O torrense de coração Valmir Zanelatto recebeu premiação em concurso realizado pela Casa do Poeta Latino Americano (Capolat) entregue em evento no plenarinho da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Trata – se do III Concurso Cultural de Histórias, Contos, Crônicas, Poesias da CAPOLAT.
Ano passado, Valmir já havia sido condecorado pela mesma instituição. Desta feita o artista inscreveu sua criação Cansaços do Papai, que ficou em segundo lugar na categoria Histórias.
A Casa do Poeta Latino-Americano (CAPOLAT) é uma entidade cultural brasileira fundada em 1979, com sede em Porto Alegre (RS), dedicada a promover o ativismo cultural, o incentivo à leitura e a valorização de escritores. A instituição frequentemente organiza antologias, prêmios e coletâneas literárias.
Veja a seguir parte resumida do texto, conforme encaminhado pelo autor:
OS CANSAÇOS DO PAPAI
Crescemos vendo o papai sempre em movimento. Desde pequenos, acostumamo-nos com aquele homem que saía cedo, trabalhava sem descanso e carregava no rosto as marcas das preocupações da vida. Às vezes reclamava de alguma coisa, às vezes nos dava conselhos duros, outras vezes permanecia em silêncio, perdido nos próprios pensamentos. Naquele tempo, não compreendíamos o peso que carregava. Éramos pequenos demais para entender a responsabilidade de um pai que vivia para sustentar, proteger e preparar o futuro dos filhos.
Com o passar dos anos, fomos crescendo juntos, sempre acompanhando os passos do papai. Víamos nele um exemplo de honestidade, firmeza e dedicação. Era exigente, perfeccionista, gostava de tudo certo e bem feito. Muitas vezes ouvimos seus sermões e até alguns xingões que, naquele momento, nos pareciam exagerados. Hoje entendemos que cada palavra vinha carregada de cuidado. O jeito duro escondia um amor imenso e uma preocupação constante para que nenhum de nós se perdesse pelo caminho. Seguíamos atrás dele como quem acompanha alguém que conhece a estrada da vida. Quando mudava de direção, mudávamos também. Quando errávamos os passos, ele logo nos chamava de volta. Trabalhou sem descanso, enfrentando as dificuldades da vida sem demonstrar fraqueza. Ao lado da mamãe, construiu uma família baseada no respeito, na honestidade e no esforço.
O tempo passou depressa. Crescemos, formamos nossas famílias e seguimos nossos caminhos. Mesmo um pouco mais distantes, continuávamos olhando para ele como referência. Mas então começamos a perceber algo diferente. O homem forte, que parecia nunca cansar, começou a diminuir o ritmo. Seus passos já não tinham a mesma pressa. Às vezes parava no meio da caminhada, respirava fundo e olhava para trás, como quem revia tudo aquilo que havia construído. Percebíamos um sorriso sereno em seu rosto ao notar que seus filhos estavam bem. Aquilo parecia lhe trazer paz. Sabíamos que carregava dentro de si as dificuldades da juventude, as dores e necessidades que enfrentara quando era novo. Talvez por isso tivesse trabalhado tanto durante toda a vida: não queria que passássemos pelas mesmas dificuldades que ele conheceu. Mesmo cansado, continuava trabalhando. Parecia que pai nunca deixa de cuidar dos filhos. Mas agora tudo era diferente. Já conseguíamos enxergar o peso dos anos sobre seus ombros.
E então compreendemos que havia chegado a nossa vez de caminhar ao lado dele. Passamos a nos aproximar mais. Às vezes bastava ouvirmos suas histórias com atenção. Outras vezes precisávamos ajudá-lo nas decisões mais simples, apoiar seus passos ou apenas segurar sua mão em silêncio. Sem percebermos, fomos retribuindo aos poucos tudo aquilo que recebêramos durante a vida inteira. Hoje entendemos que cuidar do papai nunca foi obrigação. Sempre foi amor. Um amor feito de gratidão, presença e respeito. Porque ele passou a vida inteira abrindo caminhos para nós, e agora somos nós que caminhamos ao seu lado, tentando tornar mais leve essa última subida da ladeira da vida.
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