em porta para localizar e contactar cada proprietário. Foram mais de 500 registros levantados, entre pequenos lotes e grandes fazendas.

O decreto também estabelecia critérios precisos de limite, incluindo uma faixa de cerca de 120 metros a partir da linha d’água — uma fronteira que ajudou a conter a ocupação direta da orla e que contribuiu para preservar a paisagem como a conhecemos hoje.

A proteção aconteceu, mas não sem custo. Indenizar tantos proprietários revelou-se caro demais, e o parque foi progressivamente reduzido. O Parque Estadual da Guarita que existe hoje é uma fração do que se sonhou — e a área efetivamente aberta ao público não passa de alguns hectares de trilhas e mirantes. Ele encolheu para conseguir sobreviver.

O parque que hoje se conhece representa, portanto, não apenas uma decisão, mas o resultado de um processo — feito de intenções, limites práticos e ajustes ao longo do tempo. Entre o que se planejou e o que foi possível realizar, consolidou-se a paisagem que hoje parece natural, mas que também é fruto da história.




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