PRESENí‡A AFRICANA NO LITORAL NORTE Palestra alusiva a Semana de Consciência Negra em Torres

23 de novembro de 2015

 
Leo Gedeon e Bento Barcelos (ao fundo) foram os palestrantes do evento

 

Por Guile Rocha
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Dentro da programação da I Semana da Consciência Negra de Torres, aconteceu na quarta-feira (18/11) uma apresentação sobre a Presença Africana no Litoral Norte. O evento ocorreu na Casa de Cultura de Torres, e contou com a presença de um bom público (majoritariamente alunos do colégio Tietbohl) para ouvir as palestras dos pesquisadores Bento Barcelos e Leonardo Gedeon. Na abertura das atividade, o cidadão torrense Sérgio Melo c
antou belamente a música Lanceiros Negros, emocionando o público numa homenagem aos combatentes negros que participaram (e foram massacrados) na Revolução Farroupilha do RS. Na sequência, o proponente do evento, fisioterapeuta Luí­s Gustavo ‘LG’ Oliveira, indicou a importância da afirmação do negro e sua cultura na sociedade, e chamou os palestrantes ao palco.


Conexão ífrica: Entre as raí­zes, escravidão e cultura

O professor e historiador torrense Leonardo Gedeon agraciou os presentes com uma verdadeira aula sobre a histórica presença dos negros (e sua cultura) no Brasil e no Litoral Norte. Ele falou de Luzia –     fóssil de 11.500 anos atrás, encontrado em MG –   cujo crânio tem caracterí­sticas negroides (ao contrário dos traços mongoloides dos í­ndios brasileiros). "Um grande questionamento, que indica que a presença dos seres-humanos da ífrica em território americano podem ser anteriores ao que se pensava". Mas Gedeon também lembrou que a mais antiga relação entre Torres e a ífrica é geológica. "A formação geológica daqui remete aos tempos em que a América era unida a ífrica.   As falésias basálticas de Torres tem a mesma formação que as da Namí­bia, na costa africana".

Para embasar sua palestra, o historiador traçou um panorama do continente Africano, atualmente formado por 54 paí­ses independentes – divisão formatada no explorador processo colonialista que (principalmente no século 19) ‘partilhou’ o continente entre as potências europeias: "A ífrica de hoje é um complexo mosaico cultural e religioso formada pela presença muçulmana, católica, negra, árabe, europeia.Um continente rico, cheio de tesouros mas historicamente explorado, o que o tornou vulnerável social e economicamente", explicou Gedeon.

Além da exploração territorial, a diáspora africana levou (entre os séculos 16 e 19) a imigração forçada de milhíµes de negros, marcada na histórica chaga do tráfico escravagista. "Um mercado macabro que longamente vingou por ser rentável. Estima-se que, apenas no Brasil, cerca de 3,6 milhíµes de negros desembarcaram dos navios como escravos, mercadoria para trabalho forçado nos canaviais, nas mineradoras, nos cafezais e fazendas. Isto sem contabilizar os muitos que faleceram no perigoso trajeto marí­timo desde a da ífrica. Trata-se de uma cicatriz profunda que até hoje o Brasil Moderno   tenta sarar, cicatriz que, inclusive, colocam até em xeque nossa própria diversidade cultural. Fomos um dos últimos paí­ses a abolir a escravatura. Mas a cultura negra não deve ser lembrada pela mácula da escravidão. í‰ indiscutí­vel que a latente presença africana em solo brasileiro marcou profundamente nossos ritos, economia, nossos costumes, música (como o samba), danças (como a capoeira), pratos de nossa culinária (como o hábito da feijoada)", destacou Leonardo Gedeon.

Entre os absurdos de uma sociedade retrógada, que abertamente julgava seres-humanos pela cor, o professor Leo Gedeon falou de um projeto – que teria surgido na época do Brasil Império – que buscava um ‘embranquecimento’ da população brasileira, a partir de uma expansão da presença europeia em nosso solo. "Como a presença negra era grande no Brasil, o império queria (com esse projeto) que o paí­s fosse visto com ‘bons olhos’ pelas naçíµes européias". Ele também falou de Zumbi dos Palmares, lí­der guerreiro, estrategista militar – um escravo letrado que tornou-se lí­der do maior quilombo do perí­odo colonial (Palmares) e sí­mbolo da resistência negra ao sistema escravocrata. "A lembrança pelo aniversário da morte de Zumbi dos Palmares (assassinado em 20 de novembro de 1965) deve marcar o respeito a diversidade do ser-humano. Há povo preto, povo branco, amarelo. Mas são apenas cores!   Ainda hoje, no auge tecnológico do século 21, ainda vemos   tantas barbáries sendo cometidas pela incompreensão de que cada um é único, diferente. Nem irmãos siameses nascem iguais", refletiu.


Presença africana no litoral Norte

 

 
FOTO: Quilombo Morro Alto possui quase 500 famí­lias de descendentes de escravos

Partindo para o plano regional, Gedeon recordou que, desde as formaçíµes das primeiras sesmarias do Rio Grande do Sul (para a então nascente produção agropecuária), a mão de obra dos escravos negros era utilizada. "Aqui no litoral, há registros de que 300 escravos do Congo teriam desembarcado na área onde hoje é Capão da Canoa (na época chamado de Capão dos Negros). Os escravos negros chegavam para o litoral também pelo norte (Laguna e Araranguá) ou Santo Antí´nio da Patrulha (cidade que na época englobava todo o litoral)", relatou o professor, lembrando também os muitos indí­genas que foram massacrados ou escravizados no processo de colonização europeia (não apenas no RS, mas em todo o Brasil). "A mão de obra indí­gena teria sido utilizada em construçíµes como do Forte do Morro do Farol, em 1820".

Foi relatado que, inclusive nas colí´nias alemãs e italianas estabelecidas   partir do século 19 em Torres – terras de famí­lias hoje tradicionais da região (como Raupp e Grosmann) – havia presença de trabalho escravo. "Mas os colonos eram proibidos de ter escravos,por isso pouco falava-se no assunto", ressaltou Gedeon. O historiador falou também de quilombos do Litoral Norte do RS , sendo que o maior teria sido o de Morro Alto (próximo a Osório)
, que atualmente possui quase 500 famí­lias de descendentes de escravos (que aguardam a titulação de suas terras). "Mas nos quilombos não estavam apenas negros fugidos – mas também brancos semi libertos, mamelucos, cafusos, etc. Pessoas que se reuniam em sociedades alternativas (e com resistências armadas) ao modelo colonial", indicou Gedeon. Ele concluiu fazendo uma crí­tica aos livros de história, que "negligenciam a real projeção e o legado dos negros e indí­genas no Brasil, dificultando o acesso a estas informaçíµes nos livros".  

O evento no Centro Municipal de Cultura foi também democrático no ponto de vista da participação.O microfone passou entre os espectadores, que tiraram suas duvidas e contribuí­ram para o debate sobre a presença africana no Litoral Norte. Um dos que se manifestaram foi Sandro Coelho, lembrando de outros quilombos na região (em Três Forquilhas e Mostardas) e repudiando o preconceito por trás de um ataque sofrido por mulheres negras em ato recente em Brasí­lia. Já o jornalista e escritor Nelson Adams contou uma curiosa história (relatada em antigo livro) de um negro, que morava com a famí­lia no Passo de Torres em 1829. "Este negro apoiou um militar alemão que sofreu uma emboscada quando passava pelo Passo de Torres. Ele foi esconder-se na choupana do negro, que prontamente saiu aos tiros protegendo o estrangeiro perseguido. Este militar alemão depois ficou amigo do negro – que deveria ser liberto (apesar da época da escravidão, negros podiam comprar sua liberdade de várias formas) e ter algumas posses (já que possui duas pistolas).


O "negro do retrato" e o "Santo Preto de Torres"
Seguiu-se o evento com o relato do pesquisador, meteorologista e antigo morador torrense Bento Barcellos.   Ele falou um pouco sobre como descobriu, a partir de uma antiga foto (de 1907), o   parentesco com Paulino Pereira da Silva, seu bisaví´. "Fiz (e venho fazendo) diversas pesquisas para reconstruir minha árvore genealógica. Um dia chegou até minhas mãos esta foto (que pode ser observada mais abaixo desta matéria), de um negro na Guarita conduzindo um taxi de bois, levando alguns engravatados. Eu achei que fosse do meu aví´, e fui proseando com a famí­lia, investigando fisionomias, visitando cartórios até descobrir que o negro do retrato era meu bisaví´".

Segundo as pesquisas do ‘seu Bento’, Paulino Pereira da Silva foi um cidadão nascido escravo em 1853, que teria comprado sua liberdade por volta dos 25 anos. Ele teria se casado com a também ex-escrava Joana e tido 7 filhos. Paulino, com o taxi, tornou-se um homem rico, morava no antigo Passo do Sertão (hoje São João do Sul), numa localidade chamada de Olhos D’água. Dizem que tinha a melhor casa do local, feita de tijolos. "Ao fazer uma visita ao cartório (e com o apoio da moça que lá trabalhava) descobri que o negro do retrato era letrado (algo raro inclusive entre os descendentes de europeus abonados) e tinha uma bela caligrafia", relatou Bento, que continuou falando de sua descendência (não apenas negra, mas também composta de í­ndios e brancos). Ele destacou, por exemplo, a espiritualidade de sua bisavó Joana, que (segundo relatos) teria mugido feito gado após a morte de um dos filhos (num ritual de origem tí­pica africana).

Outros aspectos da presença negra em Torres e região foram abordados por Bento Barcelos. Questionado por Leonardo Gedeon sobre a presença da população negra na área da Praia da Cal (Gedeon lembrou da tradicional presença da famí­lia Barros no Bairro São Francisco) Bento falou que, até meados do século 20, a comunidade negra era significativamente maior naquele bairro (que hoje tornou-se área de veranistas). Pesquisando entre documentos antigos e relatos de pessoas de idade (um processo vital para a preservação da história), Bento disse que chegou ao seu conhecimento a história de um certo negro torrense que foi parar em Canoas – e lá virou uma espécie de santo. "Diz-se que este cidadão – ex-escravo que morreu em 1958 – foi pra Canoas e lá se mostrou uma pessoa muito boa.Era então venerado como santo, o Santo Preto de Torres", finalizou.

 

 

Paulino Pereira da Silva (í  esquerda) acompanhando os engenheiros ingleses na Praia da Guarita em 1905. (Acervo Digital disponí­vel na Fan Page do Facebook: Historiadores de Torres)  

As açíµes da I Semana da Consciência Negra de Torres   são organizadas pelo Samba Torto Produçíµes, Secretaria Municipal da Cultura e do Esporte, Centro de Referência da Mulher e ULBRA Torres.  

 


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