Pouca gente sabe, mas Torres também teve o seu cassino.
Hoje quase não restam informações sobre ele. Algumas fotografias antigas, referências espalhadas em documentos e a memória silenciosa de um tempo em que os jogos de azar faziam parte da vida elegante dos balneários brasileiros.
Os jogos de azar foram proibidos oficialmente no Brasil em 1946, durante o governo de Eurico Gaspar Dutra. Desde então, os cassinos desapareceram do país — ao menos no papel. Basta olhar ao redor para perceber que o jogo nunca deixou realmente o cotidiano brasileiro. Loterias oficiais, jogo do bicho, máquinas caça-níqueis e, mais recentemente, as famosas “bets” mostram que apostar continua sendo um hábito nacional.
Mas esta coluna não é sobre as apostas atuais. É sobre os antigos cassinos brasileiros — e sobre um pequeno e quase esquecido cassino que existiu aqui no litoral gaúcho.
A história dos cassinos no Brasil remonta ao período imperial, mas foi entre as décadas de 1930 e 1940 que eles viveram sua era de ouro. Naquele tempo, os cassinos eram muito mais do que locais de jogo. Misturavam luxo, música, bailes e grandes espetáculos.
Lugares famosos como o Cassino da Urca e o Copacabana Palace recebiam artistas nacionais e internacionais. Nomes como Carmen Miranda, Emilinha Borba, Grande Otelo e Frank Sinatra passaram por esse universo glamouroso que marcou a vida cultural brasileira da época.
Aqui pelo sul, o mais famoso foi o Casino Hotel, localizado na cidade de Rio Grande. Inaugurado em 1890, junto ao então balneário Vila Siqueira — que mais tarde herdaria o nome Cassino — o hotel ainda estava inacabado quando abriu suas portas, contando com apenas quatorze quartos prontos.
Não tinha o mesmo glamour dos grandes cassinos cariocas, mas oferecia aos visitantes uma estrutura impressionante para a época: dezenas de quartos, grandes salões de baile e concertos, salas de leitura, restaurante e até bondes puxados a burro que transportavam os banhistas ao longo da avenida principal.
O hotel viveu seus tempos áureos até a primeira proibição dos jogos, em 1917. Depois disso, passou por períodos de funcionamento clandestino e reaberturas temporárias. Durante a Segunda Guerra Mundial, chegou a servir como quartel do Exército brasileiro, uso que provocou profundas alterações em sua estrutura.
Hoje, funcionando como Hotel Atlântico, o antigo prédio ainda carrega nas paredes as marcas do tempo — e a memória de um empreendimento que acabou dando nome a toda uma localidade.
Mas o que pouca gente sabe é que Torres também teve o seu cassino.
Na fotografia que acompanha esta coluna, vê-se uma procissão passando em frente ao antigo Hotel Farol e ao Tênis Club, local onde, supostamente, teria funcionado o cassino da cidade. Na época da imagem, ele provavelmente já não operava mais, pois o letreiro da fachada, onde antes se lia “Cassino”, já havia sido substituído por “Tênis Club”.
Os registros sobre esse antigo cassino de Torres ainda são escassos. O tempo apagou quase tudo: as mesas, os jogos, os frequentadores e até mesmo as histórias daquele lugar. Restaram apenas algumas fotografias antigas e a curiosa lembrança de que, um dia, até Torres fez parte do universo elegante — e efêmero — dos cassinos brasileiros.
Fontes: João Barcellos, Cassino História e Ambientes: A educação e a sua preservação; Célia Maria Pereira, Memórias de um Balneário: Patrimônio edificado do Cassino; Alessandra Buriol Farinha, Casino Hotel: Um local de memória e turismo cultural no Balneário Cassino – RS; Diário do Rio – História dos cassinos no Rio

