Na segunda coluna da série “Figuras e ruas”, apresento mais alguns personagens, famosos ou não, que emprestaram seus nomes aos logradouros da cidade de Torres. Desta vez, além das ruas, entram também praças e travessas.
São nomes que vemos todos os dias nas placas das esquinas, nos endereços, nas correspondências e até quando alguém nos pergunta onde fica determinado lugar. Mas quem foram essas pessoas? Algumas tiveram ligação direta com Torres; outras pertencem à história do Rio Grande do Sul ou do Brasil. E há aquelas que, apesar de importantes em sua época, hoje são praticamente desconhecidas.
Vamos conhecer algumas delas.
Travessa Balbino de Freitas
Balbino de Freitas foi um dos grandes comerciantes de secos e molhados da antiga vila de Torres. Em sua casa, localizada ao lado da antiga Prefeitura, então chamada de Intendência, funcionava seu armazém. Ali se vendia praticamente tudo o que se possa imaginar que existisse em um estabelecimento comercial por volta de 1900.
Mas Balbino não se limitava a vender mercadorias. Ele próprio fabricava os refrigerantes comercializados no estabelecimento e também produzia um molho chamado “Molho Brasil”, que teria ficado conhecido e apreciado muito além dos limites de Torres.
Outra faceta curiosa de Balbino de Freitas era a de colecionador. Dizem que gostava de escavar os diversos sambaquis existentes na região em busca de objetos arqueológicos. E como havia muitos — e enormes — sambaquis, sua coleção cresceu a ponto de despertar o interesse de colecionadores e museus do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro e até da Argentina.
Hoje, evidentemente, ninguém poderia sair escavando sambaquis à procura de objetos. São sítios arqueológicos protegidos. Naquela época, porém, a preocupação com a preservação desse patrimônio era bem diferente da atual.
Praça João Neves da Fontoura
João Neves da Fontoura nasceu em Cachoeira, atual Cachoeira do Sul, em 16 de novembro de 1887. Advogado e político, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de Porto Alegre.
Sua trajetória política foi extensa. Foi promotor público, prefeito de Cachoeira, deputado estadual, vice-presidente do Estado do Rio Grande do Sul e deputado federal. Mais tarde, chegou à diplomacia, sendo embaixador do Brasil em Lisboa, entre 1943 e 1945, e ministro das Relações Exteriores.
Seu nome ficou em uma das praças mais conhecidas de Torres, embora muita gente talvez conheça melhor o lugar pelo nome popular: as Quatro Praças.
Avenida Silva Jardim
Antônio da Silva Jardim nasceu em 1860 e foi uma das figuras mais atuantes do movimento republicano brasileiro no final do Império.
Formado em Direito, envolveu-se nas grandes questões políticas de seu tempo, entre elas a abolição da escravatura e, principalmente, a implantação da República. Tornou-se conhecido como um dos mais inflamados propagandistas republicanos.
Morreu jovem, em 1891, aos 30 anos, durante uma viagem à Itália.
Seu nome permanece em uma das avenidas de Torres e é um bom exemplo de como as ruas de uma cidade também acabam contando episódios da história do país.
Rua José Guilherme Raupp
José Guilherme Raupp pertence à história política de Torres.
Foi eleito intendente municipal em 6 de fevereiro de 1925 — cargo que, guardadas as diferenças da época, corresponde ao atual prefeito. Seu vice era Luiz Gonzaga Capaverde.
Permaneceu no cargo até 1928, quando renunciou ao mandato. Seu cunhado, José Krás Borges, havia sido indicado como candidato à sucessão.
Hoje, José Guilherme Raupp continua presente na cidade através da rua que leva seu nome, embora poucos dos que passam por ela provavelmente saibam que estão diante do nome de um antigo intendente de Torres.
Praça Pinheiro Machado
“O Condestável da República”. Assim ficou conhecido José Gomes Pinheiro Machado, um dos políticos mais poderosos dos primeiros anos da República brasileira.
Senador pelo Rio Grande do Sul, exerceu enorme influência sobre a política nacional. Sua capacidade de articulação era tamanha que passou a ser apontado como um verdadeiro “fazedor de presidentes”, pela influência que exercia nas decisões sobre quem chegaria ao Palácio do Catete, então sede da Presidência da República.
Sua trajetória terminou de forma violenta. Em 8 de setembro de 1915, Pinheiro Machado foi assassinado no Rio de Janeiro.
Seu nome chegou também a Torres e permanece em uma de nossas praças, mais um exemplo da presença da história política brasileira na nomenclatura das ruas e logradouros da cidade.
Travessa Oscar Raupp
Oscar Raupp nasceu na Colônia São Pedro, em 1904, mas foi em Torres que construiu sua história.
Comerciante, foi responsável por um estabelecimento que, fazendo uma comparação com os dias atuais, poderíamos chamar de uma verdadeira loja de departamentos. Ali se encontrava de tudo um pouco: roupas, tecidos, calçados, artigos de cama, mesa e banho, bazar e até eletrodomésticos.
Para uma Torres ainda pequena, onde o comércio era muito diferente daquele que conhecemos hoje, uma loja com tamanha variedade certamente se transformava em referência para os moradores.
Oscar Raupp também participou da vida pública da cidade. Foi vereador entre 1947 e 1951.
Seu nome ficou em uma travessa e, como tantos outros personagens desta série, talvez hoje seja apenas um nome escrito em uma placa para a maioria das pessoas. Mas, quando procuramos saber quem estava por trás daquele nome, descobrimos um pouco da própria história de Torres.
E é justamente essa a intenção desta série: olhar para as placas que encontramos todos os dias e perceber que, por trás delas, existem pessoas, acontecimentos e histórias que ajudam a explicar a cidade em que vivemos.

