Os muitos desafios pela educação de qualidade no Brasil

5 de julho de 2013

 

 

No 3 º ano do ensino fundamental,   mais da metade dos estudantes são analfabetos funcionais

 

Mais da metade (55,4%) dos alunos do 3 º ano do ensino fundamental no paí­s não leem e não interpretam um texto de forma correta, segundo informaçíµes da 2 ª Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização, a Prova ABC, divulgada na terça-feira pelo movimento Todos pela Educação. Os dados mostram que 44,5% dos estudantes atingiram pontuação acima do ní­vel 175, que indica proficiência adequada em leitura. O 3 º ano é a série considerada limite para a alfabetização, segundo o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic).

A avaliação, que segue a escala do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), foi aplicada no final de 2012 e teve a participação de 54 mil alunos de 1.200 escolas públicas e privadas distribuí­das em 600 municí­pios brasileiros. "Ainda estamos abaixo dos 50% em leitura, escrita e matemática em relação a todas as crianças que precisam e têm o direito de ter essas competências básicas nos três primeiros anos do ensino fundamental", avaliou Priscila Cruz, diretora executiva do Todos pela Educação. Ela diz que essa deficiência na etapa inicial compromete o aprendizado das crianças nos anos seguintes. "O foco nesses primeiros anos é estratégico para a gente garantir o direito ao aprendizado mais na frente. Se a gente não consegue corrigir isso no berço do problema, a gente não vai conseguir avançar na educação".

 

Apenas 26% dos brasileiros são plenamente alfabetizados

 

Os primeiros anos de ensino são os mais importantes para o aprendizado, época de maior assimilação cognitiva. E as carências do ensino fundamental no Brasil refletem, no futuro, em sérias dificuldades de leitura e interpretação de texto. Segundo outra pesquisa, já divulgada em A FOLHA no ano passado,  somente 35% dos brasileiros com ensino médio completo podem ser consideradas plenamente alfabetizadas, e 38% das pessoas com formação superior têm ní­vel insuficiente em leitura e escrita. Os dados foram apontados pelo Indicador do Alfabetismo Funcional (Inaf) 2011-2012, pesquisa produzida pelo Instituto Paulo Montenegro e pela organização não governamental Ação Educativa.

Os resultados ainda mostram que apenas 26% da população do paí­s pode ser considerada plenamente alfabetizada “ mesmo patamar verificado em 2001, quando o indicador foi calculado pela primeira vez. Os chamados analfabetos funcionais representam 27%, e a maior parte (47%) da população apresenta um ní­vel de alfabetização apenas básico. A pesquisa havia envolvido 2 mil pessoas, de 15 a 64 anos, em todas as regiíµes do paí­s.

Fica evidenciado que o Brasil já avançou, principalmente nos ní­veis iniciais do alfabetismo, mas não conseguiu progressos visí­veis no alcance do pleno domí­nio de habilidades que são hoje condição imprescindí­vel para a inserção plena na sociedade letrada, aponta o relatório do Inaf 2011-2012.

O estudo também indica que há uma relação entre o ní­vel de alfabetização e a renda das famí­lias: í  medida que a renda cresce, melhora o ní­vel de leitura. Na população com renda familiar superior a cinco salários mí­nimos, 52% são considerados plenamente alfabetizados. Na outra ponta, entre as famí­lias que recebem até um salário por mês, apenas 8% atingem o ní­vel pleno de alfabetização.

De acordo com o estudo, a chegada dos mais pobres ao sistema de ensino não foi acompanhada dos devidos investimentos para garantir as condiçíµes adequadas de aprendizagem. Com isso, apesar da escolaridade média do brasileiro ter melhorado nos últimos anos, a inclusão no sistema de ensino não representou melhora significativa nos ní­veis gerais de alfabetização da população.

 

Descaso com o professor primário

 

O professor brasileiro de primário é um dos que mais sofre com os baixos salários, de acordo com uma pesquisa feita no ano passado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a pela Unesco. Dentre 40 paí­ses analisados, a situação dos brasileiros só não era pior do que a dos professores do Peru e da Indonésia.

Um brasileiro em iní­cio de carreira, segundo a pesquisa, recebe, em média,   menos de US$ 5 mil por ano para dar aulas. E isso porque o valor foi calculado incluindo os professores da rede privada de ensino, que ganham bem mais do que os professores das escolas públicas.

Na Alemanha e na Coréia do Sul, um professor com a mesma experiência de um brasileiro, ganha, em média, US$ 30 mil por ano, mais de seis vezes a renda no Brasil. No topo da carreira e após mais de 15 anos de ensino, um professor brasileiro pode chegar a ganhar US$ 10 mil por ano. Em Portugal, o salário anual chega a US$ 50 mil, equivalente aos salários pagos aos suí­ços.

O estudo mostra que, no Paí­s, apenas 21,6% dos professores primários têm diploma universitário, contra 94% no Chile. Nas Filipinas, todos os professores são obrigados a passar por uma universidade antes de dar aulas. A OIT e a Unesco dizem que o Brasil é um dos paí­ses com o maior número de alunos por classe, o que prejudica o ensino. Segundo o estudo, existem mais de 29 alunos por professor no Brasil, enquanto na Dinamarca, por exemplo, a relação é de um para dez.

 

O exemplo da Coréia

 

 

Todo coreano tem seu notebook na escola  

 

Quase o mundo inteiro reconhece que o desenvolvimento de uma nação é diretamente proporcional ao investimento em educação. Exemplo veemente desta relação (que também já foi apresentado no jornal A FOLHA, mas que não custa nada relembrar) é a Coréia do Sul, paí­s localizado no Sudeste asiático que no passado elegeu a educação como uma das prioridades de sua polí­tica de governo e que atualmente colhe os resultados. Em 1960, a renda per capita da Coréia era a metade da dos brasileiros. Já em 2000, ela era mais do que o dobro. Isso ocorreu porque, a partir de 1962, este paí­s resolveu investir maciçamente em educação, básica e universitária. Já na área econí´mica, a Coréia passou neste mesmo perí­odo a dar ênfase a exportaçíµes dos produtos de sua florescente indústria. Isso representou ampliação do numero de escolas e criação de incentivos para estudantes de engenharia e de cursos técnicos.

Desde que priorizou os investimentos em educação, a renda per capita da Coréia do Sul cresceu dezenove vezes, e a sociedade atingiu um patamar de bem-estar invejável. A educação na Coréia do Sul é considerada por sua sociedade como sendo o fator crucial para a competitividade do paí­s. Os coreanos praticamente erradicaram o analfabetismo, e colocaram cerca de 80% dos jovens na universidade.

Mas é um equí­voco imaginar que a experiência da Coréia com educação possa ser integralmente transplantada para o Brasil. Como a maior parte das sociedades orientais, a coreana exibe um sentido de hierarquia que não encontra paralelo entre os brasileiros. Ela também é muito mais homogênea cultural e etnicamente, não só em razão de a Coréia ser uma nação pequena, como também pelo fato de o paí­s não ter recebido milhíµes de imigrantes das mais diversas partes do mundo “ o contrário do Brasil, que exibe um território vasto e é um belo tanto de culturas e etnias.  


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