Cada cidade que possui um museu guarda nele muito mais do que objetos antigos. Guarda memórias, histórias e vestígios de um tempo que já passou. É ali que se preservam fotografias, documentos e objetos capazes de contar às futuras gerações um pouco da trajetória do lugar onde vivem.
Infelizmente, nem sempre esse patrimônio recebe os cuidados necessários. Fotografias se deterioram, documentos desaparecem e parte da memória coletiva acaba se perdendo. Triste, mas verdadeiro.
Recentemente tive a oportunidade de ter em mãos um acervo extraordinário de fotografias e recortes de jornais antigos de Torres. O material foi adquirido pelo município junto a um escritor com raízes na cidade e, felizmente, ainda se encontra em condições adequadas de preservação, aguardando o momento de voltar a integrar um museu de fato.

Ao percorrer aquelas páginas amareladas pelo tempo, percebi algo interessante. Mais do que registrar acontecimentos isolados, os recortes revelavam uma cidade em transformação. Juntos, ajudavam a contar a história de um período em que Torres começava a deixar para trás a condição de simples balneário de verão para assumir características de uma cidade em crescimento permanente.
Um dos textos destacava justamente essa mudança. Sob o título “Torres perde o jeito de balneário só”, o jornal observava que a cidade passava por importantes melhorias urbanas. O canal de drenagem da Lagoa do Violão prometia eliminar os aguapés que tomavam conta da lagoa, facilitando a navegação, a pesca e contribuindo para a melhoria das condições sanitárias.
Mas a transformação ia além. O mesmo texto afirmava que Torres estava perdendo, em definitivo, o aspecto de cidade essencialmente balneária. A construção da BR-101 aparecia como um dos fatores responsáveis por esse impulso, aproximando a cidade dos grandes centros e favorecendo seu desenvolvimento durante todo o ano. As melhorias urbanas já não eram realizadas apenas para atender os veranistas; passavam a beneficiar também quem vivia aqui permanentemente.
Outro recorte registra a inauguração do Cine SAPT, em janeiro de 1964. A nova sala de cinema, instalada no edifício da Sociedade dos Amigos da Praia de Torres, foi apresentada como uma importante conquista para a cidade. Mais do que um espaço de entretenimento, representava a ampliação das opções culturais e de lazer em uma época em que Torres buscava consolidar sua infraestrutura urbana e turística.

Entre os documentos, também encontrei uma reportagem da Folha da Tarde, de janeiro de 1968, que mostrava uma curiosa contradição. Enquanto grande parte da estrada entre Porto Alegre e Torres já se encontrava em fase final de asfaltamento, a entrada da cidade ainda era considerada um dos piores trechos do percurso. Poeira, buracos e trepidações acompanhavam os visitantes nos últimos quilômetros da viagem. A legenda da fotografia era simples e direta: “Precisa mudar”.

Hoje, quando observamos a cidade consolidada, com sua estrutura urbana, suas avenidas, seus equipamentos públicos e suas atrações turísticas, é fácil esquecer que tudo isso foi construído aos poucos. Cada obra, cada melhoria e cada investimento representaram etapas de um processo de transformação que nem sempre foi rápido ou simples.
É justamente por isso que acervos como esse possuem tanto valor. Eles não preservam apenas imagens e notícias antigas. Preservam a possibilidade de compreender como a cidade foi se moldando ao longo do tempo, quais eram seus desafios, suas expectativas e os sonhos de quem viveu aqui antes de nós.
Ao folhear aqueles jornais, tive a sensação de estar observando uma cidade no exato momento em que ela deixava de ser apenas um destino de verão para começar a se tornar a Torres que conhecemos hoje.

