Hipnose torrense

15 de setembro de 2015

 

   

Por Leonardo Gedeon

                     

Um aroma adocicado toma conta das ruas. Uma inebriante névoa que vêm do mar. Entorpecido pela exuberante paisagem litorânea, limitado pela tênue linha entre as areias da praia e o peso do oceano, Tonho mergulha seu olhar no horizonte. A dança das águas molham seus pés. Sente-se pequeno, um insignificante grão de areia, enquanto seu coração dispara e aguça seus sentidos. O imaginário. O pensamento flutua na imensidão e uma atmosfera colorida toma conta do espaço. O silêncio. As emoçíµes. A complexa filosofia das questíµes essenciais. Um momento indescrití­vel perante a simplicidade da ordem natural. Sentado em um banco na hora do intervalo, Tonho saboreia o calor do sol que penetra em sua pele. O ar, uma dádiva. Puro, revigorante. Inspira, segura sua energia. Sente a suavidade, o transpirar, o respirar pausadamente. Expira aliviado, satisfeito. Livre, contente por estar vivo. As preocupaçíµes mundanas se esvaem ao vento. Um sorriso meia boca. A boca ressecada recebe um gole d™água. Tonho observa a relva dos morros alongados, um degradê esverdeado sobre um manto rochoso. Frondosas torres erigidas pelo tempo, uma cicatriz profunda da turbulenta formação continental. Sentinelas imbatí­veis que resistem a força das ondas. Enquanto guardava seu crachá da empresa no bolso com um sentimento de nostalgia e alegria, Tonho recita baixinho como um mantra: EU AMO A MINHA TERRA. Sou como as rochas milenares, não me abalo diante das atribulaçíµes.

Levanta, se espreguiça e desliga o despertador do relógio. Hora de voltar para o expediente de trabalho. Ainda bem que a empresa onde trabalha fica na região central. Uma rápida caminhada de 10 minutos. Antes de retornar a labuta, avista a ilha e os faroletes da barra do rio enquanto as aves sobrevoam a praia. A garça e o biguá se alimentam, as gaivotas se agrupam, os botos surfam as ondas e as baleias chegam na costa. Na laje de pedra, um lobo- marinho descansa em meio as algas. No sopé do morro, os pescadores arremessam as tarrafas e os marisqueiros retiram os mexilhíµes. No caminho estreito, os fiéis carregam velas acesas e as placas de Graças Alcançadas em devoção e agradecimento í  Santinha. Crianças correm atrás da bola e o paraglider no alto deixa apenas o rastro de sua sombra. Os cachorros passam, uns abandonados e outros encoleirados junto aos donos. Pessoas nos carros, devagarinho, ao ritmo da sua percepção em pedaladas rápidas ou descendo a lomba de skate. Ao longe, remam os surfistas na arrebentação. Alguns atletas correndo ou caminhando. Idosos, jovens, crianças, homens e mulheres hipnotizados pelas belezas naturais compartilham momentos divinos diante de um cenário paradisí­aco. Momentos especiais que dão significado e sentido a vida. Tudo como um filme em câmera lenta num roteiro em que as tramas conduzem os figurantes e protagonistas a um final feliz. Sorrisos. Uma realidade fantástica ou um estado alterado de consciência? Que viagem!

Uma bala de menta e o crachá no pescoço. Passa as mãos no rosto e ajeita a camisa pra dentro da calça. Tonho sente-se privilegiado por morar nessa cidade maravilhosa e linda por natureza. Os problemas existem, mas em certos lugares tornam-se meros coadjuvantes. A esperança nasce com a misteriosa lua cheia na ânsia de superar as adversidades, acendendo uma luz no final do túnel. Tonho reconhece e compreende o valor da cultura que se desenvolveu por aqui. Uma cultura rica, diversificada e singular. Torres das águas e das areias, Torres das pedras e dos morros. Torres dos torrenses, a inigualável Torres das torres.  Antes de se virar e seguir seu rumo, um pedido: Que meus netos possam usufruir as dádivas desse lugar mágico. Pai do Céu, que a ambição dos homens não destrua o futuro de nossas crianças. O progresso implacável que deturpa as paisagens naturais, agride as heranças históricas e polui o meio ambiente não pode se perpetuar. Tonho sai caminhando, apaixonado, sossegado, em transe. A mente arejada e tranquila e uma parada estratégica. Um vazio na barriga e o doce da padaria. Na cabeça desse humilde trabalhador, apenas uma dúvida, uma reflexão. Não sabe explicar. Será que a admiração ferrenha e paixão ardente por sua cidade são fruto de uma hipnose no ventre de sua mãe? Uma hipnose familiar regada de orgulho e satisfação de pertencer, uma identidade fincada nas raí­zes da ancestralidade e da tradição, embebida na cultura e história de seus antepassados que forjaram a ferro e fogo o Amor por Torres. O guardião. O defensor. As Torres do Tonho ou o Tonho das Torres?

       


Publicado em:







Veja Também





Links Patrocinados