Barracas à beira-mar: sombras, salvamento e memória na Praia Grande

Confira mais um texto da série 'HISTÓRIAS QUE A SAPT GUARDA', relembrando o cotidiano de Torres (RS) em tempos passados e a importante participação do clube SAPT nesta história

13 de julho de 2025

Há tempos em que a praia não era apenas cenário de férias, era também, símbolo de pertencimento, palco de encontros e reflexo das intenções de uma cidade que se sonhava moderna e acolhedora. Na curva da Beira-Mar, diante do oceano vasto e dos ventos que sopravam forte, erguiam-se as simpáticas barracas da SAPT: um mar de listras, lonas e madeiras que pontuava a paisagem com uma organização quase coreográfica.

Mais do que abrigo do sol, aquelas estruturas representavam o cuidado com o veranista, a tentativa, singela e ambiciosa, de equiparar Torres aos balneários mais sofisticados da América do Sul. Com elas, veio também o posto de salvamento, instalado sob a responsabilidade da SAPT, antecipando uma preocupação genuína com segurança e bem-estar num tempo em que o poder público municipal ainda não conseguia dar conta das necessidades básicas da cidade.

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As barracas, que ocupavam boa parte da faixa de areia em frente ao então chamado “Abrigo da SAPT”, eram alugadas por temporada ou usufruídas pelos sócios. Organizadas em fileiras, criavam um cenário que misturava elegância, conforto e distinção social. A praia transformava-se em extensão da sede social: o mar era o quintal de quem passava ali os verões.

Mas a beleza da organização escondia também tensões. Para muitos moradores da cidade, a ocupação da orla por uma elite veranista, vinda majoritariamente de Porto Alegre, representava uma espécie de privatização simbólica da paisagem. As barracas eram, para uns, sinônimo de orgulho e identidade balneária; para outros, lembrança de exclusão e desigualdade. Esse embate silencioso atravessou décadas, até que, no fim da década de 80, uma ação civil pública proibiu a ocupação da praia por estruturas privadas, pondo fim à era das barracas da SAPT.

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No entanto, é impossível ignorar que essa estrutura organizada, com barracas, salva-vidas, sanitários e até uma esteira de acesso motorizado, foi uma das primeiras tentativas concretas de urbanização da orla. Em tempos em que faltava até energia elétrica confiável, a SAPT propunha, através de suas ações, uma forma de planejar o futuro com as ferramentas que dispunha, fosse por meio da Taxa Balnear, destinada ao custeio de obras, fosse com gestos cotidianos de cuidado com o espaço público.

Hoje, as barracas não estão mais lá. Restaram as memórias, as fotos desbotadas, os relatos nostálgicos de verões coloridos sob a lona. O abrigo, ainda de pé, testemunha silenciosa das décadas em que a Praia Grande foi cenário de um projeto coletivo de veraneio com identidade própria.

As ondas seguem vindo e indo, apagando pegadas, mas nunca histórias. As sombras das antigas barracas, embora ausentes da areia, permanecem na lembrança dos que viveram aqueles verões. E o som do apito do salva-vidas ecoa ainda, como sinal de que ali se pensou na cidade, no lazer e na vida.

Que essas memórias nos façam refletir sobre o uso das praias como espaço de convivência democrática e patrimônio coletivo.

 

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Publicado em: Cultura






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