POR QUE PESSOAS MORAM NAS RUAS? Casos de Torres (RS)

Colunista de A FOLHA Torres, Dani dos Santos Pereira conversou com várias pessoas em situação de rua de nossa cidade para ouvir um pouco de suas histórias de vida e entender sobre os motivos que lhes levaram para as ruas

imagem meramente ilustrativa (divulgação Google)
17 de junho de 2026

Pobreza, brigas familiares, drogas, bebidas e outras tantas razões, depoimentos de pessoas em situação de rua mostram o que as colocou nessa condição e as dificuldades do dia a dia nas ruas de Torres.

Conheci um morador por acaso quando fui indicado para ele por ter sido do sindicato. Ele me solicitou ajuda dizendo ser profissional da construção na região de Torres, me mostrou sua CTPS, que comprovavam sua experiencias, entrei em contato com um amigo dono de uma construtora local, que aceitou dar oportunidade a ele, desde que eu me responsabilizasse por ele já que não tinha residência fixa. Ele resolveu contar um pouco de sua história, e convenceu outros moradores a contar a coluna Voz dos Bairros, os motivos que os levaram a viver sob marquises, sem amparo de um amigo, família e até mesmo do poder público. Fernando, disse, “Somos todos invisíveis. Nossa presença não faz diferença para ninguém, apenas para aqueles que sentem medo ou raiva. Acham que todos são vagabundos, mas estão enganados. Eu sou um homem de bem, de família, estou aqui de passagem, vim para trabalhar, mas fui enganado e me encontro nesta situação”.

 

Solidariedade – Quando me aproximei e disse que faria companhia ao grupo ao longo da noite, alguns se espantaram, outros duvidaram. Afinal, não é sempre que recebem visitas, além daqueles que chegam para ficar. Um, mais exaltado, avisou que não queria falar nada. Logo foi contido e acalmado pelos demais. Um outro estava sentado retirado, ouvindo a Voz do Brasil, em um rádio a pilhas, perguntei por que estava retirado dos demais. Ele disse, rindo. “Precisamos saber o que está acontecendo no mundo”, brincou o morador. (Não foi identificado local onde estavam a pedido deles, por segurança).

O banco improvisado com pedaços de madeira estava forrado com um lençol, a frente, colchões e papelões estavam estendidos e eles esperavam o sono chegar. Um morador se ofereceu para dividir o cobertor, a barraca improvisada e até um pedaço de pão. Mas eu estava ali, naquela noite fria de sexta-feira (12), para ouvi-los e entender porque durante o dia eles têm abrigo e a noite, em muitas cidades, são colocados para fora.

 

Histórias de vida e motivos para estarem nas ruas – João Luiz Barbalho, de 57 anos, disse ser de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Contou que há oito anos mora nas ruas. Disse que o principal motivo por estar nas ruas foi a perda do filho, aos 14 anos, que morreu com um tumor na cabeça. “Deus levou o meu filho com apenas 14 anos. Foi um choque para mim. Não consegui me reerguer e estou aqui por causa desses problemas da vida”, relembrou.

Fernando Pereira Sales, de 41 anos, veio do Nordeste para trabalhar em uma obra,  mas disse que  “o empreiteiro deu cambão em nós e no dono da obra, pegou o dinheiro e fugiu sem nos pagar e sem terminar a obra; aí tivemos que sair da casa alugada para nós, e estou na rua há cinco meses”. Disse, ainda, que a família não sabe que está na rua,  que mantém contato com uma irmã, tem duas filhas que pensam que está bem. “Vou vencer, vou conseguir guardar um dinheirinho. Não quero voltar com aquela sensação de derrotado, porque sai para trabalhar. Quero lembrar que sofri, mas não foi em vão” falou. “ Minha história começou a mudar, graças ao senhor pela oportunidade, confiando em mim, me encaminhando para o emprego, agora com emprego fixo posso alugar uma casa, tocar minha vida e diminuir essa visão das pessoas em relação aos moradores de rua. Para muitos como eu, falta alguém como o senhor que nos de oportunidade de emprego”.  disse.

Rodrigo Souza, 29 anos, relata que, quando mais jovens, seus pais brigavam muito e quebravam tudo dentro de casa. “Sai com minha tia, quando voltei, a minha mãe tacou pedra em meus olhos. Fizeram cirurgia, não deu certo. Vizinhos denunciaram para o juizado, quando me levaram para Casa de Passagem,  depois para o abrigo. Ninguém quis adotar um menino cego”, desabafou.  Disse recordar também do dia em que foi avisado que o seu pai havia morrido atropelado. Que  ficou no abrigo até os 18 anos e depois, sem ter para onde ir, foi para as ruas de São Paulo. “Eu morava numa casa abandonada, deitava e saia 5h para vender picolé. Não bebo, não fumo e não uso drogas, graças a Deus, fui surpreendido por viciados que foram retirados do centro, que não aceitaram local que prefeito determinou, e se espalharam pela cidade. Não podia conviver com eles, porque nunca fui preso e não tenho vicio, aí resolvi sair para as ruas. Vi um casal passando dificuldade para trocar o pneu do motorhome na chuva, me ofereci para ajudar, não aceitei pagamento, ela segurou meu braço e disse, entre e tome um banho, vou ver roupas secas depois te levamos, quando eu disse que não tinha para onde ir e expliquei o que tinha acontecido. Falou que eram do Sul, perguntei se podiam me levar até Curitiba, mas terminei vindo parar aqui, para não mais atrapalhar eles. Aproveitei um momento que abasteciam e desceram para comprar algo, fiz um bilhete agradecendo por tudo e os deixei, do local onde me escondi vi ela olhando em volta, terminei chorando quando vi ela secar as lagrimas. Há 43 dias nesta cidade conheci estes amigos. Fernando, prometeu me ajudar quando recebesse, e quando disse pra nós que um senhor viria conversar com a gente, fiquei feliz, porque poderia ser a oportunidade de voltar.  Estava certo, muito obrigado por conseguir transporte que me levará.  Continue assim, sendo este anjo pra nós. Meu sonho era voltar encontrar minha família, ter moradia”, disse Rodrigo.

Zoraide Santos Gonçalves, de 43 anos, é de Minas Gerais,  e há um mês mora na rua. Disse que fugiu de casa cansada de ser espancada pelo marido; que toma remédio controlado e ficava dopada, quando  o companheiro se aproveitava para agredi-la. “Meu marido é alcoólatra e batia em mim, eu  acordava toda machucada … A Lei Maria da Penha não funciona. Fui pra casa de minha mãe, mas meu irmão não me aceitou deixar as coisas lá. Os dias na rua são difíceis, mas prefiro estar na rua a ser agredida seguido. É muito ruim estar aqui, por causa do frio, chuva, mas estou melhor do que lá. Eu tomo remédio controlado. Hoje peço aos colegas que me olhem, que me vigiem, sou respeitada…A moradora que se diz apresentar como excelente cozinheira,  diz ainda que tem  cinco filhos, que a mas procuraram não sabe que ela está na rua, embora saiba que   esperavam que isso poderia acontecer, porque  um dia avisou que iria pra rua. “Eu não cuidei deles, como eles vão querer cuidar de mim?”, indaga, continuando:  “Que Deus os abençoe. Oro pelos meus filhos. Eu estou caminhando com Jesus”, afirmou.

Já Saulo da Silva da Rosa, de 31 anos, é do Rio de Janeiro. Disse que saiu do estado por causa de conflitos (não disse quais), e que  a vida da sua família estaria em risco se permanecesse. “Sem destino sai, fui andando de cidade em cidade, percorri muitos quilômetros, até que encontrei um abençoado caminhoneiro guiado por Deus, que me trouxe até aqui. Vim descarregar cimento e fiquei, me encontro hoje aqui na rua nesta situação, essa turma é minha família, a gente discute, briga, mas é família… e a gente não deixa que ninguém atrapalhe nossas vidas. Acredito que Deus tem um propósito em nossas vidas e não vai me deixar muito tempo nessa situação”. Disse Saulo

 

Quer acompanhar as notícias do jornal A FOLHA Torres no seu celular?

CLIQUE AQUI e acesse nosso grupo no Whatsapp




Veja Também





Links Patrocinados