Em tempos idos, os balneários litorâneos tinham nos hotéis o principal destino dos visitantes. Eles ofereciam a infraestrutura capaz de abrigar e proporcionar um mínimo de conforto aos, até então, turistas. O tempo e as circunstâncias, contudo, alteraram essa forma de ocupação do litoral gaúcho, que passou a ser a segunda residência de muitos, transformando-os em veranistas.
Essa transição dos hotéis-balneários para as casas de veraneio ocorreu nos anos 1930/40. Embora a origem dos primeiros povoamentos do litoral gaúcho tenha se dado por outros motivos que não o veraneio, o desenvolvimento urbano da região a partir da década de 1930 foi fortemente atrelado à consolidação dos costumes de passar as férias de verão na praia.
As recém-formadas praias de balneário começaram a se organizar em torno de uma elite de “não nativos”, que se viam como amigos do lugar, desejosos de ocupar e desfrutar. Assim, surgiram as Sociedades dos Amigos das Praias, abrangendo diversas localidades.
Essas sociedades desempenharam um papel crucial na organização do lugar – ou da praia que estava sendo ocupada (o termo mais adequado seria “desenvolvida” ou “estabelecida”) – e, em conjunto com os gestores locais (prefeitos), em levar o máximo de infraestrutura para a região. E foi o que aconteceu. Muitas das pequenas praias e balneários prosperaram com o apoio desses “Amigos” de fora. Eles trouxeram para esses locais, antes mais simples, um pouco do conforto que tinham em suas cidades de origem. A ideia era passar as férias no local escolhido, mas com as comodidades de suas casas.
No início da implantação dos loteamentos residenciais, os hotéis tiveram uma importância capital na congregação da comunidade veranista que se formava. Entre os ambientes dos hotéis, cujas funções eram voltadas para a sociabilidade e o entretenimento, estavam as salas de jogos, salas de estar, salões de bailes e bares. Alguns hotéis contavam ainda com cassino ou cinema. Entre os anos de 1936 e 1955, a maior parte das agremiações praianas foi fundada nas dependências desses estabelecimentos.
A primeira a surgir foi a SAPT (Sociedade dos Amigos da Praia de Torres), fundada em 1936 no salão do Balneário Picoral. Em 1945, foi criada a SAT (Sociedade dos Amigos de Tramandaí), nas dependências do Hotel Corrêa. No mesmo ano, nasceu a SACC (Sociedade dos Amigos de Capão da Canoa), no Hotel Riograndense. Já em 1955, foi a vez da APC (Atlântida Praia Clube), constituída no Hotel Atlântida. A SABA (Sociedade dos Amigos do Balneário Atlântida) surgiu de uma dissidência de associados do Atlântida Praia Clube, quando este ainda utilizava o salão de festas do hotel.
A SAPI (Sociedade dos Amigos da Praia do Imbé) nasceu em um contexto distinto: uma reunião informal de veranistas à beira-mar, em 1949. Já a SAAS (Sociedade dos Amigos de Arroio do Sal) foi formada na residência de uma família de veranistas, como expressão de um movimento por melhorias na infraestrutura local.
Esses hotéis não ofereciam apenas hospedagem — dispunham de infraestrutura robusta para a época, com serviços e espaços voltados ao lazer e à sociabilidade. Salões de baile, bares, atividades culturais e recreativas faziam parte do cotidiano desses estabelecimentos.
Com o tempo, a convivência nesses espaços contribuiu para transformar os turistas em veranistas. A comodidade encontrada nos hotéis inspirou muitos a adquirir terrenos e construir suas próprias casas de veraneio. Surgia, então, a demanda por melhorias urbanas nos balneários — água, luz, ruas, saneamento —, impulsionada tanto por iniciativas individuais quanto por ações coletivas das sociedades praianas.
Relembremos brevemente os três principais hotéis que abrigaram os nascimentos dessas sociedades:
Balneário Picoral

Inaugurado em dezembro de 1915, o Balneário Picoral era formado por dois conjuntos de construções em madeira. O primeiro era o Salão de Refeições — que também funcionava como restaurante, recepção e espaço para eventos sociais, com capacidade para cerca de 500 pessoas. O segundo conjunto abrigava pequenos chalés, conhecidos como o “quadrado do Picoral”, que serviam de hospedagem.
Para os padrões da época, o local era um verdadeiro resort: oferecia quatro refeições diárias (café da manhã, almoço, café da tarde e jantar), além de serviços como sorveteria, cabeleireiro, bar, guarda-vidas, saraus e música ao vivo.
Hotel Corrêa
Inaugurado em 1930, em Tramandaí, o Hotel Corrêa possuía características arquitetônicas semelhantes ao Picoral: um sobrado em madeira, com alpendre frontal, guarda-corpo no segundo piso, telhado de duas águas e cobertura de zinco.
Divulgava-se como um hotel moderno, oferecendo luz elétrica, poço artesiano e cozinha “asseada” sob direção “competente” — uma estrutura elogiável para sua época.
Hotel Riograndense
Construído em madeira por Juca Valim e inaugurado em 1928, o Hotel Riograndense — inicialmente propriedade de Alberto Mury — destacava-se pela escala imponente em comparação às demais construções da região.
Localizado a 99 metros da praia, foi posteriormente adquirido por Ramiro Corrêa da Silva, que promoveu reformas e ampliou sua capacidade: somavam-se 23 chalés de madeira e um amplo salão de refeições, onde ocorriam festas de Natal, bailes de carnaval e jogos.
O mar seguia como a grande atração, mas era no salão do hotel que a vida social fervilhava, com partidas de futebol, jogos de cartas e muita animação entre os veranistas.
Como mencionado, o objetivo principal dessas sociedades era a organização comunitária para pleitear junto ao poder público as melhorias necessárias ao funcionamento das temporadas balneárias. Em muitos casos, a própria comunidade arcava com os serviços, numa verdadeira mobilização coletiva.
Na década de 1960, já era raro encontrar um balneário gaúcho sem ao menos um clube social — sinal de que o veraneio havia se consolidado como um modo de vida.
Esta é, portanto, uma singela homenagem a esses verdadeiros resorts pioneiros — estruturas completas, ousadas para sua época — que sustentaram os primeiros passos do turismo e do veranismo no litoral norte do Rio Grande do Sul.
Fonte: As Sociedades Praianas na Arquitetura Do Litoral Norte do RS. Dissertação de Mestrado. Marione Denise Otto.
