Ah sobrenomes!
Sabe aqueles sobrenomes que a gente carrega com tanto orgulho, pensando que são um legado único dos nossos antepassados? Pois é, prepare-se para uma pequena surpresa: seu sobrenome pode não ser tão seu assim! Isso mesmo. Um mesmo sobrenome pode ter se originado em diversas famílias sem nenhuma ligação genética entre si.
Rodrigo Trespach, em seu livro “Cidade dos Ventos”, nos dá um ótimo exemplo: a família Schumacher, sobrenome comum na Alemanha que, literalmente, significa “sapateiro”. Imagina só: em cada cidadezinha, em cada vilarejo, se tinha um sapateiro chamado Hans ou Klaus, pronto! Nascia ali mais uma linhagem de Schumachers, sem que um tivesse qualquer laço com o outro.
O Trespach ainda nos lembra que o uso dos sobrenomes, como a gente conhece hoje, veio surgindo aos poucos, meio que de mansinho, acompanhando o avanço dos registros. Primeiro os eclesiásticos, depois os civis. Aliás, foi depois do Concílio de Trento (lá por 1545–1563) que virou obrigação documentar os batismos e, mais tarde, os casamentos e óbitos. No começo, era só o nome da criança, no máximo o do pai. Mas aí, com o tempo – e a necessidade de garantir direitos sobre terras e heranças –, os sobrenomes viraram herança de família, passados de geração em geração com mais regularidade.
Mas essa história é mais complexa do que parece. Tenho um exemplo na minha própria família: meus avós paternos tinham o mesmo sobrenome – Dalpiaz – e não eram parentes de sangue. O que aconteceu foi que duas famílias com o mesmo sobrenome vieram para a mesma região, Barra do Ouro/Maquiné, e, fato comum naquela época, casaram entre si. Meu avô Carlos Dalpiaz, filho de Bortolo Dalpiaz e Maria Tramontin Dalpiaz, casou-se com minha avó Paulina Dalpiaz, filha de Augusto Dalpiaz e Melania Mansan Dalpiaz. Dessa união nasceu meu pai, Lerio Dalpiaz. Ele teve apenas um “Dalpiaz” em seu nome, mas poderia ter sido “Lerio Dalpiaz Dalpiaz” se as regras usualmente aplicadas aos sobrenomes dos filhos fossem seguidas duplamente.
A Origem do Sobrenome Dalpiaz
Faz um tempo, eu escrevi sobre sobrenomes e dei uma atenção especial aos primeiros imigrantes, principalmente os açorianos que chegaram por aqui. Mas a curiosidade sobre a coincidência do sobrenome dos meus avós me cutucou e me fez mergulhar de cabeça na pesquisa do meu próprio sobrenome: Dalpiaz.
O sobrenome Dalpiaz é particularmente comum na região do Trentino, no norte da Itália, com muitas ocorrências em cidades como Terres, Cis, Denno, Tassullo e Flavon, na província de Trento. Embora exista outra vertente que afirma ser um sobrenome patronímico, comum no norte da Itália, especialmente nas regiões de Veneza e Friuli-Venezia Giulia. No Brasil, o sobrenome é frequente nas regiões sulinas como Rio Grande do Sul e Santa Catarina, resultado da imigração italiana nos séculos XIX e XX.
Dalpiaz deriva da palavra italiana “piazza”, que significa “praça”, “lugar aberto”, “mercado” ou “estrada larga”. Essa palavra, por sua vez, tem raízes no latim “platea” e “plateaum”, e no grego “plateia”, que é a forma substantiva de “platys” (largo ou amplo). A partícula “Dal” ou “Del” em sobrenomes italianos geralmente indica “da” ou “do”, ou seja, “da praça” ou “do lugar onde há uma praça”. Isso sugere que os primeiros a adotar esse sobrenome poderiam ser originários de uma localidade com esse nome ou, ainda, que algum ancestral mantinha um ofício em uma praça ou local público aberto. E tem outra versão que eu achei interessante: pode vir do italiano “da Piaz” ou “De Lapi”, ligada à palavra “pedra” e, quem sabe, associada aos antigos pedreiros.
O Brasão de Família Dalpiaz: Uma Questão de Heráldica

Nas pesquisas sobre o sobrenome Dalpiaz, encontrei um brasão atribuído à família Dalpiaz. A princípio, achei muito interessante, pensando que realmente seria o brasão da minha família. Mais uma vez, fui pesquisar e cheguei à conclusão de que não era “bem assim”. O brasão/escudo é uma representação de heráldica associada ao sobrenome Dalpiaz, mas provavelmente compilada de registros históricos por uma empresa. Ele não é necessariamente “falso”, mas também não significa que seja o brasão “oficial” ou “único” de todas as pessoas com o sobrenome Dalpiaz. Para confirmar a autenticidade e a linhagem específica à qual ele pertence, seria necessária uma pesquisa genealógica e heráldica mais detalhada.
É importante entender que não existe um único brasão de armas “verdadeiro” para um sobrenome. A heráldica é concedida a indivíduos ou famílias específicas (linhagens), não a todos que compartilham um sobrenome. Diferentes ramos de uma mesma família podem ter brasões distintos, ou pessoas com o mesmo sobrenome, mas sem parentesco direto, não compartilham necessariamente o mesmo brasão.
O brasão que me foi apresentado, e que ilustra a coluna, tem origem comercial, como indicado na parte inferior: “Copyright by The Historical Research Center 1987”. A imagem foi criada e vendida por uma empresa especializada em pesquisa de sobrenomes e produção de “brasões de família”. Essas empresas geralmente compilam informações de registros heráldicos existentes e criam representações.
Embora não seja um brasão oficial para todos os “Dalpiaz”, é possível que os elementos presentes nesse escudo (as cores, a águia, as estrelas) sejam baseados em descrições heráldicas associadas a alguma linhagem da família Dalpiaz na Itália em algum momento da história. No entanto, sem uma pesquisa heráldica aprofundada, é impossível confirmar se este brasão foi concedido ou usado por uma família Dalpiaz específica e documentada. Ou seja, é bonito e decorativo, mas apenas isso.
NB.: Texto em homenagem ao meu avô Carlos Dalpiaz, meu pai Lerio Dalpiaz e minha irmã Maria Janine Dalpiaz Rescke, todos aniversariantes do mesmo dia: 08 de Outubro.
Referência: TRESPACH, Rodrigo. Cidade dos Ventos. Porto Alegre: Editora Pragmatha, 2014.
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