Entre opiniões e reivindicações: Em Três Cachoeiras, caminhoneiros falam sobre paralisação que bloqueou estradas em todo o Brasil

5 de julho de 2013

 

Na BR-101, as pessoas paradas em bloqueio acompanham a movimentação dos caminhíµes em sentido inverso, enquanto as manifestaçíµes na estrada se aproximavam do fim  

 

 

Buscando solucionar reivindicaçíµes importantes da categoria, caminhoneiros realizaram, entre segunda (1 °) e quarta-feira (03), uma paralisação geral que fechou rodovias por todo o paí­s, e foi destaque nos meios de comunicação. Em ao menos oito estados, caminhoneiros bloquearam as estradas elencando motivos de sobra para   a manifestação. Os motoristas reclamam das restriçíµes de circulação nas cidades, da falta de segurança nas rodovias e do valor do pedágio, além de defender a redução do preço dos combustí­veis e maior fiscalização de transportadoras ilegais.

Também foram reivindicados a criação da Secretaria do Transporte Rodoviário de Cargas, e a votação da sanção para aprimorar Lei 12619/12, chamada de Lei do Motorista. Ainda entraram na pauta o oferecimento de crédito para quem quer adquirir seu próprio caminhão, definição de salário compatí­vel com a categoria e redução de tempo de serviço para fins de aposentadoria.

 

 

"Brasil é um paí­s que depende dos caminhoneiros"

 

E na tarde desta quarta-feira (03), eu me locomovia de Porto Alegre para Torres, com o intuito de chegar em Três Cachoeiras e fazer uma reportagem exatamente sobre a paralisação dos caminhoneiros. Vale destacar que Três Cachoeiras tinha um importante valor simbólico nessa paralisação, uma vez que, além de ser detentora do tí­tulo simbólico de capital dos caminhoneiros, foi o primeiro local a aderir as manifestaçíµes, com os motoristas bloqueando a BR-101 desde as 6h da segunda-feira (06).

E na BR-101, pouco antes de chegar efetivamente ao meu destino, já me deparei com o primeiro foco das manifestaçíµes. Vários caminhíµes se encontravam parados junto no posto Buffon, localizado alguns quilí´metros antes do centro de Três Cachoeiras, na BR-101. Parei o carro e fui conversar com alguns destes motoristas.

Com 42 anos, sendo 15 destes como caminhoneiro, Alcemir Jesus Schleider, de Joinville, estava estacionado no local esperando o final das manifestaçíµes. "Mesmo se quisesse, nenhum caminhão pode furar o bloqueio. Por mais que as causas sejam justas, a paralisação é obrigatória para todos os caminhoneiros, quem não respeitar é hostilizado" explica. Alcemir também relata as reivindicaçíµes que considera mais importantes para a categoria. "O preço do diesel está muito caro,   causa um rombo no bolso do motorista. Os pedágios também são um absurdo, principalmente nas estradas do Paraná e São Paulo".

Já Zé Luiz Rocha, morador de Três Cachoeiras e também caminhoneiro, fazia-se presente no Posto Buffon apenas como observador, não estando diretamente vinculado í s manifestaçíµes. "Ainda assim apoio a causa, é importante a classe lutar pelas mudanças na Lei do Motorista, pois o maior tempo de descanso pode ser bom para o motorista que trabalha exclusivamente para uma empresa, mas para o autí´nomo tempo é dinheiro, e quanto mais tempo ficamos parados menos podemos render", indica. Zé Luí­s também manda um recado para as pessoas que são contra a paralisação, que efetivamente tem consequências graves na logí­stica de todo o Brasil, uma vez que os prejuí­zos pela falta dos caminhíµes foram milionários nos 3 dias de protestos(seja pelos atrasos nos prazos ou por mercadorias estragadas). "Que bom seria se tivéssemos mais portos e ferrovias para escoar a produção, mas não temos. A verdade é que o Brasil é um paí­s que depende dos caminhoneiros, e se todos parassem o Brasil simplesmente não teria como fazer rodar suas mercadorias. Por isso o povo tem que entender que é justa a nossa luta por direitos".

 

Mais de meia hora parado na estrada

 

Parei minha conversa quando, de repente, várias viaturas da Polí­cia Rodoviária Federal (PRF) passaram em alta velocidade pelo local. "Pelo jeito eles estão indo para acabar com o bloqueio", me disse Zé Luí­s. Então me despedi, e fui correndo para o meu carro para tentar cobrir o acontecimento. Dirigi mais uns quilí´metros e, por volta das 16h45, a menos de 50 metros da entrada de Três Cachoeiras, uma das viaturas da PRF bloqueou totalmente a pista, impedindo que qualquer veí­culo passasse. Estacionado no meio da BR-101, saí­ do carro e fui conversar com o policial, saber o que estava efetivamente acontecendo. "Bloqueamos a pista para garantir a segurança. O pessoal do choque da Polí­cia Rodoviária Federal e a Brigada Militar estão negociando com os manifestantes o fim da paralisação, e não sabemos como eles vão reagir a esta negociação. Já tivemos casos de carros e caminhíµes sendo alvejados por pedras por alguns caminhoneiros revoltosos, e por isso decidimos bloquear a pista até que a situação se resolva", me informou ele.

Em frente a mim, conseguia ver a fila de caminhíµes parados que, segundo um morador de Três Cachoeiras me informou, seguia por quilí´metros da BR-101. Impotente, sem saber quanto tempo ficaria parado, não me atrevi a abandonar o carro no meio da pista para acompanhar a negociação entre a PRF e os caminhoneiros, muito embora o meu impulso de jornalista quisesse estar lá, observando a situação em tempo real. Ao invés disso, aproveitei a parada compulsória para acompanhar a reação das pessoas ao bloqueio. Querendo registrar o momento, alguns tiravam fotos do engarrafamento, enquanto outros tentavam se informar sobre o que estava acontecendo, formulavam hipóteses vagas sobre as manifestaçíµes. Uns tomavam chimarrão, ouviam música, e poucos impacientes tentavam achar uma maneira de furar o bloqueio. Em vão, é claro.

Encostados junto a mureta da BR-101, me juntei a conversa de três caminhoneiros, que fumavam e reclamavam do alto preço do diesel, e a falta de apoio das empresas na hora de repassar o valor dos pedágios aos motoristas. "Não dá para ignorar também que a vida do caminhoneiro é perigosa. A violência nas estradas é grande, principalmente no Nordeste do Brasil. Tem estradas na Bahia que são terra de ninguém, os assaltantes fazem a festa e o caminhoneiro é quem mais sofre", me disse Vitor Leal Schwank, motorista autí´nomo de Araranguá.

 

"Sou motorista profissional, não caminhoneiro"

 

Após mais de meia hora parado, finalmente a PRF liberou a pista e o trânsito na BR-101 voltou a fluir normalmente. Entrei em Três Cachoeiras e parei no popular posto Pedras Brancas, para tomar um café. O local estava tomado por caminhíµes. Aliás, a cidade inteira estava dominada por eles, como nunca antes eu havia visto. Me encaminhei até uma roda onde um pessoal tomava chimarrão com os olhos voltados ainda para a BR-101, embora a paralisação tivesse terminado. Me identifiquei como jornalista e perguntei se alguém era caminhoneiro, se haviam participado da manifestação.

Um senhor meio exaltado foi quem me respondeu, mostrando uma certa indignação tanto em sua voz quanto em sua expressão . "Eu sou motorista profissional, não caminhoneiro. Caminhoneiro tu chuta uma pedra e saem uns trinta, mas bons motoristas de verdade são poucos. Tenho 42 anos de estrada, e nunca roubei, nunca me droguei nem me vendi como tantos que tu pode ver por ai. Meu pai me ensinou assim, e posso morrer pobre mas vou ter a consciência tranquila. í‰ uma vergonha para nossa classe, mas a cocaí­na rola solta entre o pessoal que pilota os caminhíµes. Fora o fato de que tem gente que faz de tudo para ganhar uns trocados a mais", me declarou o senhor, que me disse se chamar Ademir, e ser do municí­pio de Braço do Norte, em SC.

 

Lei do Descanso aprovada e fim das paralisaçíµes

 

Saindo do Posto Pedras Brancas, me locomovi por uns poucos metros até a sede da Associação dos Proprietários de Caminhíµes São José (Aprocasj), que é presidida pelo popular Valdemar Raupp. Lá chegando, a primeira informação que recebi foi sobre a aprovação, em Brasí­lia, da nova minuta da Lei do Motorista: uma vitória para os caminhoneiros manifestantes. "Era o sinal que faltava para o fim da paralisação", me disse Valdemar, que havia dormido por duas noites na Estrada do Mar durante as manifestaçíµes, para compor o enorme quorum de centenas de caminhíµes que se juntavam na nossa região. "Se fossem enfileirar todos os caminhíµes aqui em Três Cachoeiras, a fila com certeza passaria da Vila São João", estipula ele. Ou seja, o equivalente a cerca de 30km de caminhíµes. Valdemar ainda falou dos exageros da Polí­cia Rodoviária Federal durante as tratativas para acabar com o bloqueio. "Eles erraram na dose, agiram com certa ignorância, portando cassetetes e   armas de grosso calibre. Forçaram o final do bloqueio na terça-feira (02) meio que na marra".

Na sede da Aprocasj, também encontrava-se o vereador Ademar Borges, que explicava para uns motoristas presentes o que mudava com a nova Lei do Descanso. "Agora fica permitido dirigir por seis horas sem parar. Depois disso, é necessária uma pausa de 30 minutos. Depois, pode-se rodar por outras 6 horas direto". O vereador disse ainda que uma comissão de deputados estuda, em Brasí­lia, uma proposta pela padronização dos pedágios em todo o Brasil. "Muitos contratos para o consórcio dos pedágios são antigos e foram mal feitos, beneficiando de forma abusiva as empresas, e explorando os motoristas no geral" afirma Ademar, que complementa. " í‰ preciso também pegar as leis que existem e fazer elas acontecer. Por lei, o pedágio tem de ser pago pela transportadora ou embarcadora, mas isso nem sempre acontece na prática".

Os caminhoneiros presentes no local tomavam chimarrão e falavam sobre outras falhas no sistema rodoviário brasileiro, como o fato de a lei exigir que o motorista descanse, mas sem oferecer locais adequados para o mesmo repouso. Reclamavam também de certos agenciadores, "gigolí´s de caminhoneiros", que ganham um dinheiro fácil ao intermediar a contratação do motorista pela transportadora. Pouco tempo depois me despedi e rumei para Torres, meu destino final. E de dentro do carro percebi as dezenas de caminhíµes em trânsito, Torres – Porto Alegre, finalmente em movimento e de volta í s estradas, sinalizando o final da paralisação

 

 


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