Escrevi, há algum tempo, sobre os nomes das ruas da cidade. Na ocasião, observei que a maioria delas homenageia pessoas que hoje são praticamente desconhecidas da população. Um exemplo é a principal avenida de Torres, a Barão do Rio Branco. Arrisco dizer que quase todos os moradores passam por ela pelo menos uma vez por semana, mas poucos sabem quem foi o Barão do Rio Branco, ou mesmo que “barão” era apenas um título de nobreza concedido a uma pessoa. Basta uma rápida pesquisa para descobrir a história do homem que deu nome à avenida.
Torres possui cerca de 400 ruas com nomes que lembram cidades, estados, datas importantes, povos indígenas, acontecimentos históricos, famílias pioneiras e torrenses ilustres. São homenagens a pessoas que viveram aqui há mais de dois séculos, outras há cem anos e até contemporâneos de meus pais e da minha geração. Muitos deles eu conheci pessoalmente, convivi por serem amigos de meus pais ou até meus próprios amigos. Hoje, seus nomes continuam presentes no cotidiano da cidade que os viu nascer ou que escolheram para viver.
Entre tantas homenagens, selecionei alguns torrenses natos e também veranistas ou personagens ilustres que, de alguma forma, deixaram sua marca na história do município. Procurei reunir informações que nos permitam conhecer um pouco melhor quem foram essas pessoas.
Nesta primeira coluna apresento duas delas, que emprestaram seus nomes a algumas das primeiras ruas de Torres: o alferes e o padre.
Rua Alferes Manoel Ferreira Porto (rua localizada atrás da igreja São Domingos e que sobe para o morro do Farol)
Manoel Ferreira Porto nasceu em Porto dos Casais, atual Porto Alegre. Era filho de um português com uma negra livre. Seu sobrenome, muito provavelmente, faz referência à cidade do Porto, em Portugal, terra de origem de seus antepassados. Foi batizado em Viamão, em 1765.
Em 1803, ainda como sargento, foi designado para comandar a Guarda das Torres, estabelecendo residência na pequena povoação. Chegou acompanhado da esposa Jerônima, do filho Ricardo, ainda de colo, da escrava que servia como ama de leite e de outros agregados.
Naquele período, o principal núcleo populacional da região estava voltado para o interior, abrangendo as áreas onde hoje ficam Itapeva, Estância do Meio, atual Arroio do Sal, e as grandes propriedades rurais. Como um dos pioneiros do povoamento de Torres, acredita-se que sua residência tenha sido a primeira construída na localidade.
Em 1812 foi promovido ao posto de alferes. No comando da Guarda das Torres, recebeu importantes visitantes, entre eles o bispo Dom José Caetano Coutinho, em 1815 e 1816, e o imperador Dom Pedro I, durante sua passagem por Torres, em 1826.
Quando surgiu a possibilidade da construção de uma capela para a freguesia, Manoel Ferreira Porto influenciou para que ela fosse edificada ao lado de sua residência. Essa decisão acabaria definindo o desenvolvimento inicial da vila, pois a comunidade cresceu ao redor da igreja, formando o primeiro núcleo urbano de Torres.
Rua Padre Lomonaco (rua em frente a igreja São Domingos e que liga o centro histórico à praia da Cal)
Padre Giuseppe Lomonaco nasceu na cidade de Aieta, na região da Calábria, sul da Itália. Ordenado sacerdote em seu país, chegou a Torres em 1894 para assumir a recém-criada Paróquia de São Domingos.
Além de exercer o ministério religioso, participou ativamente da vida pública da comunidade, chegando a ocupar uma cadeira na Câmara de Vereadores. Durante seu período como vigário, liderou importantes melhorias na igreja matriz. A mais significativa delas foi a construção da torre da Igreja São Domingos, concluída em 1898, apenas quatro anos após sua chegada. Até hoje ela permanece como um dos principais símbolos da cidade.
A vida do padre também é cercada por histórias curiosas. A mais conhecida delas diz respeito às duas filhas que teria tido, fato incomum para um sacerdote da época e frequentemente lembrado pela tradição oral da cidade.
Padre Lomonaco faleceu aos 90 anos. Inicialmente foi sepultado no antigo cemitério do Morro do Farol. Quando o cemitério foi desativado, seus restos mortais foram transferidos para a torre da Igreja São Domingos, construída por iniciativa dele próprio. Ali permanecem até hoje, identificados por uma placa, preservando a memória daquele que marcou profundamente a história religiosa e social de Torres.
