LIMPEZA VOLUNTíRIA DA PRAIA GRANDE: Por uma sociedade mais dedicada ao todo

13 de junho de 2015

 

Por Guile Rocha

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Na ensolarada tarde do último domingo (07), um dia de junho que mais parecia março pelo calor, eu caminhava pela Praia Grande quando me deparei com a grande quantidade de lixo que se espalhava pela orla da praia, e também junto ao córrego que forma-se abaixo da pontezinha do calçadão (e vai em direção ao mar). Boa parte do lixo havia sido expurgada pelo mar, provavelmente em uma fortes ressacas do final de junho. Mas não era apenas o mar o responsável por trazer de volta nossa sujeira, percebia-se claramente a presença daquele lixo jogado diretamente pelo ser humano em sua passada pelas areias e dunas. E o cenário me entristeceu: garrafas plásticas e de vidro, embalagens de salgadinho, latinhas, sacolas, roupas esfarrapadas, fraldas usadas, frascos de remédio, de esmalte, chinelos, papelão, isopor… Fiquei pensando nas aves e outros animais que, inocentemente, poderiam ingerir aqueles materiais pensando ser by browseonline"> comida, e no efeito que esta ingestão teria no metabolismo destes (podendo levar até a morte). Foi o suficiente para me convencer a não ficar parado simplesmente lamentando a situação: munido de   luvas e algumas sacolas, fui fazer uma limpeza da orla por conta própria.

Passei cerca de uma hora e meia nesta função de lixeiro voluntário da praia, até que o sol começou a se por e a luz a minguar. Neste processo, via o pessoal indo e vindo, pais aproveitando o dia de praia em pleno junho para brincar com seus filhos, uma gurizada batendo bola, outros caminhando, conversando, passeando com o cachorro, tirando fotos, fumando um baseado nos cí´moros de areia. Um andarilho enrolado num cobertor roncava profundamente em seu sono nas dunas. Algumas pessoas me observavam, mas apenas me encaravam rapidamente e desviavam o olhar. Não esperava reconhecimento pelo meu gesto, mas ninguém me elogiou,   ninguém buscou me motivar ou algo do tipo. Fiquei pensando que tipo de pensamento passaria na cabeça dessas pessoas, e imaginei que a vergonha fosse o sentimento mais recorrente. Pelo menos este era o meu sentimento: fiz a limpeza não para dar um bom exemplo para os outros, mas sim por vergonha da sujeira que via na praia, que afinal considero como meu quintal de casa. Me senti mal também pelo fato de que ficamos tanto tempo reclamando das coisas que não concordamos, mas poucas vezes botamos a mão na massa para efetivar as mudanças que consideramos necessárias. E tinha ainda aquela vontade de diminuir a chance dos animais ingerirem aqueles materiais, que seriam como um verdadeiro veneno para seus organismos.

 

Menos lixo e mais reflexão

 

Ao final da minha faxina, um sacão grande e outras quatro sacolas menores ficaram cheias de lixo coletado na Praia Grande. Uns 30kg de lixo, acredito. Ainda assim, infelizmente havia muito mais para recolher, principalmente o material descartado pelo homem nas dunas da Praia Grande (como em outras praias do Brasil afora), limpeza que não consegui dar conta sozinho antes do cair da noite.

Penso que eu poderia outro dia voltar lá, novamente, e continuar minha caminhada rumo a uma praia mais limpa. Mas a verdade é que esta não é minha função social direta: Sou jornalista, apesar de não me embaraçar por eventualmente virar gari. Apenas decidi pegar um dia para, voluntariamente, sair do estado de inércia e catar o lixo que me envergonhava, incorporar o ideal propagado por projetos como o Praia Limpa Torres em busca de um equilí­brio – mais harmí´nico e respeitoso – entre o ser humano e seu ambiente. Mas não há heroí­smo ou glória nesta atividade, apenas a ação voluntária de alguém que, numa epifania momentânea, percebeu que não tinha nada mais digno para fazer naquela hora e meia de domingo.

A ação voluntária, essa sim, deveria ser mais recorrente em nossa sociedade. Digo isso tanto da minha parte como da maioria dos indiví­duos, que ficam   atrelados as suas ânsias individualistas, seus trabalhos e sua diversão, mas dificilmente conseguem enxergar que o meio ambiente precisa de ajuda, que outras pessoas mais fragilizadas precisam de apoio.

Quanto a questão do lixo que vai dos mares í  areia, que se espalha pelas dunas e no interior de nossas furnas em Torres, é evidente que está relacionada com a falta de educação de certos indiví­duos de nossa sociedade. Gente que raramente percebe que somos todos parte de um mesmo ambiente, que a natureza funciona numa complexa equação cuja presença do lixo mal descartado é intrusa e maléfica. Porém, ainda que no geral olhemos para este poluí­do retrato com revolta, que compartilhemos fotos do lixo se espalhando pelas areias e mares, percebi que (pelo menos de vez em quando) podemos não só botar a mão na consciência, mas também botar a mão na massa num caminho de mudança. Pode parecer pouco, mas se este pouco for compartilhado (de forma ativa) por muitos, logo os resultados aparecem.


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