HISTÓRIA: No tempo em que o Parque da Guarita tinha dono

"Essa foto é de um tempo em que o Parque da Guarita não era parque. Não era do Estado, nem do município. Tinha gente morando ali. Era dos torrenses — daqueles que chegaram, ficaram, criaram raiz.

28 de abril de 2026

Ah, as fotos antigas… como elas falam. Falam do passado, cutucam o presente e, às vezes, parecem até sussurrar alguma coisa sobre o futuro.

“Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo.” A frase é de George Santayana, lá do início do século passado (The Life of Reason, 1905–1906), e cai bem como porta de entrada para esta pequena investigação feita em documentos antigos — e que começa justamente com esta imagem.

Como o material é farto, resolvi dividir em uma série. Aos poucos, em pequenas colunas, vou mostrando os caminhos, as decisões e também as contradições que levaram à criação do Parque da Guarita.

Ah! Antes que eu esqueça: essa foto aí de cima é de um tempo em que o parque não era parque. Não era do Estado, nem do município. Tinha gente morando ali. Era dos torrenses — daqueles que chegaram, ficaram, criaram raiz. Casas simples, muitas cercadas, vida tirada do mar e do trabalho de cada dia.

Existem outras imagens que mostram ainda mais gente espalhada por esse espaço — inclusive pelas bandas da Torre do Meio. E há também documentos. Um deles, que tive acesso, delimita os terrenos dentro da área que hoje é o parque, com o nome de cada proprietário. Foi feito pelo Estado, já pensando na indenização quando viesse a desapropriação.

Olhando bem a foto — que deve ser ali pelos anos 1920 ou 30 — dá para ver que não era vazio, como às vezes a gente imagina. Havia casas. Havia cercas. E o mais curioso: os morros, que hoje são símbolo da cidade, pareciam ter dono.

Mais adiante, em fotos das décadas de 50, 60 e até 70, isso ainda aparece: casas, terrenos marcados, gente vivendo por ali. O parque, do jeito que conhecemos hoje, só começa a tomar forma mesmo a partir dos anos 70 — e é aí que a história começa a virar.

O que hoje é um dos cartões-postais mais bonitos do Brasil nasceu de um projeto grande — e também cheio de discussão — de preservação e turismo.

Tudo começa, oficialmente, em 1971.

Naquele tempo, a Guarita era outra coisa. Estradas de chão, alguns casebres de pescadores, nada de asfalto, nada de calçadão. Era um lugar bruto, aberto, com as torres de basalto dominando a paisagem e a vegetação ainda sem muita interferência.

No dia 28 de dezembro de 1971, o então governador Euclides Triches assinou o documento que declarava a área como de utilidade pública. Era o começo.

O plano era ambicioso: um parque com 1.232 hectares — coisa grande — com a ideia de proteger a área e segurar o avanço da especulação imobiliária, que já dava sinais naquela época. Sim, isso não é de hoje.

Mas, como quase sempre acontece, o plano não ficou exatamente como no papel.

Dos 1.232 hectares, o parque encolheu para cerca de 350. E, dentro disso, algo entre 15 e 40 hectares virou, de fato, área de lazer cercada.

O que aconteceu nesse caminho?

É isso que vou tentar responder, aos poucos, com base nos documentos e nas histórias que vão aparecendo.

Seguimos na próxima semana.

 




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