Quem, eu?
Ta certo. Fui eu que enchi a xícara de café. Aliás, enchi mais uma e outra mais. Precisava ficar acordado. Fui eu que fumei demais, bebi demais, amei demais. Amei do meu jeitinho; não tenho outro jeito. Fui levando, experimentando de tudo, mas tudo nem sempre me bastou.
Quem, eu?
Fui aquele que aprendeu que, í s vezes, amor e ódio sentam na mesma mesa. Sentam para conversar, para converter, para nos tentar. Não tive nada a ver com a guerra do Vietnam, nem com a bomba de Hiroshima, nem com homens corruptos. Preferi o festival de Woodstock.
Quem, eu?
Se precisar fazer análise faço. Caminho de Santiago? Vou. Ouvir Tim Maia e Jorge Benjor sem parar não seria problema para mim. Andar por aí procurando desesperadamente o belo, o lúdico poderia ser minha profissão. Não pegaria em armas, não faz meu gênero.
Quem, eu?
Sim, fui eu que fiquei, por horas a fio, embaixo da marquise esperando a chuva passar. Não gosto de guarda-chuvas. Esperava a chuva passar enquanto olhava para dentro.Assistia em silêncio í enchente de pensamentos que por mim passava.
Quem, eu?
Não sou Pelé nem nada. Apenas marco um gol de vez em quando. Difícil marcar gol nesta estrada cheia de pedras, mas tento. Como sobreviver sem vitórias? Como ser quem não se é? Neste teatro tenho procurado um papel mais adequado.
Quem, eu?
Não me lembro de meus sonhos. Sonho acordado e, í s vezes, tenho insí´nia. Meu alívio é que não sou o único. Viver é sem manual de instruçíµes. Tempo e espaço não param. Mesmo assim tento parar algumas nuvens, gosto muito do sol. E a noite pode chegar a qualquer momento com suas luas e estrelas, sem problemas, é tudo muito bonito no planeta Terra.
Quem, nós?
Tentamos. Estamos chegando no fim da estrada. Testamos aflitivamente todos os limites. Inventamos a pólvora e suas conseqí¼ências. Fomos lá longe. Fomos í lua. Quase perdemos seus encantos. A ciência fotografa o espírito e não conseguimos acabar com as desigualdades. Não estamos nem aí. A gente come todo tipo de bicho e plantas. O banquete é muito grande. Depois, o cocí´ e a descarga. Nosso planeta avisa e nós não prestamos atenção.
Quem, nós?
Temos muita esperança. Já fizemos coisas fantásticas. Acreditamos em vários deuses, e seguimos rezando para que façam algo por nós. E o auto-engano está por aí justificando todos os pecados.
Quem?
Quem prestou atenção no canto dos pássaros? Quem nos atropela com saudades de um tempo que ainda não veio? Quem, por terra, mar ou ar viria libertar o homem do cursodesta história impressionante? Fizemos coisas muito importantes. Não somos mais simples vermes. Asfaltamos ruas e estradas; outras ficaram com buracos. Acinzentamos o céu, escrevemos a Divina Comédia e não paramos de discursar.


