Caminhada em Torres… (entre a crônica poética e a observação)

"Para meu deleite, a cidade é cheia de nuances, fragmentada e com muita beleza e também muitos problemas. Problemas recorrentes que teimam e permanecem ali, ao nosso lado, seja para onde se olhe"

26 de maio de 2026

‘Uma praça, duas praças, várias praças bem cuidadas (pelos moradores);

Barulho de martelos, bate estacas, conversas de trabalhadores;

Rua esquecida pela prefeitura, pelos moradores, por (quase) todos;

Filhotes bem novinhos abandonados e salvos por alguém;

Pedras no lugar de rua, água no lugar das pedras, pedras no lugar de calçada;

Conserto mal feito, pessoas desviando;

Mãe no lugar do filho, filho no lugar da mãe;

Bom dia, Bons dias, muitos, muitos;

Rostos sérios, rostos alegres, rostos indiferentes;

Quiosques adormecidos, outros acordando;

Academia da terceira idade e de outras idades, por que não;

Pose para foto, tira outra, obrigado apressado;

Salve a praia de Torres contra os espigões e a favor de quem;

Alheia a tudo a menina passeia entre os desenhos do protesto;

De longe a mãe chama pela menina esquecida entre os pensamentos;

Outra academia da terceira idade (melhor idade, talvez), está movimentada, movimentando; sem compromisso, pela saúde, pela saudade, pela vida;

Mais amigos, conhecidos, vistos, observados, vivos;

Um grito rompe o silêncio barulhento do mar, um quero-quero, quer o quê;

Olha a bicicleta atropelando, atropelada, no lugar ou sentido errado;

O filho da mãe consolado pela mãe do filho;

Um abrigo do passado, não abriga mais nada;

Uma loja de surf no inverno da praia, enferruja suas grades esperando o verão;

Mais praça, caminho de volta;

Praça nova, velha mal cuidada, por quem;

Ruas novamente esquecidas;

Talvez lembrada por mim;

Filosofando;

Não.

Caminhando;

Menos que devia;

Mais do que queria.

Outono e Inverno!’

 

Este é um poema em prosa — ou uma crônica poética — que registra uma caminhada observacional pela orla de Torres (RS). Prática que é realizada por muitas pessoas, principalmente aquelas que já passaram alguns anos dos 50 e têm a caminhada como sua principal atividade física.

Para meu deleite, a cidade é cheia de nuances, fragmentada e com muita beleza e também muitos problemas. Problemas recorrentes que teimam e permanecem ali, ao nosso lado, seja para onde se olhe.

Essas caminhadas têm esse “plus”. Porque caminhar pelas ruas não é tão simples como se pensa. Não, não é só colocar o velho “abrigo”, o tênis preferido e andar. Caminhar pelas ruas da cidade requer olhar para baixo, para cima, para os lados, para trás e para a frente. Nenhum desses parâmetros pode ser esquecido sob pena de um tropeço, uma queda, um atropelo…

Esses cuidados, muitas vezes exagerados, me levam a observar (e, talvez, ser observado). Durante todo o percurso da caminhada fico montando uma estrutura fragmentada, quase cinematográfica — flashes de cenas urbanas e humanas captadas em movimento, como anotações mentais de quem passa e vê. E essa prosa ou crônica poética é fruto desses exagerados cuidados — e da certeza, cada vez mais firme, de que caminhar é também uma forma de não esquecer que ainda estamos aqui, vivos, entre o outono e o inverno da vida.

 




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