BALNEÁRIO PICORAL: O legado do pioneiro empreendimento hoteleiro em Torres

A Vila de São Domingos das Torres, antes de 1915, vivia da agricultura e da pesca. Pobre, o vilarejo parecia dar as costas para o mar, com pouca dependência dele. Mas esse cenário estava prestes a mudar drasticamente. Um filho da terra estava de volta, pronto para redefinir o futuro da pequena vila. Ali, em Torres, nascia o grande Balneário Picoral.

21 de julho de 2025

Mais um personagem e um lugar para figurarem no roteiro virtual pelas ruas da cidade de Torres: José A. Picoral e seu Balneário Picoral.

A Vila de São Domingos das Torres, antes de 1915, vivia da agricultura e da pesca. Pobre, o vilarejo parecia dar as costas para o mar, com pouca dependência dele. Mas esse cenário estava prestes a mudar drasticamente. Um filho da terra estava de volta, pronto para redefinir o futuro da pequena vila. Ali, em Torres, nascia o grande Balneário Picoral.

Picoral, filho de imigrante holandês, nasceu em 25 de julho de 1877, na Colônia de São Pedro. Após a morte do pai, mudou-se para Porto Alegre aos 14 anos. Lá, começou a trabalhar em uma loja de tecidos na antiga Caminho Novo (hoje Rua Voluntários da Pátria). Anos de economia lhe permitiram comprar um buffet na estação ferroviária da capital. Com grande sucesso no comércio, Picoral casou-se com Matilde Mayer, filha do renomado livreiro e editor João Mayer Jr.

Por volta de 1905, vendeu o buffet e adquiriu um terreno na Caminho Novo. Lá, instalou uma fábrica de cigarros que, mais tarde, expandiu para produzir caramelos e balas. Não satisfeito, ainda montou uma torrefação de café. Apesar de sua vida agitada na capital, Picoral nunca perdeu os laços com sua terra natal, viajando frequentemente para a Colônia São Pedro e Torres, onde mantinha muitos amigos.

 

A Revolução do Turismo em Torres

Nos anos 1910, o turismo em Torres era dominado pela Balneoterapia, um costume europeu. Famílias burguesas buscavam praias e estações termais para descanso e recuperação da saúde. Os primeiros turistas eram os serranos, que desciam do planalto em caravanas de cavalos e mulas em busca do “refrigério marinho”. Eles alugavam casas ou se hospedavam em pensões, aproveitando os “banhos restauradores” – tomados de manhã cedo, quase de madrugada, com um número específico de ondas (nove) para garantir a saúde o ano todo. Essa era a limitada utilidade do mar e a precária estrutura para os poucos turistas que chegavam.

No verão de 1913/1914, Picoral decidiu levar sua família para conhecer Torres. A família inteira partiu de Porto Alegre em uma “jardineira” (carroça de dois rodados) rumo ao litoral. A viagem de quatro longos dias era uma aventura, com a rota passando por dentro de fazendas até chegar à beira-mar e continuar pelas areias brancas da orla. O objetivo da viagem era claro: ele já idealizava criar uma estação balneária em Torres.

No ano seguinte, o destino foi Tramandaí, e, ao contrário do veraneio anterior, foi um completo fracasso; não havia condições mínimas para um descanso aprazível à beira-mar. Conhecendo o intendente de Torres, Coronel Pacheco, Picoral telegrafou relatando seu “veraneio horroroso” em Tramandaí e solicitou apoio para erguer um hotel em Torres.

 

O Balneário Picoral: Uma Cidade Pioneira

No veraneio seguinte, 1915/1916, Picoral inaugurava seu Hotel Picoral. Começando de forma mais modesta, logo se transformaria no famoso “Balneário Picoral”. Uma instituição turística modelar! O complexo contava com um prédio-sede que abrigava o salão de festas e um refeitório para 500 pessoas. Ali, havia também uma cozinha ampla e completa, uma panificadora, e na parte inferior, um bar e uma barbearia.

Na beira-mar, ficavam os principais chalés, conhecidos como o “Quadrado Picoral”: 24 unidades, 14 delas de frente para o oceano. Outros tantos chalés estavam espalhados pela Rua Carlos Flores e por toda a vila.

A pequena vila de Torres não possuía infraestrutura para receber os hóspedes adequadamente. Por isso, Picoral não hesitou em criar as melhores condições, agregando ao hotel uma torrefação de café, uma marcenaria e serraria, uma fábrica de colchões, um frigorífico, uma usina elétrica, uma estação hidráulica, horta e matadouro – tudo o que era necessário para a autossuficiência e o conforto dos visitantes. Graças a essa estrutura, aprimorada por suas viagens pela Europa, onde absorveu o melhor dos principais balneários, o empreendimento se tornou referência de turismo classe A em todo o estado.

O sucesso do hotel foi amplificado por sua inovadora forma de divulgação, com folhetos espalhados pela capital e anúncios nas principais rádios da época. O filme produzido por seu filho, Zequinha, que exibia o esplendor de Torres e do Hotel, foi uma ferramenta de divulgação poderosa.

Picoral foi muito além das dependências do hotel. Ele preparou toda a infraestrutura necessária para o funcionamento do complexo e para a pequena vila. Não bastava trazer 500 pessoas à praia sem o mínimo conforto e bem-estar. Assim, foi essencial proporcionar uma estrutura de cidade para esses “novos turistas”, oferecendo luz, água e esgoto – tudo por sua conta. Além da serraria, carpintaria, fábrica de colchões, matadouro e torrefação de café, ele contratou e capacitou a mão de obra local. Cargos mais especializados, como cozinheiro e confeiteiro, eram trazidos da capital. Ele até mesmo contratou o primeiro “salva-vidas” da região.

Fica evidente que Picoral deu o pontapé inicial em toda a estrutura de uma cidade. A eletricidade do hotel, por exemplo, foi estendida e fornecida para o restante dos habitantes. A visão e o capital empreendedor de Picoral foram determinantes para o início do ciclo do turismo de massa e a transição de uma pequena vila para uma próspera estação balneária.

 

O Legado de um Pioneiro

De 1915 a 1941, perdurou o ciclo inicial de criação. Após esse período, surgiram os “Amigos da Praia de Torres”, e o desenvolvimento chegou, espalhando-se pelo promissor balneário.

Em 1941, o Balneário Picoral encerrou suas atividades. Sob a justificativa de que um grande hotel seria construído em seu lugar, o governo estadual confiscou a principal fonte de renda do empreendimento: o famoso Quadrado Picoral.

Na noite de Natal de 1946, aos 69 anos, Picoral faleceu, vítima do que se chamava na época de “desgosto” (hoje, depressão) pela perda de seu empreendimento. Morreu o cidadão, nasceu o mito. Até hoje, Torres vive de seu legado: o turismo.




Veja Também





Links Patrocinados