VISITA AO LAR DOS VELHINHOS: A felicidade évocê quem faz

17 de novembro de 2015

Não importa o lugar que você esteja, as condiçíµes em que você se encontra, as histórias e experiências vividas… a felicidade é você quem faz. Esse foi o grande aprendizado que tive na última terça-feira, dia 10 de novembro, quando visitei a Sociedade Lar dos Velhinhos de Torres (SLAVE).  



Por Maiara Raupp
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Chovia lá fora. E lá dentro, o silêncio era unânime. Uns assistiam TV, outros dormiam sentados, e ainda outros usavam o banheiro com a porta aberta. A grande maioria já não tem mais consciência da onde estão, o porquê estão, e o que fazem. Mas os que têm esse discernimento são felizes apesar de tudo.

Até então eu tinha ouvido falar que as condiçíµes do lar eram muito precárias. Inclusive a gestora, Sí´nia Cafrune, havia explanado um pouco da situação durante sessão da Câmara de Vereadores de Torres, no dia 5 de outubro. Mas ver com os próprios olhos é bem diferente. Dá vontade ter muito dinheiro para colaborar de uma forma mais ampla. Sair fazendo tudo que é necessário, o que não é pouca coisa.

O mato está tomando conta do terreno, que é bem extenso, mas não há recursos para pagar uma roçadeira. A água empoça na entrada do lar, porque é preciso brita para tapar os buracos que a própria chuva causa. A lavanderia necessita ser reformada porque a estrutura está comprometida. A caixa d™água precisa ser trocada de lugar, única coisa que falta para o lar obter o alvará, já que as demais exigências foram cumpridas. A cozinha está carecendo ser ampliada, os banheiros reformados, enfim, o lar está pedindo socorro. E o que mais surpreende, seus moradores são felizes.

Estou aqui por vontade própria
Assim que cheguei ao lar fui recebida por Orlando Alfredo Pinto, de 70 anos. Com sua bengala, Orlando veio em minha direção sorridente. Natural de Praia Grande/SC, viveu em Costão/RS desde criança. Se criou na roça ajudando seu pai a fazer carro de boi, devido a isso, estudou apenas até a terceira série. Quando maior trabalhou em obras em Porto Alegre, em supermercado no Rio de Janeiro, vendeu picolés em Torres. Fiz de tudo um pouco nessa vida. Mas quando voltei pro Costão me afundei na bebida, contou ele.

No lar há três anos, seu Orlando foi para lá por livre e espontânea vontade e por causa do alcoolismo.
  Eu já estava com problemas de saúde em virtude do álcool. Apareceram complicaçíµes no fí­gado e osteoporose. O médico na época me aconselhou a procurar ajuda e me indicou o lar. E eu fui, disse ele, acrescentando ainda que se ficasse no Costão ia continuar se afundando na bebida. Como tinha muito engenho de cana de açúcar, os amigos davam cachaça. Eu não conseguia parar. Bebia todos os dias. Mas tinha consciência que o álcool atrapalhava no trabalho e com a famí­lia. Eu perdi muito dinheiro. Também, como que eu queria ganhar dinheiro se eu gastava com cachaça e praticamente morava dentro de uma garrafa de pinga?, confessou seu Orlando, que na maioria das vezes se emocionava com as coisas que dizia. O aposentado frequentou o grupo dos Alcoólicos Aní´nimos em Araranguá, mas não adiantou.  Atualmente não bebe, mas ainda fuma. Parar tudo é complicado. Mas antes eram dois maços por dia. Hoje não chega a meio, falou ele.

No lar o corpo e a mente de seu Orlando não param. Ele adora estar em movimento. Conserta várias coisas do lar como tomadas, eletrí´nicos estragados, cadeiras de rodas dos companheiros. Eu nunca fiz isso na vida, mas é fuçando que se aprende. Eu tento descobrir qual o problema. Desmonto e monto de novo. ís vezes não funciona, mas também é minha terapia, minha ocupação. Eu não consigo ficar parado. Tenho que trabalhar a mente para não pensar em bebida. São os nossos neurí´nio que mandam no corpo. Tenho que ocupá-los, afirmou ele, dizendo ainda que a maioria dos companheiros do lar não fazem nada. A maioria é ruim da cabeça. Mas já que eu ainda consigo, tento ajudar no que posso, completou ele.

Seu Orlando faz fisioterapia com as estudantes da Ulbra, terapia com as psicólogas e toma medicação, mas ele garante que o que o ajuda são os consertos em sua oficina – uma peçinha do lar que foi transformada para ele trabalhar.
  Gosto muito do lar. As pessoas me tratam muito bem. Desde as meninas que fazem nossa comida, até as profissionais que vêm nos auxiliar. Sou feliz aqui e permaneço aqui porque quero, assegurou emocionado. Casado por 15 anos no primeiro casamento, e 10 anos no segundo, seu Orlando têm três filhos, dois moram em Porto Alegre e um em Torres, que o visitam quando podem nos finais de semana.



Seu Orlando tem até uma oficina na SLAVE, e ajuda a consertar coisas danificadas


Contas fecham no negativo

Atuando efetivamente na cidade há 37 anos, a instituição voltada para receber idosos atualmente acolhe 24 velhinhos, sendo que sua capacidade é de no máximo 25.   O lar é privado, e conforme explicou Sí´nia para A FOLHA, nenhum dos idosos deixa de contribuir com algum recurso, no entanto, não é o suficiente para manter todos os gastos que se têm. Hoje não tem ninguém que não paga alguma mensalidade, mas têm uns que pagam um salário mí­nimo, outros um pouco mais. Mas são raros os que pagam dois salários, o que seria o ideal para o lar sobreviver. A clí­nica é particular, mas se uma pessoa como o seu Orlando que por livre e espontânea vontade nos procura pedindo pra ficar e tem só um salário mí­nimo pra contribuir, você manda ele ir embora? Não. Você o recebe e acolhe, contou Sí´nia, acrescentando ainda que desta forma as contas sempre fecharão no negativo. Enquanto nossa arrecadação mensal é de R$ 22 mil, nossas despesas são de R$30 mil. Por isso a conta não fecha", completou ela.

No ano de 2013, o lar perdeu ainda o caráter filantrópico. Desta forma, as pessoas/entidades não estão autorizadas a firmar convênios junto a SLAVE em decorrência dos processos administrativos contra o espaço, conforme expí´s Sí´nia. "Até golpe a instituição já recebeu. Ano passado fizemos um bingo (para angariar fundos), mas o grupo que organizou o ato não repassou o dinheiro, sumiu e eu acabei sendo denunciada, tendo contas bloqueadas", lamentou a gestora. Com a perda da filantropia, o lar não pode obter convênio com o municí­pio, o que ocasionou a perda do auxí­lio que a Prefeitura dava. Atualmente, a participação da Prefeitura se resume na disponibilização de uma médica que, mensalmente, vai fazer uma visita para checar a situação dos medicamentos.

Vinculada í  entidade desde a sua criação, Sí´nia Cafrune, que havia se afastado da gestão, foi convidada a voltar, já que a situação financeira do lar estava muito difí­cil. Me afastei por quase 20 anos e fui chamada novamente para ajudar. A SLAVE estava prestes a fechar em função de uma dí­vida de cerca de R$ 230 mil reais, referente, principalmente, a causas trabalhistas (por problemas no pagamento do INSS e FGTS). Consegui parcelar o pagamento da dí­vida, e buscamos agora  uma certidão negativa na receita para regularizar a situação, disse ela. Além das causas trabalhistas, o lar acumula contas de água, luz, telefone, dentre outras.
 

 

í‰ preciso se adaptar
 

A instituição recebe hoje muitas pessoas com sérios problemas fí­sicos, principalmente sequelas do AVC e Alzheimer. "O lar virou uma clí­nica geriátrica com a maioria das pessoas com alguma deficiência. Não é mais um abrigo para idosos desassistidos como foi destinada a sua criação. Temos que nos adaptar a essa realidade. Deverí­amos duplicar as capacidades. Mas não há recursos para isso, afirmou Sí´nia. Atualmente, segundo a gestora, o espaço conta em seu quadro de funcionários com duas enfermeiras (que se revezam em plantão), duas cozinheiras, duas mulheres responsáveis limpeza, quatro cuidadoras e uma responsável pela lavanderia. "Havia ainda uma secretária,   mas ela teve que sair em decorrência das dificuldades financeiras. As dificuldades maiores ocorrem porque não é apenas os salários dos funcionários que temos que pagar, mas há também os direitos trabalhistas, 13 ° salário", garantiu ela.  

Sí´nia, que é advogada aposentada, contou ainda do seu desânimo ao ver que corre de um lado para o outro, mas as coisas não saem do lugar. Tenho pena de deixar o lar. Hoje ele está ruim, mas pode ficar pior. E eu não quero deixar isso acontecer. Mas tem vezes que cansa. O administrativo é complicado, a burocracia é imensa, o financeiro sempre fecha no negativo, as pessoas complicam… eu não preciso disso. Mas eu estou há anos aqui voluntariamente porque eu gosto. Quero ajudar. Mas í s vezes dá um desânimo, desabafou ela.
 

Comunidade precisa se mobilizar mais

Sí´nia agradeceu os recursos arrecadados dos eventos beneficentes como o Chá das Rosas e o Homem da Cozinha (do Rotari), que auxiliaram no pagamento das despesas, já que o lar se sustenta das mensalidades e das doaçíµes. Falou ainda do convênio com a ULBRA Torres, que disponibiliza serviços de fisioterapia, enfermagem e psicologia para os idosos, além dos técnicos em enfermagem da Escola Santa Rita que também prestam auxí­lio. A comunidade no geral também se faz presente: há igrejas que fazem reuniíµes, as creches e escolas também vão visitar", mencionou ela.

Diante de toda a situação explanada por Sí´nia, o pessoal dos ‘Malucos da Internet’ (grupo formado no Facebook)
 mobilizou-se e no dia 28 de outubro reuniu-se pela primeira vez criando o grupo SOS Lar dos Velhinhos de Torres. Neste encontro, Sí´nia expí´s as dificuldades sobre questíµes administrativas e financeiras da entidade.  Priorizou as demandas como o pagamento de água e luz, que estão em vias de corte, e outras diversas que necessitam maior envolvimento para que se possa pensar em alternativas de curto e longo prazo. A primeira ação do grupo é um bingo, que será realizado no dia 27 de novembro.

Mas é preciso mais. Ninguém está pedindo rios de dinheiro, mas uma pequena contribuição já ajuda. Que seja um litro de leite, café, comida em geral, frutas (banana, maçã, mamão), matérias de higiene pessoal, principalmente shampoo, material de limpeza (sabão em pó, água sanitária, desinfetante), fralda geriátrica. Roupas, roupa de cama, móveis. Tudo é bem-vindo. Mas lembre-se, doe o que você usaria. Porque de nada adianta uma TV queimada, roupas rasgadas, alimentos vencidos.

Apesar de ‘faltarem pernas’ do ponto de vista financeiro, Sí´nia Cafrune comentou que os idosos no local são muito bem tratados e recebem atenção. "Eles tem sua rotina, a maioria considera a SLAVE realmente como seu lar. Faço inclusive um convite para que a sociedade participe, veja de perto nossa situação", finalizou a gestora.
 

O segredo é ser descomplicado
 


Seu Ronaldo tem feito sessíµes de fisioterapia com voluntários da Ulbra/Torres


Desde o primeiro momento seu Ronaldo Albino Schaeffer, de 71 anos, me observava, mas como estava em sua cadeira de rodas, não conseguia vir até a mim. Assim que passei por perto, ele
  queria saber o que eu fazia lá. Foi aí­ que comecei a compartilhar de sua história de vida.

Natural de Santo í‚ngelo/RS, seu Ronaldo viveu lá até os 14 anos, quando seu pai faleceu. Após isso, mudou-se para Montenegro/RS com a mãe e foram trabalhar na farmácia do irmão, que era farmacêutico. Em Montenegro seu Ronaldo fez sua vida. Casou-se e teve três filhos. Atualmente separado, Ronaldo morava sozinho, e devido í  idade, vivia caindo sozinho em casa, o que lhe ocasionou várias fraturas nas pernas e na costela.

Como seus filhos moravam longe, um em Taquari, outro em São Paulo e um em Arroio do Sal, eles resolveram trazê-lo para mais perto, pois precisava de cuidados. Foi onde escolheram o Lar dos Velhinhos de Torres. Desde julho deste ano no lar, seu Ronaldo vive em uma cadeira de rodas, mas segundo ele, logo passará para o andador e consequentemente caminhará. O que tem me ajudado muito na recuperação são as sessíµes de fisioterapia dos estudantes da Ulbra Torres, garantiu ele, que estudou até o segundo grau completo e fez curso de especialização em vendas.

Seu Ronaldo conta que no iní­cio a vida no lar foi difí­cil, mas que depois foi entrando na rotina, se adequando e fazendo amizades. Gosto muito daqui. As pessoas são boas. Nos tratam muito bem. Assim que cheguei foi complicado. Até para ler, que gosto tanto, era difí­cil. ís vezes tem barulho de TV, de conversas, de visitas. Mas o segredo é ser descomplicado. Tem que se adequar ao sistema, a rotina. Não pode ser radical. Tem muitas pessoas com problemas de saúde, com a memória ruim. Temos que ser pacientes, completou ele.

Durante o dia seu Ronaldo gosta de ver TV, ler clássicos de história como de Napoleão Bonaparte, sobre filmes, cinema, astronomia, geografia, gosta de jogar xadrez, escutar músicas como rock ou aquelas que os deixam satisfeitos ao ouvir.
Por estar mais perto de um dos filhos, seu Ronaldo recebe visita dele e de seus netos com frequência, principalmente aos finais de semana.


"Eu quero ir para o lar "

A aposentada Marta Sena, de 68 anos, assegura que deseja ir para o lar quando não tiver mais condiçíµes de cuidar dela própria sozinha. Marta acompanha a rotina do lar desde 2008, quando ela e seu marido colocaram sua sogra, Glória Sena, de 93 anos, lá. Dona Glória permaneceu no lar até janeiro desde ano, quando veio a falecer. Ela gostava muito do lar. Era muito bem tratada. Cuidavam muito bem dela. Tinham carinho e paciência. No iní­cio ela não queria ir. Queria ficar perto de nós. Mas como eu e meu marido tí­nhamos problemas de saúde, não tí­nhamos condiçíµes de cuidar dela, já que vivia em cadeira de rodas e era pesada. Além disso, não tí­nhamos condiçíµes financeiras de pagar profissionais para mantê-la em casa. Então ela compreendeu e aceitou, explicou Marta.

Segundo ela, Dona Glória faleceu de tristeza e saudade, já que o filho morreu antes dela. Meu marido era seu único filho e ela viu ele partir antes. Mesmo eu, seus netos e bisnetos irem a visitar com frequência, quase três vezes por semana, ela sentia era falta dele, contou Marta, acrescentando ainda que só tem a agradecer ao lar por tudo que proporcionaram a sua sogra até o fim da vida.


Glória (e, in memoriam) passou anos no lar; sua nora, Marta (d) diz que não veria problemas em ir para a SLAVE se não tiver mais condiçíµes de cuidar de si sozinha.

   


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