ESPIRITISMO: o que realmente sabemos?

21 de agosto de 2015

 

Embora o surgimento do Espiritismo tenha sido na França – paí­s de Allan Kardec, o homem que, no século XIX, compilou e decodificou os princí­pios que até hoje orientam os 15 milhíµes de adeptos no mundo todo “, foi no Brasil que essa doutrina encontrou terreno fértil para se alastrar.  

 

 

Por Maiara Raupp

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Atualmente, o Brasil possui a maior comunidade espí­rita do mundo. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatí­stica (IBGE), entre 2000 e 2010, o número de espí­ritas no paí­s cresceu 65%, passando de 2,3 milhíµes em 2000 para  3,8 milhíµes em 2010. Além dos 3,8 milhíµes de fiéis autodeclarados, possui 30 milhíµes de simpatizantes segundo a Federação Espí­rita Brasileira. Nossa população aceita muito bem a ideia de vida após a morte, afirmou Geraldo Campetti, vice-presidente da Federação Espí­rita Brasileira.

Há um consenso entre biógrafos céticos, estudiosos da religião ou espí­ritas devotos que o kardecismo é praticamente uma criação brasileira. Três fatores ajudaram a disseminação da doutrina: 1) o sincretismo brasileiro, que facilita a convivência entre crenças; 2) a proximidade entre espiritismo e cristianismo e, 3) por último, um certo médium de Uberaba, em Minas Gerais. A repercussão alcançada por Chico Xavier é o maior fator da expansão dos espí­ritas no paí­s, disse o sociólogo Reginaldo Prandi.

O espiritismo chegou ao Brasil em 1860 e ganhou relevância com Bezerra de Menezes, médico e polí­tico que, além de expoente da doutrina, traduziu obras de Allan Kardec para o português. Mas coube a Chico Xavier, falecido em 2002, o fení´meno da explosão da doutrina a partir da década de 1970. O mineiro ostenta mais de 450 livros publicados. Sua biografia As Vidas de Chico Xavier, escrita pelo jornalista brasileiro Marcel Souto Maior, vendeu mais de um milhão de exemplares e chegou ao cinema com direção de Daniel Filho. Fez 3,4 milhíµes de espectadores.

Dentre esses admiradores de Chico Xavier, está o professor de educação fí­sica de Torres, Luiz Francisco Maggi, que sempre teve uma feição muito grande pela história de Chico. Admiro ele pela sua história de vida. O dar sem pensar em receber nada em troca. Ter o conhecimento e o dom, mas mesmo assim se mantendo humilde. Tudo isso me fascinava e assim passei a querer bem o espiritismo, explicou o professor, acrescentando ainda que o conví­vio em seu trabalho com uma pessoa muito conhecedora do espiritismo e a admiração por pessoas de seu entorno que seguiam a doutrina o fizeram se interessar mais pelo espiritismo e começar a segui-lo.

Me chama a atenção por ser uma doutrina que não se precisa seguir ‘cegamente’ e que exige um estudo e uma interpretação para poder usar os ensinos pro bem. Não é o seguir por seguir. Não é o que um pastor fala e você deve fazer. Tem a necessidade de um estudo para que assim você possa seguir e agir, interpretou Luiz. O professor falou ainda que a doutrina serve como complemento em seu dia a dia. Ela me faz suportar muitas coisas que são incompreensí­veis. Por meio da doutrina eu consigo apaziguar um sentimento de ódio, de tristeza. Ela nos mostra que somos o que é para a gente ser. Mais ou menos como se fosse uma lei de causa e efeito: essa causa nunca é em vão, é para trazer um efeito determinado. Ela supre o vazio de incertezas e de porquês, de uma forma lógica e coerente. Não é porque é. Ela preenche a necessidade de algumas respostas. E para as respostas que ela não dá, ela traz uma palavra de acalanto, completou Luiz.

 

As respostas dos porquês

 

Talvez você já tenha se feito essas perguntas: De onde vim ao nascer? Para onde irei depois da morte? Por que uns sofrem mais do que outros? Por que uns têm determinada aptidão e outros não? Por que alguns nascem ricos e outros pobres? Alguns cegos, aleijados, debilitados mentalmente, enquanto outros nascem inteligentes e saudáveis? Por que Deus permite tamanha desigualdade entre seus filhos? Por que uns, que são maus, sofrem menos que outros, que são bons?

No entanto, a maioria das pessoas, vivendo a vida atribulada de hoje, não está interessada nos problemas fundamentais da existência. Antes se preocupam com seus negócios, com seus prazeres, com seus problemas particulares. Acham que questíµes como a existência de Deus e a imortalidade da alma são da competência de sacerdotes, de ministros religiosos, de filósofos e teólogos. Quando tudo vai bem em suas vidas, elas nem se lembram de Deus e, quando se lembram, é apenas para fazer uma oração, ir a um templo. A religião para elas é mera formalidade social, alguma coisa que as pessoas devem ter, e nada mais. No máximo será um desencargo de consciência para estar bem com Deus. Quando, porém, tais pessoas são surpreendidas por um grande problema, a perda de um ente querido, uma doença incurável, uma queda financeira desastrosa – fatos que podem acontecer na vida de qualquer pessoa – não encontram em si mesmas a fé necessária, nem a compreensão para enfrentar o problema com coragem e resignação, caindo, invariavelmente, no desespero.   í‰ aí­ que entra o espiritismo, uma doutrina que atende a todos estes questionamentos. O conhecimento espí­rita abre-nos uma visão ampla e racional da vida, explicando-a de maneira convincente e permitindo-nos iniciar uma transformação í­ntima, para melhor.

O que mais me encanta no espiritismo é que só se pratica o bem e se faz muita caridade. Além disso, se tem a explicação do porque de tudo o que acontece com a gente. Encontro respostas que não encontrei em nenhuma outra religião, destacou a devota torrense, Marta Sena. A dona de casa começou a se interessar pelo espiritismo há uns 50 anos, mas faz dois que começou a assistir palestras e está estudando a doutrina.

 

 

FOTO: Chico Xavier

 

 

Mas o que é o Espiritismo?

 

O Espiritismo é a doutrina que teria sido revelada pelos Espí­ritos Superiores, através de médiuns, e organizada (codificada) no século XIX por um educador francês, conhecido por Allan Kardec. Os fundamentos básicos do Espiritismo são: 1) A existência de Deus; 2) A imortalidade da alma ou espí­rito; 3) A reencarnação; 4) A comunicabilidade dos espí­ritos e 5) a pluralidade dos mundos habitados. O Espiritismo é, ao mesmo tempo, filosofia, ciência e religião.

Filosofia, porque dá uma interpretação da vida, respondendo questíµes como  de onde eu vim,  o que faço no mundo,para onde irei depois da morte.  Toda doutrina que dá uma interpretação da vida, uma concepção própria do mundo, é uma filosofia.

Ciência, porque estuda, í  luz da razão e dentro de critérios cientí­ficos, os fení´menos mediúnicos, isto é, fení´menos provocados pelos espí­ritos e que não passariam de fatos naturais. Todos os fení´menos, mesmo os mais estranhos, têm explicação cientí­fica. Não existe o sobrenatural no Espiritismo.

Religião, porque tem por objetivo a transformação moral do homem, revivendo os ensinamentos de Jesus Cristo, na sua verdadeira expressão de simplicidade, pureza e amor. Uma religião simples sem sacerdotes, cerimoniais e nem sacramentos de espécie alguma. Sem rituais, culto a imagens, velas, vestes especiais, nem manifestaçíµes exteriores.

 

 

ALAN KARDEC: Um pouco de história

 

Retrato pintado de Allan Kardec, criador da doutrina espí­rita

 

"A pessoa que estudar a fundo as ciências rirá dos ignorantes. Não mais crerá em fantasmas ou almas do outro mundo. Era assim que o professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, membro de nove sociedades cientí­ficas e autor de cerca de 20 livros sobre pedagogia na França do século XIX, resumia seu ceticismo. Intelectual respeitado, ele vivia em um universo no qual a ciência estava em ebulição, em meio a discussíµes sobre eletromagnetismo, motor a vapor e lâmpada incandescente. Apesar disso, tornou-se o criador da doutrina espí­rita tal qual ela está sistematizada hoje, que crê, entre outras coisas, na reencarnação e na comunicação entre vivos e mortos. í‰ a história dessa transformação que está sendo contada no livro Kardec, a Biografia, do jornalista brasileiro Marcel Souto Maior. Kardec precisou ir além da religião para criar uma doutrina inteira em apenas 13 anos, diz o autor. De 1857, ano de sua conversão, aos 53 anos, a 1869, quando morreu de aneurisma cerebral, o francês já havia arrebatado sete milhíµes de seguidores no mundo.   Um número impressionante para um planeta com então 1,3 bilhão de habitantes e comunicação precária. Os créditos da velocidade recaem sobre o próprio. Ele alcançou isso porque dava tratamento cientí­fico aos estudos e sabia divulgá-los, afirma Souto Maior.

 

Da ciência aos espí­ritos

 

A aproximação do cientista com o espiritismo começou em 1855, quando um fení´meno agitava a França: as mesas girantes. Em reuniíµes fechadas ou salíµes públicos, participantes ditavam perguntas a mesas que se moviam, no que era identificado como um sinal de resposta, de mortos ilustres ou aní´nimos. Curioso, Rivail passou a frequentá-las em Paris. Convencido da boa-fé de alguns grupos, ele passou a crer. Tempos depois, um espí­rito contou que o conhecera na época do imperador romano Júlio César, em 58 a.C. Na época, Rivail chamava-se Allan Kardec “ daí­ a mudança de nome. Os primeiros registros do professor sobre o espiritismo viraram O Livro dos Espí­ritos (1857). Ele assinaria também outras quatro obras básicas, a fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espí­ritas e a publicação mensal, ao longo de 12 anos, de uma revista “ tornando-se, assim, o grande codificador da doutrina.

Mas Kardec também presidia sessíµes espí­ritas e nelas presenciou, por exemplo, uma jovem de 12 anos receber, de lápis em punho, as palavras de Luí­s IX, rei da França morto seis séculos antes. Em outra reunião, o missionário e uma plateia embasbacada testemunharam um médium receber “ e executar “ uma partitura atribuí­da a Mozart.

 


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