PARQUE DA GUARITA: Quem eram os donos da Terra? (Parte 2)

"Um dos cenários mais belos do litoral gaúcho. Ali, em volta da sua casa, estava o que viria a ser o futuro Parque da Guarita. Ele era um dos donos daquela terra. Mas quem era ele — ou melhor, quem eram eles —, os donos dessas terras no passado?"

5 de maio de 2026

*** Continuação ao assunto iniciado na coluna da semana passada – acesse aqui para ler***

 

Ele levantava todas as manhãs, abria a janela e deixava o olhar correr livre pela paisagem. Era simplesmente uma pintura — dessas que não se cansa de ver. Um dos cenários mais belos do litoral gaúcho.

Ali, em volta da sua casa, estava o que viria a ser o futuro Parque da Guarita.

Ele era um dos donos daquela terra.

Mas quem era ele — ou melhor, quem eram eles —, os donos dessas terras?

As fotografias antigas sugerem um vazio. Um silêncio. Como se tudo ali fosse apenas natureza esperando ser descoberta. Não era.

De acordo com o levantamento de 1951 e os registros de desapropriação de 1972, por trás daquela paisagem havia um emaranhado de interesses: famílias tradicionais, veranistas da elite de Porto Alegre, instituições religiosas, associações operárias e empresas loteadoras. Um território disputado antes mesmo de ser preservado.

A pequena casa de madeira, fincada na base da encosta, era a prova disso. Resistia como um resto de mundo antigo. Pelos mapas e registros, tudo indica que pertencia — ao menos no papel — à família Kuwer, que dominava a subida da Praia da Cal e a entrada da Guarita. Aquela casa e algumas outras foram as últimas presenças privadas antes da limpeza do terreno que abriria espaço ao traço de Burle Marx.

O projeto original, oficializado pelo decreto de 1971, era colossal: previa 1.232 hectares de preservação. Grande demais para caber na realidade. O Estado logo colidiu com o patrimônio da elite industrial do Rio Grande do Sul. Sobrenomes que carregavam peso como Bins, Neugebauer, Wolf e Blaschke lideraram uma forte resistência jurídica que forçou o poder público a um recuo estratégico.

As grandes áreas foram sendo devolvidas. Era isso ou comprometer os cofres públicos. Restou ao Estado concentrar esforços naquilo que realmente não podia perder: os morros, a orla, o cenário.

As terras das famílias Kuwer e Pozzi, donas do “filé-mignon” próximo à Praia da Cal, entraram no parque após batalhas judiciais que elevaram o valor das indenizações muito acima da oferta inicial. A área da Lagoa do Violão e da Torre do Meio foi preservada por meio de acordos institucionais com a Fundação Cicharo (pertencente à Igreja Católica). Até o sonho do lazer operário do Círculo Operário Leopoldense, com seus cinco hectares em Itapeva, acabou interrompido nesse processo.

O parque que hoje conhecemos é, na verdade, um recorte possível daquele plano original.

Um recuo.

Mas foi justamente esse recuo estratégico que impediu que a temida “cinta de concreto armado”, citada no Ofício de 1971, avançasse sobre as torres basálticas. O que hoje conhecemos como o Parque Estadual José Lutzenberger é o que restou de uma vitória viável contra a urbanização total.

O Parque da Guarita não nasceu pronto. Foi sendo desenhado aos poucos — entre avanços e recuos, decisões calculadas e outras quase acidentais. No meio desse processo, ficaram marcas curiosas, episódios improváveis e detalhes que ajudam a entender como esse lugar tomou a forma que tem hoje.

São histórias pequenas, às vezes esquecidas, mas que dizem muito.

E é por elas que começaremos a seguir na próxima semana.

 

*** A opinião dos colunistas de A FOLHA Torres é independente e não necessariamente representa o posicionamento do veículo de comunicação***




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