Uma palestra mobilizou hoteleiros de Torres nesta última segunda-feira (22). Promovida pela Secretaria Municipal do Turismo, ocorreu nas dependências do tradicional hotel De Rose o encontro com o presidente do Sistema Brasileiro de Viagens e Turismo (SBTur), Milton Zuanazzi. Apesar da presença de menos do que uma dúzia de ouvintes, o teor da palestra foi bastante instrutivo, tocando em temas importantes relacionados ao turismo e a economia brasileira e da nossa região.
Engenheiro mecânico, pós-graduado em sociologia e ex-diretor-presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Zuanazzi começou fazendo uma breve explanação sobre trabalho realizado pela SBTur, agradecendo a parceria já realizada com a rede hoteleira de Torres. Vendemos o lazer, oferecemos aos nossos clientes a vantagem de usufruir de diárias nos melhores hotéis dos principais destinos turísticos do País, pagando apenas uma pequena mensalidade ao sistema. Segundo ele, o SBTur vem tendo um crescimento sustentável nos últimos anos, sendo que em 2012 foram mais de 300 mil diárias consumidas, sendo que entre 10 e 12 mil dessas foram direcionadas ao Litoral Norte gaúcho.
O palestrante informou que Torres é um dos lugares com alta demanda no SBTur, demanda esta que se intensifica no período de alta temporada. Durante o veraneio, temos lista de espera sempre, e conseguimos fechar muitos pacotes de viagens aos nossos clientes inclusive para os dias de semana.
Economia brasileira
No Brasil, não teriamos como suportar um crescimento do PIB muito alto, em razão do alto déficit de infraestrutura, segundo Zuanazzi. Os aeroportos brasileiros, por exemplo, são praticamente os mesmos que tínhamos em 2003, quando oito milhíµes de voos foram realizados. Porém, estes mesmos aeroportos realizaram 90 milhíµes de voos em 2010, o que representa claramente a defasagem que nosso país tem na área. Por isso é melhor termos um crescimento baixo, mas que seja sustentável. O que a economia brasileira não pode é decrescer, como aconteceu nos anos 80.
Zuanazzi falou da solidez dos bancos brasileiros, e da confiança das pessoas nestas mesmas instituiçíµes bancárias, como ponto importante para garantir uma relativa estabilidade econí´mica nacional, e citou como contraponto o exemplo da ˜Crise Argentina de 2001™, que culminou com a renúncia do então presidente Pedro De la Rúa. Nossos hermanos se acostumaram a guardar o dinheiro embaixo do colchão ao invés de colocar nos bancos, e por isso a moeda não circula tanto no país. Essa desconfiança dos argentinos com seus bancos é antiga, e foi uma das razíµes para a crise que o país viveu em 2001, que teve como consequência uma brusca redução no consumo e uma economia que, até hoje, vive entre altos e baixos. Além do mais, desde então caiu significativamente a presença de argentinos em Torres e e no litoral norte gaúcho, disse ele.
Outra razão apontada pelo presidente da SBTur para a relativa segurança econí´mica do Brasil é o fundo de reserva acumulado pela nação, que gira na casa dos 300 bilhíµes de dólares. Antes nós precisávamos recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para manter nossa dívida externa controlada, e pagávamos este empréstimo com juros altos. Atualmente a situação mudou, e temos maior soberania econí´mica como nação, ressalta.
Porém, o que manteve o Brasil mais distante da crise econí´mica mundial, de acordo com Zuanazzi, foi a forte tendência í manutenção do consumo. Enquanto o consumo continuar aquecido no Brasil, com as pessoas comprando e viajando, garantimos também uma condição de quase pleno emprego. E para o empregador, continua valendo a pena manter um funcionário que já está contratado a mais tempo, já que o custo para formação de um novo funcionário é alta.
Turismo
Enquanto o PIB brasileiro cresceu menos de 1% em 2012, o setor do turismo cresceu 13% o mesmo período, com os brasileiros viajando mais tanto para dentro do país quanto para o exterior. Segundo Zuanazzi, a diferença esta no perfil destes viajantes. Enquanto o turista de maior poder financeiro está indo para o exterior como nunca, a classe média emergente nos últimos anos está podendo viajar mais para dentro do Brasil, destaca Zuanazzi, que complementa dizendo que, entre o turista que está indo viajando mais para o exterior nos últimos anos, destaca-se o turista de negócios e de compras. As pessoas compram artigos de luxo com preço muito mais barato nos Estados Unidos, e cresce bastante o número de brasileiros com poder de compra para adquirir imóveis em Miami, por exemplo.
Em relação a medidas cambiais, Zuanazzi destacou que países por todo o mundo estão tomando medidas de proteção cambial, controlando os valores de suas moedas. O Brasil deveria pensar em seguir a mesma tendência. Temos aqui um cambio livre, flutuante, mas a maioria dos países com economias fortes está alterando o valor das suas moedas para enfrentar a crise econí´mica. A Suíça, por exemplo, mexeu no valor do câmbio após mais de 700 anos com o câmbio livre para conter a valorização de sua moeda. O palestrante voltou a falar na Argentina, onde 1 real está valendo 0,35 pesos, e por isso disse acreditar que os hotéis aqui no Litoral Norte não podem esperar comprometer muitos leitos com os argentinos, que provavelmente vão vir em baixo número na próxima temporada de veraneio.
A nova classe média é o fení´meno que vem impulsionando o turismo nesta década. Para o presidente da SBTur, são pessoas que tem exigências de qualidade, querem um bom café e atendimento, esperam que o hotel seja melhor que sua casa. Nesse contexto, os hotéis que vêm tendo maior procura são aqueles três estrelas, voltados para um público que quer conforto e bons serviços durante seu repouso, mas sem ter que pagar muito alto por isso.
O diretor do SBTur disse ainda que o Ministério do Turismo está tendo problemas na hora de encaminhar recursos específicos para emendas municipais. Irregularidades que continuam aparecendo frequentemente, como superfaturamento de eventos, falhas na prestação de contas dos municípios e festas licitadas que não ocorreram, levaram a certo receio do Ministério do Turismo na hora de liberar verbas para que as cidades realizem mais eventos. Enquanto isso, a previsão é de investimento massivo da pasta em publicidade para divulgação das festas e atrativos turísticos de todo o Brasil, ponderou Zuanazzi.
Outro plano do Ministério do Turismo foi destacado por Zuanazzi: a meta de atrair ao Brasil 20 milhíµes de turistas estrangeiros até 2017. Particularmente acho a meta ambiciosa demais, já me surpreenderia se atraíssemos um número de 12 milhíµes de estrangeiros durante o período mencionado. Porém, para fazer com que este plano funcione, temos que encontrar maneiras de atrair o turista que mora nos países vizinhos ao Brasil, trazer o pessoal do Mercosul para visitar nossas belezas e conhecer nossa hospitalidade, finalizou o palestrante.


