CASA SANDUÍCHE (Quando a arquitetura ousou desafiar os padrões em Torres)

"No final dos anos 60, quando criança em Torres, entre tantas casas que víamos permanecer fechadas boa parte do ano, uma se destacava pela excentricidade. Era uma casa inteiramente de concreto que lembrava duas grandes cumbucas empilhadas, uma sobre a outra. O que seria aquilo?"

FOTO - Antiga 'Casa Sanduiche', em Torres
4 de agosto de 2026

Lá pelos anos 1960, a cidade de Torres começou a testemunhar uma grande transformação, principalmente na antiga orla e na área que hoje chamamos de Centro Histórico. Para os mais jovens, talvez seja difícil imaginar que a cidade praticamente se resumia à região central, à Avenida Barão do Rio Branco e a algumas ruas que dela irradiavam.

Essa mudança foi registrada pelo então prestigiado Jornal Folha da Tarde, em 5 de fevereiro de 1969, na reportagem “As lindas residências em Tôrres” — assim mesmo, com acento. Nela, o jornalista Luis Carlos Lisboa destacava as belas casas que estavam sendo construídas na cidade e observava a substituição dos antigos bangalôs de madeira por residências consideradas mais modernas. Outros jornais da época também chamavam atenção para essa transformação, descrevendo a passagem do antigo balneário de veraneio aristocrático para um grande canteiro de obras, onde o concreto armado avançava sobre as dunas em todas as direções.

Lembro que, na Rua Bento Gonçalves, tanto na subida quanto na parte alta, próxima à Júlio de Castilhos, existiam inúmeras casas de veraneio. Todas, sem exceção, chamavam minha atenção pelo tamanho e pela beleza. Muitas ocupavam o centro dos terrenos, deixando amplos jardins e o paisagismo da época brilharem diante dos olhos de quem passava.

A grande dúvida que nós, crianças, tínhamos era sempre a mesma: por que aquelas casas permaneciam fechadas durante quase todo o ano? Eram tão bonitas e pareciam nunca ser habitadas. Eram dúvidas de criança.

Entre todas elas, porém, uma se destacava pela excentricidade. Era uma casa inteiramente de concreto que lembrava duas grandes cumbucas empilhadas, uma sobre a outra. O que seria aquilo? Diferentemente das demais, ela não possuía jardim voltado para a rua, apenas um pátio interno. Ainda assim, sempre que passava em frente, parava para admirá-la.

Naquele tempo, poucas residências de veraneio ousavam romper completamente com os modelos tradicionais. A maioria ainda seguia o padrão dos chalés ou das casas com telhados aparentes. A Casa Sanduíche, ao contrário, apostava em volumes escultóricos de concreto, fazendo da própria forma arquitetônica seu principal elemento de expressão. Mais do que uma residência de veraneio, parecia uma obra de arte pousada entre as demais construções.

Por causa do formato, acabou recebendo o apelido de “Casa Sanduíche”. E, de fato, havia certa semelhança com a iguaria. Imagino, entretanto, que o arquiteto responsável pela obra dificilmente teria apreciado esse apelido dado à sua criação.

Anos depois, pesquisando sobre a curiosa residência e recorrendo às informações publicadas naquela reportagem, descobri que ela pertencia a uma tradicional família porto-alegrense, proprietária do famoso Hotel Everest, na capital.

A residência modernista foi projetada na década de 1960 pelo arquiteto Alberto Fett, o filho mais novo da família. Foi ele quem desenhou a casa de veraneio para seus próprios familiares. O projeto revela forte influência da arquitetura moderna brasileira, especialmente das linhas orgânicas e das estruturas em concreto armado que remetem diretamente às obras de Oscar Niemeyer produzidas naquele mesmo período.

Nas décadas de 1950 e 1960, o litoral norte do Rio Grande do Sul — especialmente Torres e Tramandaí — viveu uma verdadeira renovação arquitetônica, impulsionada por famílias da elite porto-alegrense e por profissionais ligados ao movimento moderno. A proposta era romper com o padrão das antigas casas de madeira e dos tradicionais chalés de tijolo aparente, incorporando o concreto armado, grandes panos de vidro, pilotis, telhados-borboleta e platibandas. Inspirados principalmente pela arquitetura moderna carioca, esses profissionais encontraram no litoral um verdadeiro laboratório de experimentação. Longe do conservadorismo que predominava nos bairros residenciais de Porto Alegre, puderam desenvolver projetos ousados, marcados por linhas curvas, formas geométricas inovadoras e soluções plásticas que fizeram da Casa Sanduíche um de seus exemplares mais emblemáticos.

Dessa verdadeira revolução arquitetônica restaram poucos exemplares espalhados pelo litoral. São testemunhos de uma época em que a arquitetura buscava inovar e experimentar novas formas de morar. Infelizmente, a verticalização que veio nas décadas seguintes acabou ocupando o espaço dessas preciosidades. Aos poucos, cada casa, cada jardim e praticamente toda essa paisagem urbana foram substituídos por edifícios que ocuparam quase a totalidade dos terrenos, eliminando uma parte importante da identidade arquitetônica da cidade.

E a Casa Sanduíche?

Bem, ela também teve o mesmo destino.

Felizmente, a memória da residência não desapareceu por completo. O arquiteto responsável pelo edifício que ocupou seu terreno decidiu prestar uma homenagem ao projeto original. No espaço destinado às garagens, recriou o desenho das duas grandes cumbucas que deram fama à residência, preservando, ainda que de forma simbólica, a lembrança de que ali existiu uma casa muito à frente do seu tempo.

fotos do acervo de Evandro Elias (via Facebook Torres em outros tempos)

 

É uma homenagem discreta, mas suficiente para recordar que, naquele endereço, a arquitetura ousou desafiar os padrões e deixar sua marca na história de Torres.

 




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