RECORTES DO PASSADO: Quando Torres começou a perder o jeito de balneário

"Mais do que registrar acontecimentos isolados, os recortes de jornais e fotos antigas revelavam uma cidade em transformação. Juntos, ajudavam a contar a história de um período em que Torres começava a deixar para trás a condição de simples balneário de verão para assumir características de uma cidade em crescimento permanente"

FOTO DE ARQUIVO - Vista aérea parcial de Torres, década de 70 (autor desconhecido/ Via acervo Municipal)
14 de julho de 2026

Cada cidade que possui um museu guarda nele muito mais do que objetos antigos. Guarda memórias, histórias e vestígios de um tempo que já passou. É ali que se preservam fotografias, documentos e objetos capazes de contar às futuras gerações um pouco da trajetória do lugar onde vivem.

Infelizmente, nem sempre esse patrimônio recebe os cuidados necessários. Fotografias se deterioram, documentos desaparecem e parte da memória coletiva acaba se perdendo. Triste, mas verdadeiro.

Recentemente tive a oportunidade de ter em mãos um acervo extraordinário de fotografias e recortes de jornais antigos de Torres. O material foi adquirido pelo município junto a um escritor com raízes na cidade e, felizmente, ainda se encontra em condições adequadas de preservação, aguardando o momento de voltar a integrar um museu de fato.

Ao percorrer aquelas páginas amareladas pelo tempo, percebi algo interessante. Mais do que registrar acontecimentos isolados, os recortes revelavam uma cidade em transformação. Juntos, ajudavam a contar a história de um período em que Torres começava a deixar para trás a condição de simples balneário de verão para assumir características de uma cidade em crescimento permanente.

Um dos textos destacava justamente essa mudança. Sob o título “Torres perde o jeito de balneário só”, o jornal observava que a cidade passava por importantes melhorias urbanas. O canal de drenagem da Lagoa do Violão prometia eliminar os aguapés que tomavam conta da lagoa, facilitando a navegação, a pesca e contribuindo para a melhoria das condições sanitárias.

Mas a transformação ia além. O mesmo texto afirmava que Torres estava perdendo, em definitivo, o aspecto de cidade essencialmente balneária. A construção da BR-101 aparecia como um dos fatores responsáveis por esse impulso, aproximando a cidade dos grandes centros e favorecendo seu desenvolvimento durante todo o ano. As melhorias urbanas já não eram realizadas apenas para atender os veranistas; passavam a beneficiar também quem vivia aqui permanentemente.

Outro recorte registra a inauguração do Cine SAPT, em janeiro de 1964. A nova sala de cinema, instalada no edifício da Sociedade dos Amigos da Praia de Torres, foi apresentada como uma importante conquista para a cidade. Mais do que um espaço de entretenimento, representava a ampliação das opções culturais e de lazer em uma época em que Torres buscava consolidar sua infraestrutura urbana e turística.

FOTO ANTIGA – Sede esportiva da SAPT – antes dos Molhes da barra do Mampituba

 

Entre os documentos, também encontrei uma reportagem da Folha da Tarde, de janeiro de 1968, que mostrava uma curiosa contradição. Enquanto grande parte da estrada entre Porto Alegre e Torres já se encontrava em fase final de asfaltamento, a entrada da cidade ainda era considerada um dos piores trechos do percurso. Poeira, buracos e trepidações acompanhavam os visitantes nos últimos quilômetros da viagem. A legenda da fotografia era simples e direta: “Precisa mudar”.

Hoje, quando observamos a cidade consolidada, com sua estrutura urbana, suas avenidas, seus equipamentos públicos e suas atrações turísticas, é fácil esquecer que tudo isso foi construído aos poucos. Cada obra, cada melhoria e cada investimento representaram etapas de um processo de transformação que nem sempre foi rápido ou simples.

É justamente por isso que acervos como esse possuem tanto valor. Eles não preservam apenas imagens e notícias antigas. Preservam a possibilidade de compreender como a cidade foi se moldando ao longo do tempo, quais eram seus desafios, suas expectativas e os sonhos de quem viveu aqui antes de nós.

Ao folhear aqueles jornais, tive a sensação de estar observando uma cidade no exato momento em que ela deixava de ser apenas um destino de verão para começar a se tornar a Torres que conhecemos hoje.




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