DIA MUNDIAL DE LIMPEZA DE RIOS E PRAIAS EM TORRES: União pela preservação ambiental

6 de outubro de 2015

 

Em evento organizado pelo Projeto Praia Limpa Torres e Ong GEMARS , cerca de 200 pessoas participam de ação integrada – que teve abraço simbólico, limpeza da Praia da Guarita, palestras, shows e mostra ambiental e artí­stica.  Na foto, o  abraço Solidário em forma de coração pela preservação das praias.

 

 

 

TEXTO: Guile Rocha

FOTOS: Vagner Machado  

______________________

 

A defesa pela preservação do patrimí´nio natural e a busca de uma harmonia com o meio ambiente foram o eixo central do Evento DIA MUNDIAL DE LIMPEZA DE RIOS E PRAIAS (DMLRP), realizado aqui em Torres no Parque da Guarita. Organizado pelo Projeto Praia Limpa Torres (vinculado í  Associação dos Surfistas de Torres – AST) e pela ONG GEMARS (Grupo de Estudos de Mamí­feros Aquáticos do RS), a ação estava prevista para ocorrer no dia 20 de setembro “em alusão a ação global de limpeza de rios & praias. Mas em decorrência das chuvas torrenciais em Torres e Região foi remarcado para o último domingo, dia 04 de outubro. E desta vez, a manhã ensolarada e de céu azul contribuiu para a realização plena do bonito encontro, que reuniu em Torres cerca de 200 pessoas – entre representantes de entidades e voluntários – pela limpeza da orla da Praia da Guarita, um dos principais cartíµes postais do RS.

A prefeita de Torres, Ní­lvia Pereira (PT) se fez presente a abertura do evento. Em seu pronunciamento, ela agradeceu a mobilização do Projeto Praia Torres para organizar e concretizar a ação ambiental integrada do DMLRP. A prefeita também ressaltou a importância da parceria com instituiçíµes privadas para financiamento de polí­ticas públicas. "Estou presente aqui hoje para agradecer pela mobilização de todos os envolvidos no evento. Torres foi abençoada pelo pai do universo com belezas naturais únicas, que são nosso diferencial. O poder econí´mico deve entender que é preciso preservar para crescer de forma sustentável", disse Ní­lvia Pereira,   que também lembrou do apoio da prefeitura ao Projeto Praia Limpa Torres – através de fundos do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Comdica) – para a realização de programa de educação ambiental junto as Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEI) de Torres.

Quem também manifestou-se na abertura do evento foi o presidente da Associação dos Surfistas de Torres (AST), Renan Borba, que lembrou a integração natural entre o surf e a preservação do meio ambiente. "Fico feliz de ver tantas pessoas defendendo a bandeira da natureza em Torres. Hoje é um dia de voluntariado,e é bonito ver as pessoas se doando assim por uma causa justa", comemorou Renan, agradecendo todo o empenho do coordenador do Projeto Praia Limpa Torres, Alexis Sanson.

Neste ano o DMLRP – que já foi bem prestigiado na cidade em 2014 – contou com a estrutura fí­sica do CENTRO INTEGRADO AMBIENTAL (antigo Restaurante do Parque da Guarita). O local – que inicialmente seria um Museu de Ciências Naturais – em breve deverá tornar-se sede da ONG Instituto Oceano Vivo, que trará para Torres seu projeto de monitoramento das Baleias Francas.

 

Projetos ambientais em destaque

 

Com amplo espaço, novas atraçíµes foram possibilitadas pela organização do evento: estandes apresentavam projetos ambientais realizados por 14 entidades convidadas. Com o professor Geraldo Medeiros de Lima, do Espaço Mar JAMBOO, aprendemos sobre as espécies de tubarão que habitam os mares do litoral gaúcho. "Uma caminhada pela praia em Torres pode revelar ao bom observador várias bolsas de sereia – como são conhecidos os ovos de peixes cartilaginosos (tubaríµes e raias). Temos muitos tubaríµes em nossas águas, mas na maioria   espécies pequenas (também chamadas de cação), que em geral nem chegam aos 2 metros – como o mustelus e o cação-anjo. Cada fêmea destas espécies em geral coloca de 10 a 15 ovos por ciclo reprodutivo". explicou o professor.

A equipe da ONG Onda Verde – que há mais de 15 anos vêm atuando na área da preservação ambiental em Torres, também estava com um estande no evento e materiais de apoio para divulgação do recentemente criado Comitê da Bacia Hidrográfica do Mampituba. O professor e presidente da entidade, Benedito Ataguille, explanava sobre projetos da ONG – como o "Nascer e Crescer na Onda do Meio Ambiente" – em que toda criança que nasce em Torres recebe uma muda, significando a interação entre todos os seres vivos . Desde fevereiro de 2008 até 2014, o projeto já contabilizava quase 6 mil mudas doadas.

Também conversamos com o pessoal do curso de tecnologia em polí­meros da Universidade de Caxias do Sul(UCS). Eles são os responsáveis pelo aproveitamento do material reciclável recolhido nas açíµes de limpeza do Projeto Praia Limpa Torres. "O resí­duo que chega até nós é separado, lavado e triturado para após passar por um processo de fundição. Esta matéria-prima final (que por vezes é misturada com outros materiais fibrosos) será injetada em moldes para a produção de diversas peças, fornecidas para a indústria de embalagens, moveleira, da moda, etc", explanou a Professora Rosmary Brandalise.

Já a equipe de voluntários Greenpeace de Porto Alegre – ONG mundial notória por suas açíµes de proteção ao meio ambiente – ressaltava no DMLRP em Torres a relevância da proteção da vida marinha, e ainda coletava assinaturas entre os presentes para a manutenção da Fundação Zoobotânica no RS (entidade que esta ameaçada de extinção, em decorrência da vontade do governo do Estado em reduzir a máquina pública) e em favor da campanha pela criação da lei de Desmatamento Zero, contra a devastação das florestas brasileiras (campanha que já conta com mais de 1,4 milhão de assinaturas).

Outras entidades/empresas presentes no evento foram: Projeto PRí“-MAR, Centro Cultural ECOS DE ANGOLA, CORSAN, DEFENDER (Defesa do Patrimí´nio Histórico e Natural), Ong GEMARS, UERGS (Universidade Estadual do RS), Projeto Pí‰ NA AREIA, EDUQUE, Projeto Reesol da Economia Solidária, ONG AMIGOS DO MEIO AMBIENTE e ONG Oceano Vivo. Ainda destacou-se no evento a inclusão de uma mostra artí­stica – com imagens do artista plástico Jorge Herrmann – com seus desenhos de observação da paisagem de Torres e região – e retratos conceituais de Guilherme Ferreira.

 

 

14 entidades levaram seus estandes para o evento: na foto, o pessoal do Greenpeace, GEMARS e Praia Limpa Torres  

 

Abraço simbólico e ação de limpeza

 

Pouco antes das 10h, o coordenador Alexis Sanson deu as coordenadas para a realização da limpeza de praia, ação emblemática e já regular do Projeto Praia Limpa em Torres. Antes de começar, entretanto, cerca de 120 voluntários reuniram-se ao redor de um grande desenho pela preservação ambiental – realizado nas areias da Guarita pelo ambientalista, pescador e marisqueiro Paulo França, famoso pelas suas mensagens de preservação e desenhos esculpidos nas areias de Torres. De mãos dadas, todos se uniram num abraço simbólico, em forma de coração, em prol da preservação dos oceanos, rios e praias.

Após este bonito gesto, a ação de limpeza na orla finalmente teve iní­cio – e com propósitos cientí­ficos. Sob a supervisão de monitores da UERGS, os voluntários reuniram-se em pequenos grupos para – além de coletar o lixo da Praia da Guarita – identificar e quantificar os tipos de resí­duos coletados. A fim de inserir esses dados numa estatí­stica global – cuja pesquisa é supervisionada pela ONG americana Ocean Conservancy – os voluntários iam marcando em pranchetas os tipos de materiais que iam recolhendo.

Ao final da coleta foi feita a checagem das planilhas e pesagem dos resí­duos: foram recolhidos 66,8 kg de lixo (1.797 objetos). Os itens mais encontrados foram pedaços de plástico (279), pontas de cigarro (243), canudinhos (214) e tampas de refrigerante (181).

 

 

Dessa vez, além da coleta do lixo, voluntários também catalogaram o material recolhido  

 

Palestras em prol da preservação

 

Finalizada a ação de limpeza na Praia da Guarita, o evento DMLRP voltou ao Centro Integrado Ambiental, onde o público teve a chance de prestigiar algumas palestras em prol da preservação. Uma das atraçíµes mais aguardadas era a de Lara Lutzenberger – biologa, Presidente da Fundação Gaia e filha do renomado ambientalista Jose Lutzenberger. Mas em decorrência da remarcação do evento, Lara não pode se fazer presente. Entretanto, a bióloga deixou uma mensagem parabenizando os voluntários, reforçando a importância da luta pela preservação do meio ambiente e alertando sobre "a expansão das torres prediais em Torres", que segundo ela estão "sujando e destruindo a paisagem da cidade".

A seguir, ocorreu a palestra do educador, pesquisador, historiador e Delegado Regional da DEFENDER (Defesa Civil do Patrimí´nio Histórico) Leonardo Gedeon. Com o tema "Torres: Preservar é preciso", o professor relembrou fatos do passado de nossa região – desde a ocupação indí­gena até a formação do povoado torrense –   destacando também os contrastes entre as torres naturais e as torres de concreto que se espalham na cidade. "Percebo aqui na Guarita (entre os participantes do evento) uma semente, que espero que se multiplique e ajude a emanar cada vez mais amor por Torres".

Um verdadeiro apaixonado pelas formaçíµes geológicas que destacam a paisagem torrense, Leonardo Gedeon recordou que, em 1945, havia uma iniciativa da prefeitura para tombamento da cidade. "Desde aquela época alguns já pensavam que a cidade devia crescer sempre salvaguardando esse testemunho que são nossas falésias, sí­mbolos de vigilância e ascensão. Se isto tivesse ocorrido naquela época, a Torres de hoje seria muito diferente. Defendo que lutemos por esse tombamento de nossa orla no processo de revisão do Plano Diretor da cidade (que vem ocorrendo atualmente). Que incorporemos, como sociedade, uma nova mentalidade em relação ao meio ambiente que nos cerca", pediu o professor e delegado regional do Defender-RS, que finalizou pedindo uma salva de palmas ao amor (prontamente atendida).

A palestra que veio na sequência foi do Biólogo e presidente da Ong GEMARS, Paulo Henrique Ott. Ele parabenizou a mobilização de todos na ação da Guarita pelo Dia Mundial de Limpeza dos Rios e Praias (que ocorre há mais de 30 anos em vários locais do mundo), ressaltando os riscos ecológicos do descarte inadequado do lixo. "Cada brasileiro produz cerca de 1kg de lixo diariamente, por isso o gerenciamento dos resí­duos descartados deve ser levado a sério pela sociedade e entes públicos. Infelizmente, ainda vemos muito lixo pela orla, e este lixo acaba indo parar nos mares. Os resí­duos de plástico, principalmente, são um grande problema a vida marinha (pois acabam sendo ingeridos por animais, causando intoxicação e problemas a saúde destes). Por isso é tão válido este esforço pela limpeza da orla torrense, e o mesmo esforço deve se estender ao Rio Mampituba".

Especialista no estudo de mamí­feros aquáticos, Ott alertou sobre o risco de extinção da Toninha – pequena espécie de boto que, há anos atrás, era visita constante no Rio Mampituba. O biólogo ainda ressalta a grande biodiversidade dos mares gaúchos – por onde cruzam (entre outros animais) espécies de tartarugas, golfinhos, baleias, leíµes e lobos marinhos (estes dois últimos assentam-se na Ilha dos Lobos). "Esta biodiversidade ocorre em decorrência do encontro de duas correntes marinhas na área oceânica do RS", explica Paulo Henrique Ott, que finalizou fazendo um apelo aos presentes pela preservação dos oceanos: "Se hoje Torres é considerada capital do Balonismo, espero que no futuro possa ser considerada também a capital da conservação marinha".

Historiador e Presidente Conselho de Polí­ticas Culturais de Torres (Compcult), Rafael Frizzo palestrou sobre a missão de crescer e multiplicar os ideais de preservação da natureza, defendidos por ambientalistas como José Lutzenberger (que, inclusive, foi idealizador do projeto paisagí­stico do Parque da Guarita). Ele contou um pouco sobre a história da Itapeva – localidade de Torres que, há 200 anos atrás, começava sua expansão como povoado. "Mas esta expansão colonial acabou sendo transferida para os arredores do Morro do Farol (onde foi construí­da a quase bicentenária igreja São Domingos) o que abriu espaço para preservação da Itapeva (hoje instituí­da como unidade de conservação). A Itapeva é um patrimí´nio da humanidade, um dos últimos remanescentes da mata de Restinga, refúgio para várias espécies endêmicas da fauna e flora", destacou o historiador.

 A união ente os voluntários que participaram do DMLRP em Torres foi, para Frizzo, uma prova de que a união nos faz ir mais longe. "í‰ nosso dever zelar pela natureza,   com nossas açíµes podemos garantir a manutenção das belezas da paisagem de Torres. Não existe especulação (imobiliária) que se sobreponha ao nosso meio ambiente natural", ressaltou.

Ao final das palestras, o ambientalista Paulo França, leu um de seus belos poemas – onde versou sobre a pureza do povo torrense e seu modo de vida, a natureza abençoada daqui e a importância da preservação. Com o seguinte verso final, alertou para as bitucas de cigarro esquecidas nas areias: …O LUCRO í‰ DA SOUZA e A CRUZ DE TODA VIDA MARINHA! Paulo foi ovacionado pelo público presente. Antes dos shows de encerramento, vários brindes foram distribuí­dos aos presentes. Os shows musicais de encerramento ficaram por conta de Fabrí­cio Teixeira (da banda torrense ARUíŠRA) e Iuri Sanson (da internacionalmente conhecida banda de heavy metal Hibria).

Ainda o evento agregou uma ação social que contou com a solidariedade do público que doou espontaneamente cerca de 100kg de alimentos para o Projeto Social da Creche do Curtume de Torres, entidade que depende de doaçíµes para realizar trabalho voluntário de educação para mais de 30 crianças em vulnerabilidade.

 

Bom público que se reuniu para ouvir as palestras do DMLRP, no Centro Integrado Ambiental  

 

Sobre o Projeto Praia Limpa Torres

 

Organizado pela Associação dos Surfistas de Torres (AST), o Projeto Praia Limpa Torres foi instituí­do em maio de 2013 e, desde então, organiza mutiríµes de limpeza em Torres: são cerca de 10 por ano, além de açíµes de educação ambiental para ensino infantil, fundamental, médio e palestras para entidades públicas e privadas. No ano passado, cerca de 800 alunos da educação infantil torrense  receberam palestras de educação ambiental ( atividade que recebe amparo do Funcondica no municí­pio). E em 2015, o objetivo é chegar a mil crianças atendidas.

 "Por mais que o projeto tenha uma vida curta, a gente já nota uma sensí­vel melhora nas praias, mas a batalha não tem fim. Se limpamos hoje, provavelmente em um mês, elas vão estar sujas de novo. Precisa ser um trabalho continuado, que passa muito pela educação e sensibilização de todos aos efeitos nocivos do lixo no meio ambiente" afirma Alexis Sanson, coordenador do projeto.

Por fim, Alexis já deixa o convite para a próxima ação de limpeza de Praia que será realizada na Praia da Cal no domingo, dia 08 de novembro. MANTENHA A PRAIA LIMPA “ PRESERVE TORRES!


Publicado em:







Veja Também





Links Patrocinados