Por Paulo Timm
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Feriado de Corpus Christi: "Este é o meu corpo… isto é o meu sangue… fazei isto em memória de mim".Como caiu numa quinta feira, foi feriadão. Todo mundo alegre, planejando atividades nesta oportuna folga. Mas duvido que alguém saiba exatamente o que significa Corpus Christi , feriado religioso da Igreja Católica.
Vou conferir. Confesso que, apesar de formado na tradição cristão, nunca entendi direito do que trata. Lembro-me, apenas, das ruas bordadas com flores, serragens e areias coloridas para a passagem de procissíµes nesta data.
Corpus Christi pretende celebrar o Corpo e Sangue de Cristo na Eucaristia, um momento importante da liturgia cristã, referido í última ceia de Jesus com os apóstolos, na quinta-feira anterior í Paixão, quando lhes distribuiu o pão e o vinho. Foi instituído pelo Papa Urbano IV com a bula Transiturus de hoc mundo, em 11 de agosto de 1264 “, devendo cair na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade, que ocorre no domingo depois de Pentecostes ou 60 dias após a Páscoa. Aos leigos, tudo isto soa entre o desconhecido e o misterioso. Mas a verdade é que a tradição foi se consagrando em toda a Europa Cristã, especialmente na Diocese de Colí´nia, hoje Alemanha. Em Roma já se tem dela notícia desde 1350. O homem, enfim, não vive sem uma dimensão mística, religiosa, capaz de explicar o que ninguém explica. Daí a fé.
As procissíµes de Corpus Christi , no Brasil, iniciaram-se no Período Colonial em Ouro Preto. Hoje disseminam-se por várias cidades nas quais são feitos desenhos litúrgicos com flores, folhas e serragem. nas ruas por onde passam. Isso acontece principalmente nas cidades históricas, como Pirenópolis, em Goiás, ao lado da qual vivi muitos anos, Jacobina, na Bahia, e Castelo, no Espírito Santo. Mas o costume também se estende por todo o país.
A celebração religiosa do Corpo de Cristo merece, porém, uma homilia laica, vez que remete í comunhão de toda a humanidade em torno do pão e do vinho. A homilia é sempre a preleção de um religioso “ homiliasta – no decorrer de uma celebração, normalmente após a leitura de alguma parte da Bíblia. Consta que era muito usada do período inicial do cristianismo, seguindo o exemplo do Mestre, tendo sempre um caráter coloquial no tratamento das questíµes de fé, Deus e a religião, embora assumindo várias intençíµes: explicativa, exegética, quando isso é feito através das Escrituras e exortativo, caso em que procura exaltar as verdades aí contidas. Nada impede, porém, que se tome de empréstimo da liturgia esta boa prática que tanto contribuiu para que a Igreja Católica tivesse o êxito que teve ao longo dos séculos.
Há na celebração três importantes consideraçíµes:
Primeiro, a inspiração: A ideia mesma da comunhão como um ato simbólico da confraternização, em que o sagrado se liga misticamente ao profano “ o pão e o vinho “ entregando-lhes um significado imaterial. Esta comunhão não se restringe ao Profeta ou seus clérigos, pois pretende disseminar-se a todos os fiéis.
Aqui, a mensagem universal: Estes fiéis não se restringem ao povo eleito de Deus, como na ortodoxia judaica, de onde nasceu o Cristianismo, mas se estende urbi e orbi, a todos os lugares e a todos, tal como na bênção dominical até hoje feita pelo Papa no Vaticano.
Sendo destinada a toda a humanidade, a fé cristã, ao contrário da judaica, aqui também, acabaria se distribuindo através do proselitismo “ pregação – , instituído, aliás, por Paulo de Tarso, contemporâneo de Pedro, a todas as gentes, inclusive gentios.
Muitas das consideraçíµes acima foram assumidas, também, por Luthero e os reformadores da Igreja de Roma e se converteram em suportes da reorganização da sociedade ocidental O caso mais clássico foi o das 13 Colí´nias Americanas que mais tarde dariam origem aos Estados Unidos. Desde sua origem, a sociedade americana foi constituída com base em valores cristãos os quais lhe davam um sentido de conversão, não sem os riscos do Destino Manifesto, da humanidade inteira ao seu modelo de organização e vida.
A celebração de Corpus Christi não se esgota, portanto, apenas na valorização da figura de Jesus no campo da doutrina e fé cristãs. Ela remete para a Comunhão da Humanidade como um corpo que deve ser reunido em torno de valores fundamentais, começando pela fraternidade em torno da mesa. Só os mamíferos superiores compartem o produto da caça, muitas vezes obtido pela cooperação coletiva, com sua espécie ou clã. E tivemos que chegar ao Império Romano para aprendermos a comer í mesa. Falta-nos, entretanto, alguns passos para que façamos sentar ao cardápio da civilização, hoje, a humanidade inteira, com emprego para todos e alimento í mesa sem discriminaçíµes e exclusíµes. Este o verdadeiro sentido do cristianismo, cujo significado é exatamente universalização consagrada da condição humana.
Em boa hora, Sua Santidade o Papa Francisco, secundando seus antecessores, tem explicitado sua franca crítica ao capitalismo selvagem, que mantém milhíµes de desempregados no mundo, em meio í penúria do subdesenvolvimento e das guerras civis, enquanto trilhíµes de dólares, cada vez mais concentrados, não ultrapassando se controle a 0,35% da população mundial são entesourados em Paraísos Fiscais, í salvo de impostos, e de qualquer sentido social. Para não falar no bilhão de pessoas que passam fome no mundo, enquanto os celeiros das tradings estão repletos de commodities na forma de alimentos convertidos em fontes de lucro.
A data, portanto, é um bom momento de reflexão sobre a fé mas, também, sobre a esperança de que o cristianismo, com sua força massiva e inequívoca capacidade de persuasão, ultrapasse os limites da liturgia para ajudar a encontrar uma saída para o difícil momento por que passa a Humanidade.


