O que fazer com um prédio antigo, de valor histórico, bonito — arquitetonicamente falando — e localizado no centro histórico da cidade?
Ora, restaurá-lo e transformá-lo em um atrativo turístico, com potencial econômico suficiente para mantê-lo conservado, apto a ser visitado e mostrado aos moradores locais e aos visitantes.
Fácil! Bem, escrevendo até parece fácil. Na prática, porém, algumas vezes isso pode levar muito tempo — muito tempo mesmo. Há lugares onde a história se construiu, modificou-se, preservou-se e incorporou-se ao cotidiano ao longo de séculos.
Vou contar um pouco da história da Mesquita-Catedral de Córdoba, na Espanha.
A Mesquita-Catedral de Córdoba é um daqueles lugares que ajudam a entender o que significa transformar patrimônio histórico em atração turística. Sua história atravessa diferentes períodos, culturas e usos. O que hoje o visitante encontra é resultado de séculos de transformações, ampliações e adaptações.
E talvez esteja justamente aí uma das suas maiores riquezas.
Não é simplesmente um prédio antigo. É um lugar onde a história ficou materializada nas paredes, nas colunas, nos arcos e nos diferentes elementos arquitetônicos incorporados ao longo do tempo.
A visita ao monumento não exige, necessariamente, um dia inteiro; pode durar menos de uma hora, dependendo da forma como é feita. Mas o visitante não vai a Córdoba apenas para ficar dentro da Mesquita-Catedral. Ele está em uma cidade que soube transformar seu patrimônio histórico em parte importante de sua identidade e de seu produto turístico.
Estive em Córdoba e visitei a Mesquita-Catedral. E aconteceu comigo algo que talvez seja mais importante do que o próprio tempo gasto dentro do monumento: fiquei um dia a mais na cidade por causa daquele conjunto histórico.
É aí que começa a questão que quero trazer para Torres: O que fazer com os nossos prédios antigos?
A resposta, na minha opinião, não deveria ser simplesmente deixá-los envelhecer até desaparecerem. Também não deveria ser restaurá-los apenas para que fiquem bonitos. É preciso dar-lhes uma função.
Trazendo a história de Córdoba para cá, para Torres, podemos resgatar não um, mas pelo menos três patrimônios que, se adequadamente recuperados e incorporados a um roteiro, poderiam agregar muito ao que já possuímos e ajudar a formar um belo e importante centro histórico.
Sabe-se que, em lugares cuja principal atração turística é o sol e o mar, muitas vezes o patrimônio histórico acaba ficando em segundo plano ou até sendo esquecido. “Quem vem para a praia não quer saber de casa velha ou de museu”, poderiam dizer alguns.
Mas será mesmo?
Nem todos os dias têm sol. Nem todos os dias o visitante quer ficar o dia inteiro na areia. E mesmo quando o sol aparece, chega uma hora em que é interessante fazer alguma coisa diferente.
É justamente aí que surge a oportunidade.
Uma cidade turística não deveria oferecer apenas um atrativo. Quanto maior e mais diversificado for o conjunto de atrações, maiores serão as possibilidades de o visitante encontrar motivos para permanecer mais tempo.
Pensemos em um roteiro simples.
Praia pela manhã. Almoço. À tarde, uma caminhada pelo centro histórico, conhecendo a Igreja São Domingos, a Casa nº 1, a antiga Prefeitura/Museu e os casarios açorianos. Em outro momento, uma visita à Vila Lothhammer, e conhecer o antigo Casarão dos Müller, construído no século XIX (por volta de 1871 ou 1881) por imigrantes alemães. E, naturalmente, tudo isso poderia ser associado aos outros pontos turísticos que Torres já possui.
Não se trata de trocar a praia pela história.
É justamente o contrário: trata-se de acrescentar a história à praia.
O turista que veio para o mar passa a ter mais uma opção de passeio. E aquele que se interessa por história, arquitetura e cultura passa a ter mais uma razão para escolher Torres.
Existe ainda outro aspecto importante.
Um visitante que encontra várias atrações interessantes em uma cidade pode utilizá-la como base para conhecer também outros lugares da região. Assim, Torres deixa de ser apenas o destino final de um passeio à praia e pode funcionar como ponto de partida para pequenas viagens e experiências no entorno.
É assim que um patrimônio histórico pode se transformar em algo muito maior do que um prédio restaurado.
Ele pode gerar visitação, movimentar restaurantes, cafés, lojas, guias, hotéis e outros serviços. Pode criar novas atividades para quem já está na cidade e, principalmente, pode ajudar a aumentar o tempo de permanência do visitante.
Quando estive em Córdoba, percebi isso na prática.
A Mesquita-Catedral não me tomou um dia inteiro. Mas foi um dos motivos para eu ficar um dia a mais na cidade.
Parece pouco. Não é.
Em turismo, um dia a mais de permanência de um visitante pode significar hospedagem, refeições, transporte, compras e outras atividades. Multiplique isso por centenas ou milhares de visitantes e teremos uma dimensão muito diferente da importância de preservar e transformar o patrimônio em produto turístico.
Talvez seja essa a grande lição que Córdoba possa nos dar.
Patrimônio histórico não precisa ser visto como um problema, como uma despesa ou como uma lembrança de um passado que já passou.
Pode ser memória, identidade, educação, cultura e também turismo.
Torres já possui parte dessa história. O que precisamos é olhar para ela com mais atenção.
Porque prédio antigo abandonado é apenas prédio velho.
Prédio histórico restaurado, preservado, contado e aberto à visitação pode se transformar em história viva.
E, quem sabe, em mais um motivo para alguém ficar em Torres por mais um dia.

