Estamos em pleno debate aberto das alternativas para a chamada e reclamada Reforma Política. Pessoas em geral engrossam o caldo do debate liderado por pensadores, cientistas políticos e pela mídia. Editoriais espalhados pela nação posicionam opinião de grandes meios de comunicação sobre o tema, o que é saudável, pois, mesmo a mídia, que se coloca proficuamente em suas matérias de forma imparcial, tem o papel de opinar e colocar sua posição sobre os assuntos que envolvem a política, que definirão as decisíµes nacionais, Estaduais e municipais dos temas que refletem o ambiente coletivo dos indivíduos.
Um dos itens em debate na mídia e nas redes sociais é a mudança, ou não, do peso do voto do cidadão. Atualmente este peso é relativo. Votamos em nome de um Estado Federativo e sua representatividade na política nacional. Não temos a chance de ter certeza que iremos colocar nas cadeiras dos poderes legislativos nacionais (Congresso Nacional) e Estaduais (Assembléia Legislativa) pessoas ligadas í nossa região, í nosso município, pessoas que defendam de forma visceral nossos interesses, os interesses do desenvolvimento social, político e econí´mico dos lugares onde vivemos o nosso dia-a-dia. í‰ que o sistema eleitoral não é Distrital. Ou seja: pessoas de outros lugares podem obter votos nossos, daqui de onde moramos.
A mazela que o sistema atual espraia pelo Brasil afora pode ser exemplificada pela entrada no poder central de expoentes nacionais e Estaduais que se destacam em suas vidas em atividades que são caracterizadas por serem muito distantes da cidadania, âmago da política. Um palhaço se elegeu em São Paulo e ainda levou outros caronas justamente por esta mazela político-institucional. Gente de todos os cantos daquele Estado votou em Tiririca, pois o sistema assim permitia. O voto pode ter sido uma declaração de força de certa rebeldia da sociedade ao sistema político. Mas se político eleito por este voto não recebesse votação de todos os distritos de São Paulo (regiíµes) ele teria a chance ainda de ser eleito, mas não roubaria votos de pessoas que nada tem a ver com a Capital, reduto de Tiririca. Esta mazela acontece e é amplamente utilizada para eleger ex-jogadores de futebol, colunistas sociais da elite, radialistas e comunicadores de TV, etc. A fama estadual e nacional conquistadas por atividades na maioria das vezes pouco ligadas ao que acontece na janela de nossas casas, no dia-a-dia, acaba sendo irradiada, e cidadãos incautos acabam votando em seus ídolos, mesmo que eles sequer tenham colocado os pés onde moram, onde vivem, onde buscam empregos, onde educam seus filhos, onde recorrem ao sistema de Saúde quando doentes. E o que é pior, mesmo que em muitas vezes não tenham tido a experiência de trabalhar em comunidade, para o Coletivo, mesmo de um bairro.
Os que criticam o voto distrital alegando que pode existir uma tendência paroquial das decisíµes políticas estão indo contra o princípio da democracia. Democracia é paroquialismo; democracia nasce do direito opinativo de cidadãos sobre o reflexo das decisíµes políticas nos locais onde eles vivem, onde buscam crescer, se desenvolver. Os que insinuam sobre a teórica falta de capacidade que estes párocos políticos teriam para decidir sobre temas nacionais como códigos penais, política internacional, economia internacional, dentre outros temas gerais, estão, mesmo sem querer, colocando a possibilidade maior de sermos uma ditadura, mesmo que disfarçada, pois a decisão central é o âmago da alma dos ditadores.
Cidadania vem de cidade. Na janela de nossas casas conseguimos claramente sentir se está bom ou se está ruim a representação popular política da nação. Se convivermos com um sistema bom, podemos naturalmente apoiar o que está estabelecido, seja por um ou outro partido ou ideologia que está no poder. Mas se achamos que a coisa não está boa, temos de ter a chance de nos sentirmos representados estadual e nacionalmente para que as mudanças aconteçam. E para isto deveríamos ter a chance de conhecer melhor em quem iremos votar, para que, efetivamente, estas mudanças aconteçam. Com o voto distrital, basta nos informarmos na redondeza que sabemos logo logo quem é quem.
Assim como A FOLHA apóia a inversão da distribuição dos recursos dos impostos, transformando os municípios nos primos ricos do sistema, o inverso do que é hoje, pois somos o primo pobre, A FOLHA apóia, também, que a representação qualitativa dos políticos eleitos nas cidades e regiíµes seja respeitada. E qualidade para a tomada de decisão está diretamente ligada ao real conhecimento. E o conhecimento só se tem no exercício da cidadania. E cidadania nasce na cidade, nos bairros, nas regiíµes.


