Quem é que não se valeu de um cartão-postal para dizer que está ou esteve em algum lugar? A resposta para esta pergunta há 40 anos era: todo mundo!
O Facebook, o Twitter, o Instagram e todas essas redes sociais fazem esse papel na hora — basta uma foto no stories ou no feed e pronto, todo mundo já sabe onde você está.
É, mas o cartão-postal teve seus tempos áureos! Ah, para quem não sabe, não lembra ou não ligou o nome à pessoa… o cartão-postal, bilhete-postal ou simplesmente postal, de acordo com os Correios, é uma simplificação da carta. Trata-se de um pequeno retângulo de papelão fino, com a intenção de circular pelo Correio sem envelope, tendo uma das faces destinada ao endereço do destinatário, postagem do selo, mensagem do remetente e na outra alguma figura.
Quem teve essa ideia foi o austríaco Emmanuel Hermann, um professor de Economia em Viena. Ele escreveu um artigo sugerindo que as pessoas usassem cartões abertos pra se comunicar. A ideia pegou tão bem que, em 1º de outubro de 1869, já estava valendo oficialmente. Foi um sucesso!
Mas vamos ao que interessa: esta coluna é pra falar dos cartões-postais de Torres, que ajudaram — e muito! — a promover o turismo da cidade lá atrás.
Cartões-postais de Torres
Todo mundo já ouviu falar que o turismo em Torres começou com o Balneário Picoral. E, acredite, foi o próprio Picoral que cuidou do marketing. E ele mandava bem demais! Além de construir um hotel super completo, ele sabia se vender. E uma das ferramentas que usava eram, claro, os cartões-postais.
Naquela época, as revistas e jornais não tinham muita estrutura pra publicar imagens. Era tudo bem mais limitado. Os postais ajudavam a cobrir essa falta: eram uma forma prática, bonita e acessível de mostrar lugares, paisagens, prédios, tudo o que chamasse atenção.
Os primeiros cartões com temas de Torres que se tem registro foram feitos por encomenda do próprio Picoral, entre 1915 e 1941. Ele queria divulgar a cidade — principalmente o local do seu hotel — e, para isso, mandou produzir uma série colorida com pinturas do artista italiano Vicenzo Cervasio. Os temas? Os pontos turísticos da cidade: o Portão, a Guarita, a Furna do Diamante, a Torre do Meio, a Ilha dos Lobos, a Lagoa, a Torre do Norte e a Praia da Cal.
Eu mesmo só consegui ver dois desses cartões: um da Ilha dos Lobos e outro da Furna do Diamante. O da Furna, para ser sincero, não é lá essas coisas — uma pintura meio simples, até. Mas dá para reconhecer o lugar. O da ilha é ainda mais curioso: mostra só o mar, com várias ondas, e… cadê a ilha? Não aparece. A gente só sabe que é a Ilha dos Lobos porque está escrito lá no alto do cartão.
Essa série também era vendida em folders, junto com fotos coloridas da praia de banhos e do próprio hotel. A ideia era reforçar o turismo de saúde, com banhos terapêuticos e tudo mais. Nos postais vinha escrito: “Praia Balnear – Edição Balneário Picoral”.
Consegui analisar cinco desses cartões: um com a sede do balneário, um com os chalés da rua Carlos Flores, outro da Guarita, um da sala de refeições e um da praia com os banhistas. As fotos eram todas do fotógrafo Virgílio Calegari, e quem colorizou foi novamente o italiano Cervasio. Os três primeiros mostravam a estrutura do hotel; os dois últimos focavam nas belezas naturais de Torres. Serviam tanto como lembrança quanto como propaganda.
Na época, também existiam postais em preto e branco, com fotos do rio Mampituba, da famosa Cabeça do Índio (que infelizmente não existe mais), entre outros. Mas esses eu ainda não vi de perto.
Fato é: o Picoral sabia o que estava fazendo. Usava direitinho os tais “4 Ps” do marketing: Produto, Preço, Promoção e Praça. E os cartões-postais se encaixavam direitinho no “P” de Promoção.
Em 1915, o cartão-postal já estava saindo da sua primeira fase de ouro no mundo (1901 a 1918), mas no Brasil essa fase durou mais um pouco — até por volta de 1930. E ainda era uma ferramenta super útil, principalmente pro turismo.
A segunda fase de ouro começou lá por 1961 (ou 1971, no Brasil). E, a partir daí, os cartões antigos começaram a ser vistos como documentos históricos — verdadeiros tesouros da memória.
Mas essa parte da história eu deixo pra contar na próxima coluna.
Fontes:
Franco, Patrícia dos Santos. Cartões-postais: fragmentos de lugares, pessoas e percepções.
Ruschel, Ruy Ruben. Torres tem História.
