SOS RIO MAMPITUBA: na luta contra a poluição das águas

15 de janeiro de 2016


íguas da foz do Mampituba são consideradas impróprias para o banho pela FEPAM

 

 

Por Guile Rocha
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Vindo desde sua nascente nos cânions da Serra Geral, abrangendo áreas situadas em 18 municí­pios entre o litoral norte do Rio Grande do Sul e sul de Santa Catarina, o Rio Mampituba vêm, sinuosamente, fazendo a fronteira entre dois estados. Ele vem serpenteando-se, bifurcando-se entre o planalto, encostas de morros, vales e planí­cies costeiras por cerca de 100km até chegar em sua foz, no Oceano Atlântico. E na junção entre o oceano Atlântico e o Mar, mais especificamente nas cercanias dos molhes do Passo de Torres, uma onda de qualidade surge para fazer a festa dos surfistas nos dias de vento sul.
Entretanto, este patrimí´nio natural gaúcho e catarinense vem sofrendo há muito tempo com a constante poluição, motivo pela qual sua foz é considerada imprópria para o banho (segundo relatório realizado periodicamente pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental – FEPAM). O próprio surf, na desembocadura do rio no mar, não é recomendado, apesar das boas ondas que eventualmente surgem. Portanto, pensando nas atuais e futuras geraçíµes, é essencial que lutemos pela preservação de nosso Mampituba.
Torres foi obrigada, judicialmente, a implantar e instalar sistema de tratamento de esgoto cloacal, através de uma ação civil pública movida, em 1997. Em março de 2010, o então prefeito de Torres, João Alberto Machado, foi denunciado pela Procuradoria da República no Rio Grande do Sul por não ter implantado sistema eficaz de tratamento de esgoto na cidade – nem eliminado ligaçíµes clandestinas que despejam dejetos (direta ou indiretamente) no rio. Segundo a denúncia, a contaminação da água por bactérias píµe em risco a saúde da população, prejudica o bem-estar dos frequentadores de Torres e causa prejuí­zos econí´micos í  cidade. Entretanto, apesar das denúncias e da vagarosa implantação de melhorias, o problema continua sério em Torres até hoje.
Além disso, a questão da poluição de nosso principal manancial é mais complexa: afinal,   são dezoito cidades que estão ligadas ao Mampituba, sendo dez em Santa Catarina e oito no Rio Grande do Sul. A inexistência de tratamento de esgotos nestes municí­pios que compíµem a Bacia Hidrográfica do Mampituba preocupa. Ou seja, o problema não é só de Torres (que, aliás, é a cidade vinculada ao rio que tem o melhor percentual de esgoto coletado e tratado).


O problema dos Agrotóxicos
 
Criado em novembro de 2012 (pelo decreto estadual n º 49.834),   com suas entidades definidas e membros empossados em julho de 2013, o Comitê Local de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Mampituba surgiu com a função de intermediar, arbitrar e buscar soluçíµes para os conflitos recorrentes da Bacia Hidrográfica do Rio Mampituba.   O jornal A FOLHA contatou a presidente do Comitê, Leonila Quartiero Ramos, buscando informar-se melhor sobre questíµes relativas a poluição do Mampituba. Segundo a presidente do Comitê, a poluição do rio tem basicamente duas origens: 1) orí­gem quí­mica – pelo uso exagerado de agrotóxicos; 2) biológica – pelo esgoto irregular e a falta de saneamento básico adequado.

Leonila aponta, segundo informaçíµes recolhidas no trabalho do Comitê, que, no caso rio Mampituba a principal razão da poluição seriam os agrotóxicos. "Eles são muito usado na produção de bananas, principalmente o herbicida chamado Rouwndup. O mesmo herbicida é muito utilizado na orizicultura (plantaçíµes de arroz)     que   também utiliza inseticidas e fungicidas. A orizicultura também contribui muito pela poluição com partí­culas em suspensão (inaláveis e prejudiciais aos seres humanos, plantas e animais)".
Conforme apurado pelo Comitê do Mampituba, o cultivo   de arroz pelo sistema pré-germinado exige o plantio em solo sob forma de lodaçal. "Isto, em conjunto com a irrigação por inundação, carrega grande quantidade de argila para o rio – deixando a água em qualidade inferior, inclusive dificultando as condiçíµes de vida dos animais que lá habitam".
 

Esgoto que vai para o rio
 
Infelizmente, há muito despejo irregular de esgoto cloacal no Rio Mampituba. Sem tratamento de esgoto, várias cidades ribeirinhas acabam tendo seus dejetos encaminhados, direta ou indiretamente, para as águas do Mampituba. Conforme informado pelo Comitê,   as cidades catarinenses de Sombrio e Santa Rosa do Sul despejam seus esgotos na lagoa do Sombrio (que, através da Sanga da Madeira, chega ao Mampituba). Já São João do Sul polui a partir do rio Sertão, que também é tributário do Mampituba. Situação semelhante ocorre a partir dos municí­pios de Praia Grande (SC) e Mampituba (RS).
Mas o problema encontra-se principalmente na foz do rio, onde estão localizadas as cidades com maior número de habitantes:   Torres (RS) e Passo de Torres (SC). A situação torna-se ainda mais crí­tica no perí­odo de veraneio, quando a população das praias aumenta vertiginosamente. "Com relação a poluição por esgotos cloacais, sabe-se que Torres trata o esgoto que coleta, porém não possui rede coletora em toda sua área urbana. Habitaçíµes localizadas próximas ao canal que liga a Lagoa do Violão ao Rio Mampituba (o chamado Valão), na ausência de rede coletora, acabam despejando seus dejetos   nesse canal. Também ocorrem ligaçíµes clandestinas na rede pluvial (voltada para absorver apenas a água da chuva), e este esgoto, obviamente,   acaba indo parar no Mampituba.   Pior situação refere-se a cidade vizinha de Santa Catarina, Passo de Torres – que não possui estação de tratamento de esgotos", alerta o Comite Local de Gerenciamento da Bacia do Rio Mampituba.

Segundo pesquisas apuradas pelo Comitê, também não pode ser ignorada a questão do valo de saí­da da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) de Torres. "Isso porque, ainda que seja livre de coliformes fecais, a água que sai da ETE é completamente verde(sinal de cianobactérias) e muito rica em amí´nia".
Outra razão de poluição é a presença, nos mananciais hí­dricos da Bacia do Mampituba, das plantas chamadas macrófitas (principalmente água-pés e braquiárias) – que tem sua população incrementada pela ‘fertilização’ decorrente do esgoto nas águas. "Quando estas plantas completam seus ciclos de vida, afundam, começam a entrar em decomposição – provocando o aparecimento de amí´nia, gás sulfí­drico e cianobactérias. Também contribuem para o assoreamento das lagoas abastecidas pelo Mampituba".


FOTO: Casinha sanitária desembocando diretamente dentro do rio.
 

O que fazer para reduzir a poluição
 
Para reduzir (ou eliminar) a poluição, o Comitê Local de Gestão da Bacia do Rio Mampituba indica que seria necessário, em primeiro lugar, dotar todas as cidade ribeirinhas de sistemas   de tratamento de esgoto, o mais completo possí­vel. "Com isso eliminarí­amos os problemas de contaminação por coliformes fecais e outros patógenos no Rio Mampituba".
Outra medida será a de eliminar o uso indiscriminado de agrotóxicos – com o uso de processos agroecológicos e agroflorestais (Sem uso de quí­micos). "Felizmente existe um número significativo de agricultores que praticam a agroecologia na região. Atualmente a região da bacia é polo de produção de produtos orgânicos".
Também seria relevante, conforme o Comitê, fomentar grandes campanhas educacionais em toda a área de abrangência da bacia hidrográfica. "Com medidas como estas, a esperança é que seja obtida uma consciência geral da necessidade de manter o Rio Mampituba com água de classe 2(própria para abastecimento para consumo humano, após tratamento simplificado), no mí­nimo".  

 


Um Comitê em busca de soluçíµes para

o Mampituba

Durante seus   dois anos de implementação, foram realizadas algumas atividades pelo Comitê Local de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Mampituba: visitas técnicas com elaboração de relatório na Lagoa do Jacaré (vinculada ao Mampituba, que passa por problemas com o assoreamento exagerado) e na lagoa do Morro do Forno; Analises do sistema consorciado de produção de arroz com criação de peixes em propriedade situada no Municipio de Mampituba, entre outras açíµes. Entretanto, falta apoio polí­tico (econí´mico) para que mais seja feito – apesar do empenho dos profissionais envolvidos com o comitê.

Conforme ressalta Leonila, desde o ano 2000 uma mobilização ocorre em Torres e região (com a coordenação da ONG ONDA VERDE) para a criação do Comitê Federal de Gestão do Rio Mampituba – o que não aconteceu até hoje. í‰ verdade que – após muitos debates, esforço e dedicação –   foi criado o comitê do lado gaucho. Entretanto, ele não tem ingerência no leito do rio "Por se tratar de um rio federal – que divide dois estados – a criação do Comitê é de competência do CNRH (Conselho Nacional de Recursos Hí­dricos)". Atualmente, vem sendo retomada a mobilização do lado Catarinense (com apoio do lado gaúcho) para a criação do Comitê Federal ou Comitê Mampituba dos afluentes da margem direita.
A presidente do Comitê gaúcho do Mampituba lembra de audiência pública ocorrida no Passo de Torres em novembro de 2009, quando representantes dos Governos de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul assinaram   o documento MANIFESTAí‡íƒO CONJUNTA DOS CONSELHOS ESTADUAIS DE RECURSOS HíDRICOS   DOS ESTADOS DO RIO GRANDE DO SUL E DE SANTA CATARINA", com o compromisso de assumirem, conjuntamente,   a gestão compartilhada da bacia hidrográfica do Rio Mampituba. "Esta manifestação foi assinada com base em resolução do CNRH que seria emitida criando UNIDADES DE GESTíƒO DE RECURSOS HíDRICOS". Entretanto, nenhum encaminhamento concreto a respeito foi feito pelos dois Estados.
Recentemente, o Governador José Ivo Sartori firmou convênio com os comitês de gerenciamento das bacias hidrográficas dos rios – incluindo o do Mampituba – garantindo aporte financeiro (proveniente do Fundo dos Recursos Hí­dricos) para auxiliar na manutenção dos mesmos. Um sinal de que o comitê pode ganhar mais força para batalhar pela preservação do nosso Rio Mampituba, seus afluentes e lagoas.

PRESSíƒO POR MAIS SANEAMENTO BíSICO
– í‰ consenso no trabalho do Comitê de que a falta de saneamento básico é o principal motivo da poluição de nossos mananciais hí­dricos.   "Coleta e tratamento de esgotos domésticos é a solução. "A função do comitê é pressionar os governos para que invistam nessa área que é onerosa, demanda muito investimento e historicamente não tem sensibilizado os governantes", destaca Leonila, que continua. "No RS, a CORSAN tem recebido grandes recursos e está investindo   bastante. Pressionar Santa Catarina é tarefa deste Comitê, para que não se tenha uma foz poluí­da imprópria para banho. Outra   função importante   é dirimir conflitos com relação aos recursos hí­dricos visando   uma solução entre as próprias entidades – evitando, assim os tribunais que sobrecarregados demoram para dar respostas".  


Mobilização do lado Catarinense, com apoio do Comitê gaúcho do Mampituba, para a criação do Comitê Federal – ou Comitê Mampituba dos afluentes da margem direita.

 

 

 

 

 


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