SíO PEDRO: Uma Rua Bloqueada em Torres

10 de julho de 2015

 

 Rua São Pedro bloqueada pelas obras do Condomí­nio de Luxo Ilhas Park Pedra da Guarita (Foto: Jonas Brocca)

 

Por Leo Gedeon*

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No cotidiano de Dona Maria o cantarolar dos passarinhos que habitam seu pequeno pomar nos fundos de casa é perturbado pelo incessante barulho dos motores dos tratores e caminhíµes. Do amanhecer ao entardecer, ruí­dos de ferramentas, o solavanco no vai e vem das máquinas e sirenes da marcha ré dos caminhíµes impíµe um tom mais alto nas conversas dentro de casa, na cozinha, na sala e nos quartos as pessoas não se escutam. A famí­lia foi emudecida pelo excessivo barulho das máquinas que estão sendo operadas na implantação de um condomí­nio de luxo. Após o almoço, Dona Maria guarda o que sobrou da refeição, lava a louça, limpa o fogão e varre a cozinha. Pega uma xí­cara de café preto e vai assistir a televisão. Com olhar atencioso, observa uma rachadura que se aprofunda a cada dia na sua casa de alvenaria recém-reformada. Lembra-se das dificuldades de acesso e moradia da área em que reside hoje, mas em que sua paisagem original era habitada pelos perenes campos de dunas, os famosos cí´moros de areias, e banhados. Eram casas de madeira dispersas no alto das dunas com cercas de arames fixando os limites dos terrenos, adquiridos por contratos de compra e venda ou por posse de usucapião. O terreno de Dona Maria custou 1.300 Cruzeiros com pagamento em 7 vezes sem juros porque era o último lote, solitário em meio ao nada.

Nesta época, a casa de madeira de Dona Maria tinha poucos cí´modos e a cozinha era improvisada na área externa. O banheiro ainda era a patente que sua famí­lia conhecia como tuco-tuco e no bairro ainda não tinha iluminação pública, calçamento nas ruas e saneamento básico. Tinham casos das pessoas que morriam de bicho de pé, quando não havia tratamento adequado e se proliferava alguma infecção. O conflito fundiário era evidente, não se sabia mais quem tinha direito sobre o território ao sul da cidade, no entorno do Parque da Guarita e do Parque Estadual de Itapeva. A derrubada de casas e a remoção de famí­lias era prática comum, novos traçados para as ruas eram impostos para os moradores que não podiam demonstrar insatisfação, se perdiam um pedaço do seu terreno ou a rua atravessaria suas casas. As máquinas trabalhavam sem parar subtraindo e esgotando a barreira natural, os áridos areais e aterrando as restingas e banhados. Enquanto passava o tempo, promessas de escrituração dos imóveis e a invasão das propagandas polí­ticas no bairro. Dona Maria testemunhou as transformaçíµes da sua terra natal, na rua da sua infância, no bairro que moram seus parentes e na cidade que pulsa o coração de seu povo.

Quando inicia o expediente de trabalho na construção do condomí­nio de luxo nas imediaçíµes de sua casa, Dona Maria sente sua residência tremer e lamenta com indignação o descaso com os moradores locais. Trabalhou a vida toda, economizou, contraiu dí­vidas e empréstimos para reformar sua casa, substituir sua antiga casinha de madeira por uma de alvenaria, para assistir o esfarelar da rachadura na parede nova do seu lar. O sentimento de Dona Maria e seus vizinhos é de exclusão em que a imposição de um grande empreendimento perturba sua vida cotidiana e o meio ambiente. í‰ como se as comunidades que vivem no entorno não tivessem voz e nem representantes. Esses bairros têm uma história peculiar e aspectos socioculturais devem ser levados em consideração quando são mensurados os impactos de empreendimentos de grande porte nas áreas urbanas.

Dona Maria percebeu que as obras do condomí­nio estão afetando a qualidade de vida dos moradores e interferindo no direito de ir e vir dos cidadãos. A Rua São Pedro, uma das principais vias de acesso entre os bairros São Francisco e Guarita está bloqueada para as obras de implantação do Condomí­nio de Luxo Ilhas Park Pedra da Guarita. A grande maioria dos moradores não tem um veí­culo (carro ou moto) para percorrer o percurso do desvio para chegar em seus domicí­lios, trazendo transtornos para os trabalhadores e estudantes. Aos transeuntes que se aventuram passam com perigo por entre as máquinas pesadas e caminhíµes, buracos e valos durante o horário de expediente quando os operários estão trabalhando. Idosos e crianças, até deficientes fí­sicos e pessoas com dificuldade de locomoção, Dona Maria já viu tentando atravessar o canteiro de obras. Como há vazão do lençol freático sob as dunas, foram instaladas bombas para a extração da água e consequentemente, drenar o manancial hí­drico que emerge da Mata Paludosa do Parque Estadual de Itapeva e dá origem ao Arroio, topí´nimo que batizava a comunidade. Durante intensas chuvas que assolam a região, a enchente e inundação invadem as residências acarretando enormes prejuí­zos as famí­lias. Dona Maria recorda dos banhos no Arroio e da pesca da traí­ra nos valos e sangradouros e fica abismada com o projeto de canalização da sanga histórica. Num by browseonline"> bate papo descontraí­do com a vizinha, Dona Maria afirma: Olha Beatriz, eu não tive muito estudo, mas pra fazer tanta besteira quanto os Doutor do Condomí­nio tão fazendo não necessita diploma. Me diz aonde esses engenheiros compraram seu certificado que eu quero também!

 

* professor, historiador, escritor torrense  

 

                      A Rua Bloqueada, o Meio Ambiente Destruí­do e os Moradores Desrespeitados. Qual é o tipo de cidade que queremos construir?


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