A VIDA DO QUINHA:Conversa com uma das figuras mais populares das ruas de Torres

3 de agosto de 2016

 

Quem não conhece o Quinha? Aqueles que circulam pela beira-mar e pelo centro da cidade podem até não conhecê-lo pessoalmente, mas logo sabem que se trata de uma das figuras mais folclóricas de Torres.

 

Por Guile Rocha

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O andarilho negro que perambula pelas ruas do nosso centro com uma simpatia serena e seu estilo caracterí­stico – entre o maltrapilho chique e a originalidade. Interagindo com   moradores e visitantes, bebendo e participando da vida noturna com a juventude. Quase todo torrense que se preze já viu o Quinha passando por aqui ou por ali. Mas qual a história deste famigerado andarilho da cidade? Muitos causos já ouvi sobre o Quinha, mas pouco sabia de verdade. Várias pessoas haviam me sugerido fazer um perfil do Quinha no jornal A FOLHA – e nas linhas abaixo você vai saber um pouco mais sobre essa peculiar figura (segundo depoimento dele próprio).

Me encontrei com o Quinha no restaurante Mais Sabor, na Praça de Alimentação do Camelódromo, onde ele várias vezes consegue ‘filar’ um almoço grátis (contando com a boa vontade da proprietária, Elisete Querino). Vestindo uma velha jaqueta de couro e uma touca na tarde nublada (e fria) de inverno, ele estava sentado em uma mesa e folheando (despretensiosamente) um livro de matemática quando começamos nossa conversa.

 

Origens do Luí­s Paulo (e do Quinha)

 

Seu verdadeiro nome é Luí­s Paulo da Silva Silvério. Sua idade: 28 anos. "Eu nasci (na Grande) Porto Alegre. Vim pra Torres quando tinha uns 17 anos com a famí­lia (embora outras pessoas digam que o Quinha viveu em Torres também durante sua infância). Minha mãe foi embora (há pouco tempo) pra Porto Alegre, cuidar da minha vó. Minha irmã está morando em Arroio do Sal, minha outra irmã mora na lomba (bairro São Jorge) e meu irmão tem casa na Vila São João", disse o popular Quinha, ressaltando que, a famí­lia está presente para quando ele precisa. Dentre seus irmãos, apenas o   que vive na Vila São João – e trabalha com móveis – está empregado no momento.

Sobre seu apelido, ele não sabe exatamente porque surgiu – mas acabou pegando com força e marcando sua ‘popularidade andarilha’. "Já tinha um outro Quinha aqui em Torres. Esse é o Quinha verdadeiro, ele mora no canto (da Ronda). Não sei porque começaram a me chamar assim, mas faz tempo já".   disse o Quinha. Mas é fato que ele – de tanto perambular por aí­ –  tornou-se numa figura popular da cidade. "Todo mundo quer que eu seja vereador. Acho que ainda vou ser. Se eu fosse vereador ia dizer pra arrumar a quadra de basquete (da praça Pinheiro Machado). Ia pedir pra liberar a maconha também, como no Uruguai, porque é bom pra relaxar". Perguntei o que ele acho de não ter sido chamado pra carregar a tocha olí­mpica. "Queria carregar a tocha olí­mpica, mas não me chamaram,   porque meu pé começou a doer, porque tava chovendo. Eu cai um tombo de skate no carnaval, foi feio. Ainda hoje dói de vez em quando"

 

Estilo de vida das ruas

 

Quinha me disse que há muito tempo começou a dormir nas rua de Torres.No passado, o popular andarilho já teve várias ‘residências improvisadas’, algumas bem peculiares:   "Uma vez um amigo me ajudou, e fiz uma casinha nas Dunas nos Molhes. Fiquei morando um tempo ali também". A razão de ficar nas ruas é  porque, em casa, tinha problemas com o padrasto. " Já fui pra escola, mas meu padrasto me tirou. Ele sempre brigava comigo aqui em Torres. Ele me maltratava, batia em mim e na minha mãe. Por isso não gostava de ficar em casa. Agora que minha mãe terminou com ele tá melhor ", revela Quinha, dizendo que sente saudades da sua mãe (que está atualmente na capital gaúcha). Quanto a bebida, Quinha diz que bebe todos os dias, e que no inverno gosta principalmente de beber um vinho nas Quatro Praças. "Mas só bebo de noite. Beber de dia não dá, senão se estraga muito". Após eu perguntar isso, ele me pede uns pilas para ir comprar um gudang (cigarro forte vendido no camelódromo).

Quinha conta que está, já há algum tempo, vivendo na varanda de uma casa próxima da Praia Grande – com consentimento do dono,segundo ele. Lá ele mantém alguns pertences seus, como duas jaqueta, 3 calças, moletom, tênis, cobertor. No geral coisas que ele ganhou – de presente ou por caridade. "O pessoal que já sabe que eu fico ali as vezes deixa um rango, coisas pra mim. Eu gosto de lá". Uma das coisas que ganhou de presente foi uma prancha. Esses dias, ignorando o frio invernal, foi surfar. Ele entrou no mar ‘no pelo’, sem a proteção da roupa de borracha (Já que a que ele tinha foi roubada). "Tava muito frio, mas tava quente também (dentro d’água). Daí­ começou a chover demais e eu sai".   Ainda sobre o meio esportivo, Quinha diz que andava muito bem de skate no passado, sendo que teria chegado, inclusive, a competir quando era menor e morava em Porto Alegre.

Já quando quer tomar banho, o andarilho vai até o CREAS, órgão público que presta assistência pros torrenses em situação de rua. "Lá eu também como um rango, tem roupas, posso ir no banheiro. O pessoal (no CREAS) é bem gente fina". Mas durante o inverno, Quinha admite que não   é muito fã do chuveiro. "Banho é uma vez por semana, não gosto muito de tomar banho no inverno, porque a água é fria. Quando vou tomar banho no CREAS boto o coisinha (de temperatura) no quente. Gosto de tomar banho bem quente". O Quinha também trabalha, eventualmente: faz uns bicos principalmente entregando panfletos para lojas da cidade. "Tem também um restaurante (próximo í  beira do rio) onde eles me dão comida, dai eu limpo as mesas, varro. Ai o pessoal me ajuda". Ele conta que consegue comida em vários restaurantes da cidade. Contando com a solidariedade dos proprietários – e sendo uma figura folclórica de nossa Torres – sempre garante suas refeiçíµes. Ele também acessa a internet quando pode – quase sempre de graça. Tem perfil no Facebook, mas não usa muito. Quinha até tem um celular, mas que não está funcionando atualmente (porque não tem bateria).

Quinha   se gaba de, mesmo morando nas ruas, já ter tido várias namoradas (ou ‘ficantes’): de Caxias do Sul, Capão da Canoa, Carazinho, São Paulo, Rio de Janeiro, Capão Novo, Arroio do Sal –   até argentinas e uruguaias. Atualmente, ele afirma que tem uma namorada aqui de Torres. "A gente se dá bem, eu gosto dela e ela gosta de ficar comigo também". Ele exibe sua popularidade ao dizer que irá comemorar seu aniversário (dia 09 de outubro) no Bora Bora –   mais tradicional casa noturna de Torres –  teoricamente, com consentimento e cortesia do proprietário.

 

Cadeia,  Violência E preconceito

 

Alguns anos atrás, Quinha foi preso por, supostamente, roubar uma bicicleta. "Disseram que fui eu (que roubei) mas não foi. Fiquei preso naquela prisão ali do Igra por um tempo (quando o presí­dio de Torres ainda era masculino – hoje é feminino). Mas o pessoal não gostava de mim lá. Fiquei um tempo lá, mas eu odeio aquele lugar. Alguns (presos) de Torres me respeitavam, mas alguns de fora me bateram um monte lá. Eu cheguei até a ter que ficar numa sela sozinha, por causa disso, porque estavam me maltratando. Dai uma amiga minha (que trabalhava nos quiosques da Praia Grande) me tirou de lá".

Quinha me contou que já foi muito judiado e agredido na vida. Já bateram nele, lhe humilharam. Entre os policiais, alguns simpatizam com ele, mas outros lhe incomodam (e até lhe agridem), principalmente no perí­odo do veraneio. Ele falou de uma história especialmente chocante, que ocorreu há alguns anos: um grupo de pessoas de Caxias do Sul, segundo ele skinheads, teriam lhe surrado, arrastado até a praia aqui em Torres e, com ferro e fogo, lhe talharam nas costas um sí­mbolo nazista. Curioso e sensibilizado, pedi para ver a tal marca. Na parte superior de sua paleta realmente há uma pequena marca retangular de uma queimadura, mas não o abominável sí­mbolo nazista "Um amigo me ajudou a tirar a marca, com água quente. Demorou e doeu, mas saiu", explicou.

 Adentrando na questão, pergunto se ele sofre com racismo, de alguma forma: Sofro com preconceito sim, por ser preto, mais ainda porque tí´ sempre na rua. Mas eu sou de boa, e em Torres todo mundo gosta de mim. Como tem gente que faz mal tem outros que me ajudam quando preciso".Finalizando, pergunto pro Quinha quais seus sonhos e planos para o futuro. "Eu queria uma casa só minha, pra eu ficar com a minha mina de boa. Mas nunca vou sair de Torres, essa é minha cidade".

 

 


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