OPINIÃO – BOMBEIRO DO ALVORADA: Lula joga no curto prazo para conter as crises de 2026

"Essa mudança de postura do STF expõe a virada de página na relação entre o Planalto e a Praça dos Três Poderes.

DemonstraÁ¿o do uso da urna eletrÙnica para as eleiÁ¿es de 2006.
13 de setembro de 2026
A VOZ DOS BAIRROS - Por Dani dos Santos Pereira ________________________

Nas vésperas de mais um teste decisivo nas urnas, o Palácio do Planalto tenta desenhar uma coreografia de estabilidade em meio ao habitual campo minado de Brasília. Os movimentos mais recentes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixam claro que o governo decidiu vestir o figurino de bombeiro institucional, operando em duas frentes simultâneas: a consolidação da paz com o Poder Legislativo e a tentativa de conter um incêndio silencioso aceso entre a Polícia Federal (PF) e o Supremo Tribunal Federal (STF).

A primeira frente ganhou contornos públicos claros no almoço ocorrido no Palácio do Alvorada entre o presidente da República, o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o chefe do Senado, Davi Alcolumbre. A imagem dos três líderes alinhando prioridades legislativas de forte apelo popular antes do período eleitoral — como o debate sobre o fim da escala de trabalho 6×1 e a pauta da segurança pública — é o ápice do pragmatismo político. Ao trazer os presidentes das duas Casas para o centro da agenda governista, o Planalto busca blindar sua governabilidade e garantir entregas rápidas ao eleitorado, diluindo o protagonismo e dividindo o bônus político com o centrão e a centro-direita.

No entanto, a calmaria pactuada no Legislativo contrasta com a fervura nos bastidores judiciais. A determinação presidencial para que o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, procure o ministro do STF André Mendonça escancara uma crise de desconfiança mútua que vinha corroendo as relações institucionais. Mendonça, relator de inquéritos sensíveis e com altíssimo potencial de desgaste político — incluindo investigações sobre fraudes no INSS que esbarram em Fábio Luís Lula da Silva — termina por afastar o diretor da PF, vinha travando uma queda de braço com a cúpula dos investigadores sobre os rumos e as trocas de comando nas apurações.

Ao escalar o Ministério da Justiça e a Advocacia-Geral da União para mediar essa aresta, Lula tenta evitar o pior dos cenários em ano eleitoral: a transformação de investigações em munição diária para palanques opositores. A linha entre a legítima mediação institucional e o incômodo político com o avanço do Judiciário é tênue, e o leitor atento sabe que o distensionamento proposto reflete o instinto de sobrevivência política de quem precisa manter as engrenagens do Estado funcionando sem sobressaltos.

O paradoxo atual da política brasileira reside no fato de que o equilíbrio entre os Poderes não se dá mais pela frieza das leis ou pelo respeito cego à autonomia das instituições, mas sim pelo tamanho da capacidade do Executivo de articular tréguas. Resta saber se o armistício selado no almoço com o Congresso e a diplomacia imposta à PF serão suficientes para manter o tabuleiro estável até que as urnas deem o seu veredito.

 

O Papel do Supremo: De “Escudo” a “Balcão de Negócios”

 

No governo anterior: O STF funcionava como um árbitro rígido e um escudo constitucional, frequentemente acionado pela oposição parlamentar para travar pautas do governo. Houve uma explosão de ações diretas contra medidas do Executivo.

No governo atual: O tribunal assumiu uma função mais política de mediação e conciliação. Um reflexo disso é a criação de núcleos de conciliação interna e o recorde de processos mediados em mesa de negociação coletiva (como o impasse das emendas parlamentares). O STF passou a atuar como um garantidor da governabilidade, ajudando a costurar saídas políticas para crises que o Congresso e o Planalto não conseguem resolver sozinhos.

 

A Divisão Interna e o Xadrez de Indicações

 

A ala bolsonarista vs. a ala governista: O comportamento do STF hoje também reflete as suas próprias divisões internas. O Supremo não é um bloco único. Ministros indicados pelo governo anterior (como André Mendonça e Kássio Nunes Marques) tendem a adotar posturas mais críticas à atuação da PF do atual governo em casos sensíveis. Por outro lado, indicações mais recentes do atual mandatário buscam reequilibrar as forças em prol das pautas governistas.

“Essa mudança de postura do STF expõe a virada de página na relação entre o Planalto e a Praça dos Três Poderes. Se no governo anterior o Supremo agia como um escudo reativo e sob constante ataque retórico, hoje a Corte assumiu o papel de fiadora da governabilidade. O confronto deu lugar à conciliação de bastidores. No entanto, essa aparente harmonia cobra o seu preço: ao funcionar como uma instância de arbitragem política e ao expor suas próprias divisões internas nas investigações que cercam governistas e oposicionistas, o STF flerta perante a opinião pública com o mesmo desgaste institucional que tenta combater.”

 




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