Feira da Biodiversidade de Três Cachoeiras: Variedade e boa alimentação além do supermercado

1 de julho de 2013

 

*Por Guile Rocha  

 

Terça-feira, 25 de junho. Em meio ao clima de manifestos e mudanças dos últimos dias, saí­ de Porto Alegre com os sentidos carregados: tensão, indignação, esperança e dúvida dominavam meus pensamentos. Mas peguei a estrada de volta ao litoral, e minha mente ficou mais leve quando cheguei a 11 ª Feira da Biodiversidade e 4 ª Feira da Economia Solidária de Três Cachoeiras. Longe do fervor da metrópole, o Salão Paroquial ao lado da igreja estava rodeado por estandes, onde pessoas também participavam da construção de uma nova consciência, em busca da prática de atitudes mais sustentáveis e a busca por uma nova concepção de sociedade, menos tencionada pelos exageros do capitalismo e mais harmonizada com o meio ambiente.  

Durante o tempo que estive na feira, algumas dezenas de pessoas devem ter passado pelo local. Não muita gente, é verdade, menos movimento do que na mesma feira do ano passado, segundo os próprios feirantes. Uma das razíµes seria o fato do evento estar acontecendo dentro do Salão Paroquial, e não no pátio em frente, uma área externa com maior visibilidade, onde a feira ocorreu em 2012. Ainda assim, as vibraçíµes de quem presenciou e organizou deste encontro de ideais sustentáveis era totalmente positiva, e   a vontade de estabelecer um mundo mais solidário e consciente, que lá emanava, agora o leitor pode captar em palavras…

 

Muito além do supermercado

 

 As sementes crioulas domesticadas ao longo milhares de anos, em um trabalho coletivo da humanidade,   foram o tema da feira. "Dizemos sementes crioulas no sentido de que foi adequada í s condiçíµes de solo e clima de um determinado lugar. A capacidade de adaptação confere maior resistência í  planta, que consegue produzir bem sem fungicidas, adubos quí­micos e agrotóxicos",   explicou o assessor em Agroecologia Cesar Volpato.

Houveram no total 15 bancas de grupos, associaçíµes, famí­lias e de uma escola, provenientes dos municí­pios de Três Forquilhas, Torres, Três Cachoeiras, Maquiné, Morrinhos do Sul e Ipê. Eles expuseram aproximadamente 200 variedades de alimentos da biodiversidade. A estimativa é de Amilton Munari, da Associação Içara, de Maquiné.   Somente em grãos, a banca do agricultor tinha mais de 35 variedades, algumas delas curiosas e pouco usuais em nosso cardápio diário:  arroz de í­ndio, feijão mexicano, girassol, amendoim de soca e rasteiro, ervilha uruguaia, além de porongos, amoras, várias mudas de cana e diferentes tipos de batatas.

Em outro estande, vi o espantoso pomelo, fruta cí­trica muito popular no Uruguai: da famí­lia da toranja, visualmente é como um limão gigantesco, mas menos ácido e azedo. Além disso, elixires feitos com ervas, que ajudam a prevenir desde dores de cabeça até alergias, sabonetes medicinais, feijíµes coloridos, cactos e plantas ornamentais também chamaram minha atenção. A Feira da Biodiversidade e Economia Solidária ajuda a divulgar espécies tí­picas da nossa terra e exóticas, culturas que são desconhecidas ou ficaram esquecidas por muitos, em meio ao processo de industrialização que se propaga no mercado alimentí­cio e de produtos.

Com o esperto Vicente Wolff, de Maquiné, eu conversei sobre uma raiz que ele produz em sua propriedade: a curcuma, ou açafrão-da-terra, que ajuda a prevenir o mal de Alzheimer e o câncer, além de ser recomendado para quem quer emagrecer. "Os indianos misturaram vários condimentos í  curcuma triturada, e criaram um tempero que se popularizou muito pelo mundo", explica Vicente, que complementa "Estamos muito acostumados a consumir sempre os mesmos alimentos, de forma padronizada, quando na verdade temos uma infinidade de opçíµes para incrementar nosso cardápio de maneira saborosa, criativa e saudável"

 

O curioso Pomelo, uma laranja gigante

 

Da escola ao alimento orgânico

 

No estande do Escola Baréa, de Santo Anjo da Guarda, os alunos distribuí­am mudas entre os interessados, algumas delas cultivadas na estufa da própria escola, outras plantadas nas casas dos familiares dos estudantes. Os jovens alunos explicavam as propriedades medicinais de hortaliças como o cidró, usado contra gases intestinais, dores musculares e insí´nia. "Eles aprendem nas aulas a importância de uma alimentação saudável e o conceito do ecologicamente correto, e trazem isto também para cá", dizia uma das professoras da escola.

Mais adiante, a banca de Vilmar Menegat, mostrava um pouco das 70 variedades preservadas em uma comunidade chamada Vila Segredo, em Ipê, na Serra Gaúcha. "Sempre tivemos a preocupação de ter as sementes para não precisar comprar. Como participo de outros eventos, sempre se faz uma troca. Minha maior garantia quando me perguntam se é orgânico é que tenho minha própria semente".   Menegat afirmou que as sementes que estão no mercado, além de cada vez mais caras, exigem adubos e produtos que colocam mais um custo em cima.

 

Presenças internacionais e governamentais

 

Na feira também conversei com o pessoal do Morro Azul, acompanhado de Ezequiel Ramires, um estagiário da ilha caribenha da República Dominicana, em intercâmbio na nossa região do Brasil. "Vejo por aqui frutas e hortaliças que não conhecia, e algumas que até conhecia porém sem saber suas propriedades alimentares. O pequeno produtor brasileiro é mais organizado e tem mais iniciativa que os agricultores do meu paí­s, creio que vou trazer muitas experiências positivas quando voltar", afirma Ezequiel, com um português quase impecável.

Para o secretário de Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo   do RS, Ivar Pavan, que esteve presente na feira, toda a produção exibida pelos expositores"mostra a importância do alimento agroecológico, que passa a ser consumido em vários segmentos, inclusive em escolas. Isso cria a cultura, já nas crianças, de consumir um alimento de qualidade, priorizando o conteúdo e não a embalagem do produto", destacou.

 

Oficinas e organização

 

Oficinas também foram realizadas na parte da tarde, sendo que "Culnária com frutas nativas" foi a mais disputada, com 23 inscritos.   "í‰ a primeira vez que vejo bolo de Guabiroba, cajuzinho e croquete de pinhão. Estou surpresa de ver tudo que a gente pode fazer", disse a professora Azária Abatti, de Araranguá/SC. Os eventos ofereceram  ainda um café da biodiversidade e um almoço ecológico, preparados por Marlene Apolinário e Zelma Strege Evaldt.

A 11 ª Feira da Biodiversidade e 4 ª Feira da Economia Solidária foram organizadas pelo Centro Ecológico e MMC com apoio da Cooperativa dos Produtores Ecologistas do Litoral Norte do RS e Sul de SC (Econativa) e recursos de Inter – American Foundation (IAF),   Framtidsjorden e Secretaria do Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo/ Governo do Estado do RS.  

 

 


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