Um bom papo com os idosos do Lar Beneficente Dr. Paim Cruz, em Três Cachoeiras

10 de maio de 2016

 

Verí´nica e Adão se encontraram no lar (e agora falam até em casório!)

 

 

Por Guile Rocha

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Como faço praticamente todas as semanas, acompanho minha namorada em uma rápida viagem entre Torres e Três Cachoeiras, para mais uma visita ao Lar Beneficente Dr. Paim Cruz. Trata-se de um local onde idosos (e algumas  pessoas com necessidades especiais) de várias localidades do litoral norte do RSencontram abrigo, contando com os cuidados necessários. Lá também está meu sogro, que tem 66 anos e sofre de uma doença degenerativa, chamada Afazia Permanente Primária – que comprometeu gravemente sua capacidade de fala, e que progressivamente foi afetando também a compreensão da linguagem e o sistema motor. Enfim, uma pessoa que necessita de cuidados especiais (e de várias pessoas dispostas para tal).

 

LAR DE ROMANCES  

 

São bem diferentes os perfis dos internos no Lar Beneficente Dr. Paim Cruz. Alguns são mais idosos, outros nem tanto, uns são mais sorridentes e conversadores, outros preferem a quietude e tranquilidade. Também são diferentes as limitaçíµes de cada um, mas quando o assunto é o passado o pessoal sempre tem algumas boas histórias para contar.  

Dona Verí´nica Rodrigues, por exemplo, conta que foi por muito tempo a rosqueira mais famosa de Três Cachoeiras: Cheguei a aparecer até na RBS, todo mundo comprava as roscas que eu fazia, eram as melhores da região!, diz orgulhosa Verí´nica. Ela tem 62 anos e 4 filhos (3 rapazes e uma moça) que vivem na região, sendo que a filha Kelly é a que mais faz visitas. "Tenho também um filho chamado Magaiver (inspirado no lendário espião de TV MacGyver, que resolvia qualquer situação), que acabou se metendo nas drogas. Mas ele era forte, e acabou saindo (dessa situação difí­cil)". Verí´nica diz ainda que, quando morava em sua própria casa, a filha lhe pagava uma empregada para lhe fazer companhia e ajudar com as rotinas de casa. "Mas dava muito trabalho, no final das contas elas (empregadas) não ficavam comigo por gosto. Aqui no Lar me sinto melhor, em casa. Todos são atenciosos com a gente, tenho com quem conversar.   O lugar é tranquilo e o pessoal é bastante unido".

E a dona Verí´nica, além de fazer muitos amigos no Lar Dr. Paim Cruz, arranjou até um namorado por lá. í‰ o seu Adão Manuel, 64 anos, ex-agricultor que é natural de Santa Catarina, mas trabalhou em muita roça de fumo e mandioca pela nossa região. Ele está sempre usando seu boné e acomodado na cadeira de rodas, sempre afim de um bom papo. Quando falo sobre Verí´nica, ele diz que gosta muito dela – e que até casório vai sair! "Todo mundo do lar está convidado, e você também. O casamento vai ser aqui mesmo", fala o seu Adão, em tom de brincadeira. Ele está morando no lar há cerca de 2 anos, e diz que tem irmãos que sempre vêm lhe visitar. "Comigo, eram um total de 11 irmãos. Esses tempos um deles me levou para ver a praia. Vou também para Maquiné, onde outro irmão mora. Mas aqui me sinto em casa também, e tenho a Verí´nica por perto!", finaliza o galanteador Adão.

 

MORADORES PARTICIPATIVOS

 

O principal espaço para convivência é o salão de entrada do Lar, local margeado por sofás,   marcada por idoso em cadeiras de rodas e alguma cuidadora ou auxiliar de enfermagem circulando. O televisor fica constantemente   ligado (geralmente no canal de religião ou na Rede Globo), mas – curiosamente, para mim – não costuma ser o foco de atenção dos idosos (pelo menos não no horário de visitas). Alguns dos internos são mais introspectivos, parecem focados em seus próprios mundos, aceitando a condição de   observadores . Mas outros são bastante sociáveis e participativos na rotina do lar. Caso do seu Pedro e do Evaldo, pessoas atenciosas e que, além de moradores do lar, parecem sempre dispostos a dar uma forcinha aos que estão precisando. "í‰ um bom passatempo (participar da rotina do lar). Morava no Morro Azul, mas aqui é melhor, acabo ajudando, tenho o que fazer", conta seu Pedro.

Uma das moradoras mais folclóricas do lar é a Kika – que já vivia por lá em 2012, quando fiz minha primeira visita ao local. A psicopatologia de Kika lhe traz alguns problemas para falar, mas ela compensa essa dificuldade com energia, simpatia e bom humor. Ela tem a alma alegre de uma criança, e sempre nos recepciona entregando, de presente, um desenho de sua autoria (curiosamente, a maioria destes desenhos seguem um repetitivo padrão de formas redondas, páginas e páginas de bolas pintadas e coloridas, de várias cores). Quando chega visita, Kika gosta de ficar por perto, ouvir a conversa, interagir, quase sempre sorrindo.  "A Kika não é idosa (tem pouco mais de 50 anos), mas chegou aqui faz tempo já e se acostumou com a vida no Lar. Atualmente só aceitamos idosos com mais de 60 anos, mas em casos antigos, como o da Kika (que possui psicopatologia), abrimos uma exceção. Permitimos que ela viva aqui porque o lar Dr. Paim Cruz é como a casa da Kika, que ficaria muito mal e triste se tirassem ela daqui", informa a secretária da entidade, Madalena Monteiro Hendler.

Assim como ocorre com Kika, é difí­cil estabelecer uma conversação formal com alguns dos idosos que vivem no Lar em Três Cachoeiras. Há, por exemplo, o seu Irineu, que é um dos moradores mais antigo do lar (onde está há cerca de 13 anos). Ele sofre de esquizofrenia e caminha bastante pelo perí­metro do lar – como se fosse um monitor – também quase sempre com um sorriso maroto no rosto. Em 2012 havia entrevistado ele, que conversava de forma mais articulada. Atualmente, por mais que seja difí­cil de entender o que seu Irineu fala, ele está sempre interagindo com os internos e visitantes, geralmente oferecendo sua caneca de água para os outros beberem.

 

 

FOTO: Kika (e) e Dona Benta

 

 

UM ESPAí‡O PARA CUIDADOS

 

As dificuldades de comunicação com alguns dos internos do Lar Paim Cruz ocorrem, em certos casos, pelas psicopatologias que acometem estas pessoas, e em outros casos pelo natural avanço da idade. Mas entre os que moram no local, há muita gente bastante lúcida e disposta a dividir suas histórias de vida.

í‰ o caso de Benta Fernandes, 82 anos, que está há poucos meses morando no lar. Natural da região de Araranguá (Santa Catarina), ela conta que veio há muitos décadas se estabelecer em Três Cachoeiras. Pessoa religiosa, Benta foi criada pela avó, e se emociona quando fala nela "Foi ela que me ensinou, quando eu era crianças, a maioria das oraçíµes que até hoje eu sei. Quando era jovem, ajudava na colheita de algodão e rezava", disse. Benta casou-se, e por muitos anos trabalhou com o marido no interior de Três Cachoeiras. Entretanto,   nunca teve filhos (ela conta que 10 vezes ficou grávida, mas perdeu todos os filhos). Há cerca de 12 anos ficou viúva, e recentemente sentiu os problemas da vida só. "Tinha minha casa (em Três Cachoeiras) mas morava sozinha, e haviam uns drogados e arruaceiros que me deixavam com medo por lá. Acabei vindo para o Lar por conta própria. Aqui sou bem cuidada, recebo visitas de uma sobrinha que gosto muito (ela me chama de vó!)", finalizou Dona Benta.

Conversei ainda com a Técnica de Enfermagem Isabel – que   trabalha na entidade e é natural de Morrinhos do Sul, como as outras técnicas que atuam junto aos idosos do lar. "Já atuei em hospital, como secretária e depois junto com a ação social da prefeitura (de Morrinhos).   Adoro trabalhar com a terceira idade, acho que os idosos tem muita experiência e boas histórias para contar. Acho que nos faz pensar na vida, afina o pessoal que está aqui já passou por tanta coisa e segue em frente". Isabel diz que gosta do trabalho junto ao lar (onde está há cerca de um ano), e que vai aprendendo ‘as manhas’ e personalidade de cada morador. "A única dificuldade que vejo é quando as famí­lias moram longe (ou não estão tão presentes) e um morador fica doente, precisa de uma assistência mais pessoal", conclui.

 

 

"Temos tanto a aprender quanto a ensinar"

 

DEPOIMENTO: Grupo de Jovens UFA              

 

 

Na foto, pessoal do grupo de jovens UFA interagindo com os idosos: Comunidade participativa

 

"Somos o Grupo de Jovens UFA (Unidos Faremos Acontecer), da comunidade do Porto Colí´nia em Dom Pedro de Alcântara. Somos jovens católicos e como tal, realizamos açíµes dentro e fora de nossa comunidade. Dentre elas, tivemos o prazer de visitar o Lar dos Idosos Dr. Paim Cruz, em Três Cachoeiras no ano passado. Tão grande foi a nossa alegria, a nossa bagagem e o amor que transbordou em nossos coraçíµes depois dessa visita. Fomos com a intenção de levar um pouco de carinho e de amparo para os idosos que lá vivem, mas cremos que a maior recompensa foi nossa. Cada sorriso no rosto das vovós e dos voví´s nos fez perceber que temos tanto a aprender quanto a ensinar. Imaginávamos que seria bom, mas ficamos sem palavras para descrever o quão gratificante foi.

Planejamos a visita por algum tempo, separamos atividades, nos organizamos em todos os sentidos para fazer valer a pena a nossa ida. Contamos com doaçíµes de bonecas e ursinhos de pelúcia e com o apoio da comunidade para enfeitá-los. Tudo isso foi entregue aos voví´s como forma de demonstrar nosso carinho a eles. Durante a visita, ouvimos relatos, desabafos e histórias de vidas emocionantes, mas com certeza, a parte que eles mais gostaram foi a dança. Separamos uma lista com diversas músicas e soltamos o som no lar dos idosos. Não tinha como distinguir quem era os mais felizes ali. Todos se tornaram jovens, sorrisos brotaram até mesmo das vovós mais tí­midas e fizemos a maior festa.

Com essa ação, saí­mos conscientes de que devemos fazer mais por nossos idosos, que ambos precisamos do conví­vio, do apoio, da ajuda, do amparo e principalmente do amor. Se pudéssemos traduzir nosso sentimento em uma única palavra, essa seria GRATIDíƒO! Uma lição? Fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas, nas mãos que sabem ser generosas! Se antes nos faltava amor, hoje com certeza temos de sobra! "

 

 


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