Hoje escrevo de Brasília, onde vivi 30 anos, dos 30 aos 60 de idade, e onde fiz minha vida profissional, familiar e pública, eis que aqui exerci muitas funções de governo e até acabei candidato ao Governo, pelo PDT, em 1994. Vim para cá por circunstâncias – “o homem é o homem e suas circunstâncias”, dizia Ortega y Gasset- , logo após ter terminado minha pós graduação no Chile. Havia muitas oportunidades em Brasília que, desde 1968, temendo o Governo Federal a tensão política da época, acelerava não só a transferência dos órgãos federais para a Nova Capital, como também do Corpo Diplomático.
A cidade, então, ainda era pequena, embora com feições estruturais de uma metrópole, inclusive pela majestade dos prédios públicos projetados por Oscar Niemeyer. Havia um reduto de umas 100 mil pessoas no Plano Piloto, hoje Região Administrativa de Brasília, sede de suas escalas monumental e gregária, e umas 200 mil espalhadas pelas ditas Cidades Satélites, algumas originais de Goiás, outras assentadas depois da inauguração da Capital em 21 de abril de 1960, por JK (inaugurada por Juscelino mas providenciada por Getúlio Vargas em 1954).
Hoje o Distrito Federal tem mais de 3 milhões de habitantes e chegou ao primeiro milhão em 30 anos, quando Rio de Janeiro levara 300 e São Paulo, 400, para chegar a tanto. Este, aliás, foi o grande feito da transferência do Rio para Brasília. Este novo polo pouco induziu a ocupação do interior, como se imaginava, mas reorientou fluxos migratórios das profundezas dos sertões interioranos para as luzes de Brasília, primeiro na construção da cidade, depois, para o usufruto de um centro urbano de excelência que lhe proporcionaria um pedaço de chão pra morar, boas escolas para seus filhos estudarem, desenhadas pela mão pródiga de Anísio Teixeira, onde não faltaram Escolas Classe para estudos especiais e uma Escola de Música que formou grandes artistas, e saúde universalizada em seus hospitais, algo que só o SUS entregaria ao resto do Brasil depois da Constituição de 1988.
Insisto no feito humano “revolucionário” deste aglomerado de gentes de várias origens por aqui porque, normalmente, ele permanece escondido nas sombras dos monumentos arquitetônicos, considerado pela UNESCO como um acervo inédito da arquitetura moderna. Brasília é Patrimônio Cultural da Humanidade. Mas o súbito encontro, neste ponto, de tanta gente, com tradições, falares e expectativas distintas teve um efeito gigantesco na literatura local, ao ponto de um engenheiro paulista, formado no Instituto Tecnológico da Aeronáutica ter se impressionado de tal forma que se aventurou a escrever “História da Literatura Brasiliense”, hoje leitura obrigatória para alunos, professores de literatura e escritores da cidade.
Nem tudo, porém, são virtudes em Brasília, embora a pior mancha, que muitas vezes a marque aos olhos do resto do Brasil, sejam dos passageiros do Poder. Não são da cidade, dificilmente criam, aqui, raízes, mas deixam com seus malfeitos uma imagem negativa de Brasília. Jamais os veículos de comunicação abrirão suas manchetes sobre seus escândalos distinguindo-os pelos Estados de origem. É o preço que Brasília paga por ter duas faces como Juno, uma da escala simbólica como capital, outra, da comunidade que aqui vive e trabalha como em qualquer outro lugar do mundo. Claro que a proximidade destas escalas proporciona bons empregos e salários, seja no Congresso Nacional ou no Poder Judiciário, o que torna a renda per capita do DF mais alta do que qualquer dos Estados Federados. Ainda assim, é uma minoria da cidade, como de resto no país, inteiro, a desfrutar desta “ascensão” vertical. Trata-se do modelo da modernização de um país retardatário que, em lugar do aumento dos salários básicos da sociedade, elevando o Consumo Básico das Famílias a um ponto superior a 50% do PIB, vai sempre incorporando, de cima para baixo, pequenas franjas de privilegiados à Classe Média. Assim, nunca passamos de 30% do PIB. E ainda assim, sempre que se fala em aumento do Salário-Mínimo, teto de ganho mensal de 100 milhões de brasileiros, chiam empresários, Prefeitos, economistas e até respeitáveis país de família…

Finalizando, aqui vim ver parte da família. São meus frutos. Mas aproveitei e fui à Convenção Nacional do PDT que indicou Lula como seu candidato à Presidência, num encontro, aliás, que retoma o FIO DA HISTÓRIA já que reúne tanto lideranças de partidos progressistas anteriores a 1964, como os posteriores, como PT, PSOL e PV. Destaco, aliás, o elogio que fez Lula, aí presente, a Vargas, como o maior Presidente do Brasil, e à Brizola, pelo seu empenho à educação. É o reencontro. O diabo espalha e Deus reúne de novo…

