Na construção do roteiro virtual que une história e turismo destaco Balbino de Freitas, proprietário do que foi considerado o primeiro e mais relevante armazém de secos e molhados da então pacata vila das Torres.
Balbino nasceu em Torres em 4 de agosto de 1871, filho de Antônio Luiz de Freitas (conhecido como “Pica-Pau”, por suas convicções políticas) e de Maria Francisca Moreira Freitas, a Dona Chiquinha. Casou-se com Ana Matos, filha do intendente Manoel José de Matos Pereira. Teve uma prole numerosa — nada menos que 15 filhos — e faleceu na própria cidade, no Dia de Finados de 1936.
A lenda local conta que Balbino era o maior — e talvez o único — comerciante de secos e molhados da vila de Torres. Seu armazém funcionava em sua casa, ao lado da antiga Prefeitura (então chamada Intendência), e oferecia todo tipo de mercadoria imaginável para a época, no início do século XX. Mais do que um ponto de comércio, o armazém era um centro de convivência social para os cerca de 500 moradores da vila. Homem de trato afável, Balbino era estimado por todos — tanto pelos moradores quanto pelos veranistas — que o consideravam amigo, compadre, e até conselheiro. Sua popularidade o levou à vida pública: exerceu mandatos como vereador e, em 1929, foi eleito vice-prefeito de Torres.
Habilidoso em diversos ofícios, Balbino produzia os próprios refrigerantes que vendia e chegou a criar um condimento batizado de “Molho Brasil”, que, apresentado em feiras pelo país, ganhou notoriedade e foi apreciado nacionalmente. Além disso, dedicava-se à carpintaria, marcenaria, funilaria e até à eletricidade — fabricava seus próprios lampiões.

Outra faceta notável de Balbino era seu espírito curioso e colecionador. Gostava de explorar os sambaquis da região em busca de artefatos arqueológicos. Com a abundância desses sítios em Torres, sua coleção cresceu a ponto de atrair o interesse de colecionadores e museus do Rio Grande do Sul, da Argentina e do Rio de Janeiro. Por conta própria, reuniu importantes peças da cultura indígena local, fundamentais para a compreensão da história dos primeiros habitantes da região.
Conta-se que a casa de Balbino chegou a funcionar como um dos primeiros museus arqueológicos do Brasil. Diante da grande quantidade de objetos e da falta de espaço adequado para guardá-los, especula-se que ele tenha doado ou vendido sua coleção ao Museu Nacional do Rio de Janeiro. No entanto, os detalhes sobre essa transição permanecem obscuros, sem registros oficiais — um tema que certamente merece ser aprofundado em uma próxima coluna.
A memória de Balbino de Freitas segue viva nas lembranças dos antigos moradores e nas entrelinhas da história local. Sua trajetória multifacetada — comerciante, político, inventor e colecionador — revela não apenas a personalidade de um homem singular, mas também nos ajuda a compreender o espírito empreendedor e comunitário que moldou as origens de Torres. Ao resgatar figuras como a dele, damos novos contornos à paisagem da cidade, enriquecendo o olhar de quem a visita e fortalecendo o vínculo dos que aqui vivem com sua própria história.
Fonte: Torres tem história, Ruy Ruben Ruschel.

