EASTHEWALDO: Os faróis de Torres e o faroleiro

O Farol de Torres, quando ainda era guarnecido, teve seus guardiões. Faroleiros. Palavra bonita, que quase ninguém usa mais. Entre eles, um nome brilha com luz própria: Easthewaldo Gonçalves.

O primeiro Farol de Torres, em 1912, foi o mais glamoroso, com sua torre Mitchell, francesa, feita com placas de aço que duraram pouco tempo
20 de agosto de 2025

Outra parada obrigatória no tour virtual pela cidade tem que ser o farol. Na torre norte, transformada em Morro do Farol — exclusivamente pela presença dele — está boa parte da história de Torres. Lá conviveram, lado a lado, um cemitério, três dos quatro faróis da cidade e uma escola, todos observando a amplidão do mar e a pequena vila de então. Essa rica história poderia ser contada através de vários totens espalhados ao longo do morro — seriam como páginas de um livro desfolhado. Ou melhor: o muro que protege (e esconde) o antigo farol poderia servir de suporte para essas histórias. Então, vamos a elas…

O Farol de Torres, quando ainda era guarnecido, teve seus guardiões. Faroleiros. Palavra bonita, que quase ninguém usa mais. Entre eles, um nome brilha com luz própria: Easthewaldo Gonçalves.

Quem nos conta é Roberto Venturella, no livro A História do Farol de Torres. O curioso é que, ao se aposentar, Easthewaldo não quis voltar para casa. Preferiu fazer de Torres o seu porto final. Uma escolha que poucos compreendem, mas que revela um tipo de amor que não se explica — só se vive.

FOTO – Antigos faróis de Torres  (FOTOS – Arquivo Casa de Cultura de Torres)

 

Uns o chamavam de Estevaldo, outros de Aestevaldo — essas trocas são comuns quando a oralidade fala mais alto que o papel. Mas o que importa mesmo é que ele ficou. Foi o único entre os faroleiros que aqui viveu até o fim, criando laços com o lugar e com a gente. E, no entanto, eu nunca tinha ouvido falar dele. Nem dele, nem dos faroleiros. Imagino que muitos também não saibam que, por 46 anos, homens como Easthewaldo zelaram por aquele ponto alto da cidade, acendendo luzes que salvavam vidas.

Em 25 de janeiro de 2012, o Farol de Torres completou 100 anos de existência — e não houve qualquer comemoração. Nenhuma homenagem, nenhum gesto, nenhuma lembrança ao velho centenário que orientou gerações de navegantes. Claro, o farol original já não estava mais lá, mas seus descendentes, sim.

Morro do Farol – (FOTO em Infinity Imobiliária / Descubra Torres)

 

Sei bem que hoje os faróis perderam espaço para satélites, GPS e aplicativos, mas, há mais de um século, eram indispensáveis. Na gestão do contra-almirante Alexandrino Faria de Alencar — que dá nome a uma rua da cidade —, como Ministro da Marinha, foram autorizados nove faróis na costa gaúcha. E foi em 1908, por meio de uma lei orçamentária, que nasceu o projeto do nosso farol.

Desde 1912, quando foi construído o primeiro farol, a costa torrense nunca mais ficou às escuras. Foram quatro faróis que se revezaram nestes cem anos. O primeiro, em 1912, foi o mais glamoroso, com sua torre Mitchell, francesa, feita com placas de aço que duraram pouco tempo (à esquerda na fotografia acima). Em 1928, veio o segundo, uma torre tipo esqueleto, em forma piramidal (no centro da foto), que, pela estrutura, permaneceu em pé por 24 anos. Em 1952, o terceiro farol (à direita da imagem) foi construído com estrutura de concreto, tijolo e argamassa — e esse sim, feito para durar, permaneceu. Embora tenha sido substituído pelo quarto e último farol em 1993, ele ainda está na torre norte, servindo a propósitos não menos importantes. O quarto farol, na verdade, ocupa a torre da antiga CRT, e é certamente o menos expressivo — embora seja o mais alto de todos.

Esses dados foram retirados do livro de Roberto Venturella, que escreveu brilhantemente a história deste farol através de pesquisas e da memória oral resgatada de parentes e moradores da cidade. Foi uma grande homenagem ao Farol de Torres feita em 2006 — seis anos antes do centenário — e que recomendo a todos que, um dia, subiram no Morro do Farol e se questionaram sobre a existência e a importância dessa estrutura na torre norte.

O Farol de Torres é um patrimônio — e, como todo patrimônio, exige cuidado. Hoje, sem a devida manutenção, pede por restauração, não apenas para continuar de pé, mas para seguir iluminando, por mais cem anos, as rotas da memória. Porque um farol é mais do que uma estrutura: é vigília, é sinal, é permanência. Precisamos desses marcos silenciosos, dessas luzes fixas no tempo, para lembrar dos faroleiros, dos navegantes — e, sobretudo, de nós mesmos.

 

Referência
VENTURELLA, Roberto. A História do Farol de Torres. Porto Alegre: AGE, 2006.




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