EM BUSCA DE UM PRATO SÍMBOLO: ‘Tapas’ para Torres

As Tapas são oferecidas até de graça (para quem estiver pagando por bebidas) em restaurantes de Madrid, e são um clássico da culinária espanhola... Torres ainda não tem, pelo menos a meu ver, um prato que tenha se transformado em símbolo gastronômico da cidade.

1 de setembro de 2026

Madrid, Espanha. Saindo da Gran Via, seguindo umas duas quadras, dobrando à direita e continuando até quase o final da rua, lá está o El Tigre Sidra Bar. Por fora, a fachada parece um pouco antiga, diria até bem antiga, e a porta de entrada está escondida, quase imperceptível.

Ao entrar, você encontra um grande salão com algumas mesas em forma de barril e, no centro, quase no fim do salão, o balcão de atendimento. Em volta das mesas, as pessoas, em pé, bebem, comem e conversam animadamente. Até aí, retirando os barris, nada diferente de qualquer lugar do mundo.

Escolhemos uma mesa (barril), esperamos o garçom e pedimos três “cañas”. É uma pequena cerveja, servida em copo, algo próximo ao que conhecemos aqui no Brasil como um copo de cerveja. Junto com as cervejas vieram três “tapas”.

Não, não é o tapa que entendemos por aqui. Essa “tapa” é um petisco, uma pequena porção de comida servida de graça em alguns bares e restaurantes na Espanha, especialmente em lugares como esse, em Madrid. Ou seja, você paga para beber e recebe a comida de graça. Trata-se de um clássico da culinária espanhola, criado para acompanhar uma bebida.

Diferentemente do que acontece em outros bares, no El Tigre as tapas são bem generosas: travessas com batatas bravas, croquetes, asas de frango, bocaditos com jamón ibérico, tortilla, arroz com açafrão, entre outros. Para cada bebida alcoólica pedida, uma “tapa” generosa é servida.

Assim como o El Tigre, existem outros lugares interessantes para beber e comer tapas de graça, mas eles já não são tão frequentes como eram no passado. Atualmente, a maioria dos restaurantes possui tapas no seu menu, porém elas são cobradas.

Outro bar bastante conhecido e, também, muito antigo é o El Anciano Rey de los Vinos. Assim como o seu nome, sua existência também é longa. Entrar no El Anciano é como visitar o passado. Um longo balcão separa o cliente dos atendentes, que recebem os pedidos com gentileza e rapidez. Você pensa em pedir uma “caña” e ela já está servida, acompanhada de uma “tapa”, igualmente generosa como no El Tigre.

É difícil descrever a atmosfera do lugar, mas garanto que é especial. Para cada lado que se olha é possível visitar o passado e ter a certeza de que a tradição está ali, nas paredes, nas mesas, no balcão e no rosto dos atendentes. As “tapas” fazem parte desse pacote de tradição e continuam preservadas juntamente com esse lendário local.

Mas afinal, de onde veio esse costume?

A origem das tapas é cercada de histórias e lendas. Como tantas outras tradições antigas, não existe apenas uma versão. Vou contar as duas mais conhecidas.

A primeira, e mais repetida na Espanha, é a do decreto atribuído a Afonso X, no século XIII. Diz a história que o rei Afonso X contraiu uma doença grave. O médico real teria prescrito que ele tomasse alguns goles de vinho ao longo do dia para aliviar as dores. Para evitar que o álcool subisse à cabeça e ele ficasse embriagado, o rei passou a comer pequenas porções de alimento entre um gole e outro.

Após se recuperar, percebeu o benefício do hábito. Preocupado com a embriaguez pública dos trabalhadores e dos condutores de carroças, o monarca teria determinado que nenhuma taberna de Castela poderia servir vinho sem que ele fosse acompanhado por uma pequena porção de comida.

Outra versão aponta para o rei Fernando II de Aragão, um dos Reis Católicos, durante uma viagem pela Andaluzia. Ao parar em uma taberna cheia de moscas, ele teria pedido algo para proteger sua bebida. O taberneiro pegou uma rodela de chouriço ou queijo, colocou sobre o copo e disse: “Aqui está sua tapa, Majestade”, criando, segundo a lenda, o costume.

São histórias que talvez não possam ser tomadas como fatos históricos comprovados, mas ajudam a explicar como a tradição das tapas chegou até os nossos dias.

Está aí um belo exemplo de gastronomia interagindo com a cultura e a história de um país, de um estado ou de uma região mais específica. Aqui no Brasil temos alguns exemplos, como a feijoada no Rio de Janeiro, o vatapá na Bahia e o churrasco no Rio Grande do Sul, todos com raízes na cultura e na história dos locais.

 

Prato símbolo para Torres

Torres ainda não tem, pelo menos a meu ver, um prato que tenha se transformado em símbolo gastronômico da cidade. Aqui acabamos reproduzindo pratos típicos de outras regiões litorâneas, onde quase tudo gira em torno de peixes e frutos do mar. Temos a casquinha de siri como um produto gastronômico com grande apelo nos bares e restaurantes, porém ela não é exclusividade de Torres. Boa parte do litoral gaúcho e catarinense oferece esse prato.

Já tentaram “fabricar” pratos que seriam típicos daqui, porém nenhum realmente funcionou. E talvez o problema esteja justamente na tentativa de fabricar uma tradição. Tradições gastronômicas normalmente nascem de outra maneira: daquilo que existe no lugar, dos costumes, dos ingredientes disponíveis e das histórias que as pessoas contam e repetem ao longo do tempo.

Está aí uma ideia que poderia ser colocada em discussão: aproveitar culturas, costumes e histórias e transformá-los em uma oferta gastronômica original. Quem sabe um tipo de “tapa” torrense para acompanhar uma bebida?

No início do século passado, Balbino de Freitas criou aqui em Torres um molho que ficou conhecido nacionalmente. Há uma história de que a fórmula do famoso molho “Farrapo” poderia ter alguma relação com o molho “Brasil”, criado por Balbino. Se isso for verdade — e esse é um assunto que ainda merece investigação — já temos pelo menos um ingrediente para começar a pensar.

Uma casquinha de siri, molho Brasil (Farrapo) e uma caipirinha de marisqueira. Pronto. Talvez ainda faltem alguns ajustes, uma receita definitiva e, principalmente, alguém disposto a transformar a ideia em tradição.

Mas é assim que muitas tradições começam: alguém junta ingredientes que estão à mão, acrescenta uma ideia e coloca a novidade sobre a mesa.

Acho que encontrei a nossa tapa.

 




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